25 de fevereiro de 2026
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Camelos são transportados do Rio Grande do Norte para o Tocantins

A cena parecia ter sido trazida de outro hemisfério. Criaturas conhecidas como “camelos” foram registradas em vídeo descansando em uma propriedade rural no Jalapão, Tocantins, e a pergunta se espalhou na mesma velocidade: como teriam chegado ali tão de repente.

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A explicação mais simples é que não houve uma “chegada” instantânea, mas um processo organizado. A Agência de Defesa Agropecuária do Tocantins (Adapec) esclareceu que os animais foram trazidos para o estado em abril de 2024 e que toda a documentação sanitária e de transporte está em ordem, incluindo a Guia de Trânsito Animal (GTA) e os demais comprovantes exigidos por lei.

O espanto, no entanto, é compreensível. A região do Jalapão é famosa por suas chapadas, areia e clima árido, o que reforça a associação mental com o “habitat natural dos camelos”. Um morador que fez as filmagens resumiu a surpresa em uma frase: “É diferente. Até camelo tem por aqui”, ecoando o pensamento de muitos ao verem o vídeo.

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Por trás dessa mudança, há um contexto nacional pouco conhecido. Por anos, dromedários foram uma atração turística nas dunas de Genipabu, no Rio Grande do Norte, atividade encerrada em 2024, com o plano de enviar os animais para um santuário no Tocantins.

O que realmente apareceu no Cerrado tocantinense

A palavra “camelo” muitas vezes serve como um termo genérico para espécies parecidas. Tecnicamente, o dromedário é o “camelo de corcova única”, enquanto o camelo bactriano tem duas.

Isso ajuda a entender por que a cena confunde até quem está acostumado com a vida no campo. No Brasil, esses animais não são nativos e precisam de cuidados especiais, alimentação adequada e monitoramento para ter boa qualidade de vida, o que torna qualquer aparição inesperada motivo de conversa.

Do litoral potiguar ao interior tocantinense: o trajeto que explica o susto

Genipabu foi por muito tempo uma referência de passeio incomum. A empresa Dromedunas operou por 26 anos com dromedários nas areias da Praia de Genipabu, em Extremoz, na Grande Natal, até anunciar o fim das atividades em 15 de maio de 2024.

O comunicado oficial e a imprensa local apontaram a queda na procura como principal razão, após um período de dificuldades e mudanças no modelo de negócio. A operação já havia reduzido os passeios e mantido, temporariamente, apenas sessões de fotos com os animais em área particular.

No seu auge, no início dos anos 2000, a empresa chegou a oferecer 120 passeios por dia e a contar com 20 dromedários, segundo informações coletadas pela reportagem.

No encerramento, o dado crucial para a história do Jalapão é o destino. A cobertura jornalística registrou que os animais seguiriam para um santuário no Tocantins, onde um projeto relacionado à reprodução de camelídeos seria mantido.

Aqui está o elo que completa o entendimento. A chegada confirmada pela Adapec em abril de 2024, no município de Rio Sono, coincide com o período de desativação do turismo em Genipabu. É provável, portanto, que parte dos animais avistados no Tocantins venha dessa transferência, ainda que nem toda publicação mencione explicitamente a origem.

A posição da fiscalização e por que não se trata de uma invasão

Além da curiosidade, houve uma preocupação prática. Quando um animal aparece fora do esperado, surgem questões sobre fuga, riscos à saúde e impactos ecológicos, especialmente em áreas de ecoturismo.

Nesse ponto, a informação crucial é o monitoramento. A Adapec garantiu que a situação está regular e que a análise incluiu a GTA e os demais comprovantes obrigatórios, destacando que, do ponto de vista sanitário, não há irregularidades.

Por parte das autoridades federais, há um detalhe pouco divulgado. Em uma lista oficial do Ibama de espécies consideradas domésticas para fins operacionais, constam tanto o Camelus bactrianus (camelo) quanto o Camelus dromedarius (dromedário).

Isso não significa uma “permissão irrestrita” para criar qualquer animal exótico em quaisquer condições. Quer dizer que, quando há criação e transporte, a discussão deve focar em documentação, saúde, bem-estar e inspeção, e não numa suposta existência natural no bioma do Cerrado.

Por que o caso despertou tanto interesse e o que ele revela sobre a criação de camelídeos

A admiração no Brasil também vem do imaginário popular. Dromedários são associados ao Norte da África e ao Oriente Médio, e materiais de referência os descrevem como o camelo de uma única corcova, adaptado a zonas áridas.

No entanto, em escala global, camelídeos não se resumem a “bichos de deserto de cinema”. Existem cadeias produtivas organizadas em vários países, com criação voltada para leite, carne, trabalho e esporte. Estudos científicos destacam o leite de dromedário como um produto valioso e mencionam produções médias diárias que variam conforme os cuidados e a região, geralmente na casa de alguns litros por dia.

Quando essa realidade chega ao Brasil, a reação costuma oscilar entre fascínio e desconforto. Fascínio pela imagem inesperada no Jalapão e desconforto porque parte da memória coletiva associa esses animais à exploração turística, reacendendo debates sobre limites, cuidados e transparência.

Por fim, a história dos “camelos do Jalapão” não é um mistério sobrenatural nem uma invasão repentina. É uma combinação de mudança econômica no setor turístico, realocação de animais e um impacto visual que as redes sociais amplificam.

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Cícero Gomes

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