Publicado originalmente em 1927, Amar, Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade, continua sendo uma das obras mais provocativas e cirúrgicas da literatura brasileira. Ao contrário do que o título romântico possa sugerir, o livro não entrega um idílio açucarado, mas sim uma autópsia bem-humorada e ácida da hipocrisia burguesa paulistana da década de 1920.
A trama acompanha Elza, uma governanta alemã contratada pelo patriarca da abastada família Sousa Costa. No entanto, as atribuições de Elza vão muito além de cuidar da casa: ela é admitida com a função específica de ser a “professora de amor” e iniciar sexual e emocionalmente o jovem Carlos, o filho primogênito de 16 anos.
O que torna a leitura fascinante é a forma como Mário de Andrade trata esse rito de passagem. O amor e o sexo são despidos de qualquer idealismo romântico e encarados pelo pai e pela governanta sob uma ótica puramente mercantil e prática: um serviço contratado para transformar o herdeiro em um “homem feito”, sem que ele precise se misturar com as mulheres da “sarjeta”.
Crítica Social e Inovação Estética
Mais do que um romance de formação, o livro é uma sátira brilhante. Mário de Andrade usa o choque cultural entre a racionalidade europeia de Elza e os falsos moralismos da elite cafeeira para expor as feridas de uma sociedade em pleno frenesi de industrialização, mas que mantinha a mentalidade patriarcal e provinciana.
Para quem gosta de boa literatura, a obra é um prato cheio de inovação. É aqui que Mário começa a lapidar o lirismo coloquial e as experimentações linguísticas que explodiriam um ano depois em seu clássico Macunaíma. A narrativa é ágil, irônica e cheia de intervenções do próprio autor, que conversa diretamente com o leitor.
Por que ler esta edição?
A versão de bolso da editora Antofágica (coleção Nano) traz uma roupagem pop art moderna que contrasta perfeitamente com o peso dos tabus discutidos na obra. Além de ser um calhamaço de bolso confortável, a edição enriquece a experiência com textos de apoio do pesquisador Bruno Alvarenga e documentos do próprio Mário de Andrade, ajudando a contextualizar o impacto que o livro causou na época.
Se você busca uma leitura rápida, psicologicamente densa, politicamente afiada e que desafia as convenções do que entendemos por “amar”, Amar, Verbo Intransitivo merece um lugar de destaque na sua estante.







