Análise: Under the Island acerta no prazer de explorar uma ilha agradável e misteriosa
A primeira impressão de Under the Island é a de uma pixel art vibrante. A estética lembra instantaneamente os jogos do Game Boy Advance, especialmente The Legend of Zelda: The Minish Cap, mas com uma paleta de cores mais rica e um nível de detalhe superior.

Férias forçadas em uma ilha agradável
A protagonista Nia é uma adolescente obrigada a passar três meses numa ilha com os pais, que farão pesquisas arqueológicas. Acostumada à cidade, ela não está entusiasmada, mas sua energia a leva a explorar a Vila Koala. É assim que se envolve numa trama sobre civilizações antigas, seres estranhos e uma corrida para impedir uma catástrofe: a ilha está afundando.
O jogo não perde tempo com o drama da protagonista relutante nem com as surpresas de descobrir destinos inacreditáveis. Além disso, embora aquele mundo tenha conexões com nossa realidade, com um ambiente que lembra o interior e uma atmosfera similar à de Stardew Valley, Nia não parece estranhar ao encontrar animais falantes ou criaturas perigosas.

Dessa forma, a narrativa também não precisa se preocupar em convencer a heroína a aceitar uma nova realidade. Nia é do tipo que acredita no que vê e mergulha direto na aventura para resolver os problemas com as próprias mãos, conduzindo o jogador rapidamente à ação e à exploração.
Essa abordagem tem dois lados. Por um lado, o ritmo ágil permite que Under the Island tenha muitos NPCs para interagir, sem prejudicar o fluxo da campanha ou exigir longas conversas.
Por outro, essa praticidade impede que a comunidade da ilha e seus habitantes sejam desenvolvidos com mais profundidade, tornando-se memoráveis além do bom design visual. A noção de Nia ser uma recém-chegada logo perde força, pois ela circula pelo local como se sempre tivesse vivido ali.

O exemplo mais claro é Avocado, a companheira de Nia: elas se conhecem logo no começo e quase imediatamente agem como amigas que vão salvar a ilha. Quando se reencontram mais tarde, Avocado adota um comportamento competitivo. São relações que sugerem uma familiaridade que não foi construída diante do jogador.
Embora isso combine com o tom leve e lúdico da aventura e agrade a quem busca focar na jogabilidade, fica a sensação de uma narrativa mais superficial do que poderia ser.

Descobertas abaixo e acima da ilha
A exploração, por sua vez, é o ponto forte do jogo, repleta de caminhos a percorrer, cavernas a investigar e segredos a revelar. Under the Island oferece um alto grau de liberdade e segue de perto o formato da série Zelda, onde navegamos pelo mundo superficial, pontuado por entradas para masmorras isoladas. É nelas que adquirimos habilidades de movimento, o que expande as áreas acessíveis na ilha.
Ainda assim, a progressão não é linear, permitindo ir em várias direções e desviar do caminho principal enquanto se descobrem tesouros e locais escondidos. É possível até completar as quatro masmorras principais fora da ordem sugerida.

Há conteúdo suficiente para manter o interesse: finalizei a campanha principal em cerca de 15 horas. Esse tempo foi maior que o necessário devido à dedicação à exploração. Por outro lado, mesmo tendo completado 100% do mapa principal, deixei para trás quebra-cabeças não resolvidos, segredos não encontrados, trancas não abertas, chaves não localizadas e itens não coletados, indicando que há muito mais a ser descoberto.
É uma experiência desafiadora e gratificante, com uma orientação não intrusiva que permite ao jogador descobrir as coisas por si mesmo, sem ficar completamente abandonado.

Algumas mecânicas auxiliam nesse aspecto. Como o mundo é bastante aberto, uma personagem exploradora é posicionada na entrada de locais perigosos para alertar, mas não impedir o progresso. Os NPCs da Vila Koala comentam sobre o próximo problema da história, indicando o local. Placas e personagens oferecem dicas sobre segredos espalhados pelo mundo. Ao carregar o jogo, a própria Nia resume o último objetivo alcançado e o próximo em aberto.
Tudo isso é feito de maneira tranquila, sem interromper o fluxo ou cair em excessos de explicação. As ferramentas de auxílio estão disponíveis, mas a responsabilidade de explorar cabe ao jogador.

Senti falta, no entanto, de uma ferramenta que seria muito útil: marcadores personalizáveis no mapa. Há muitos pequenos segredos inacessíveis que precisamos lembrar para retornar mais tarde, quando adquirimos as habilidades necessárias, e em várias ocasiões foi preciso dar voltas para localizar o ponto exato novamente.
O combate, por outro lado, não recebe os mesmos elogios, permanecendo no básico. Isso poderia ser compensado com inimigos interessantes, mas os poucos chefes enfrentados são igualmente simples e fáceis de derrotar. O combate pode não ser o elemento principal num jogo no estilo Zelda com visão superior, mas Under the Island pode desapontar quem tem expectativas altas para esse aspecto da jogabilidade.

Visite uma ilha repleta de pessoas amigas, ruínas e segredos
Com uma pixel art cativante e um mundo cheio de caminhos e mistérios, Under the Island acerta ao construir uma ótima sensação de exploração. Consegue dar ao jogador liberdade para descobrir coisas por conta própria sem deixá-lo perdido, oferecendo auxílio para quem precisa. É um jogo no estilo Zelda competente, carismático e divertido, mas pode desapontar quem busca combates emocionantes.
Pontos Positivos
- Visual colorido e agradável que lembra títulos do Game Boy Advance, porém com detalhes muito mais vívidos;
- A exploração da ilha é instigante e oferece bastante liberdade, sem prender a jornada a um único caminho;
- Há diversos recursos de qualidade de vida, como pontos de viagem rápida e auxílios não intrusivos para a exploração.
Pontos Negativos
- O ritmo ágil da narrativa impede que os personagens e a comunidade local sejam aprofundados e se tornem marcantes;
- O combate se contenta com o básico e os chefes são poucos e desinteressantes;
- Senti falta de marcadores personalizáveis no mapa para lembrar melhor do que foi deixado para trás;
- Não possui tradução para o português do Brasil.
Under the Island — PC/PS5/XSX — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS5






