Na biomedicina, justo quando parece que tudo já foi explorado, surge uma ideia inovadora: o uso de eletrocêuticos para impedir a multiplicação de células cancerígenas. Nesse grupo, encontra-se até mesmo o conhecido pantoprazol.
É importante esclarecer, porém, que isso não significa que pacientes oncológicos devam usar o remédio para azia de forma indiscriminada. Toda substância farmacológica traz riscos, e o estudo em questão se limitou a uma demonstração inicial com culturas celulares em ambiente controlado. Portanto, um longo e difícil caminho separa essa descoberta de um possível tratamento efetivo.
Os eletrocêuticos atuam regulando o potencial elétrico das células, por meio da polarização ou despolarização de suas membranas. A equipe liderada por Michael Levin, da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, investigou essa abordagem contra o glioblastoma, um tipo agressivo de câncer cerebral. A pesquisa parte do princípio de que os sinais bioelétricos, e não apenas os fatores genéticos, são fundamentais para o comportamento e até para a comunicação entre as células.
Um desses mecanismos essenciais é a diferenciação, processo pelo qual células-tronco se desenvolvem em formas adultas e especializadas, como neurônios ou glóbulos vermelhos. Células maduras, com baixa taxa de divisão, apresentam membranas hiperpolarizadas, enquanto suas precursoras, com alta capacidade proliferativa, tendem a estar mais despolarizadas.
A estratégia proposta envolve induzir as células tumorais, que compartilham com as células-tronco a propensão a se multiplicar, a seguir o caminho da diferenciação. Isso é feito atuando sobre os canais iônicos da membrana, que gerenciam o fluxo de partículas eletricamente carregadas. Ao amadurecerem e envelhecerem, essas células perderiam a capacidade de proliferação que alimenta o crescimento do câncer.
Os pesquisadores testaram diversas combinações de fármacos que influenciam os canais iônicos. As formulações mais eficazes para frear o avanço do glioblastoma em cultivos continham pantoprazol. Esse inibidor da bomba de prótons parece amplificar o efeito dos outros compostos, embora a razão exata ainda não seja totalmente compreendida pela ciência.
O artigo científico que detalha esses experimentos foi publicado em 2022, e não há registros de progressos significativos desde então. Esse cenário não é incomum, já que o desenvolvimento de novos tratamentos pode levar décadas e nem sempre tem sucesso. Caso a estratégia se confirme válida, no entanto, representaria um avanço considerável contra esse tumor de difícil controle.
O protocolo terapêutico padrão atual envolve cirurgia, seguida de radioterapia e do quimioterápico temozolomida, que inibe a replicação do DNA e, consequentemente, a multiplicação celular. Apesar disso, as taxas de recidiva são altíssimas, em torno de 90%, geralmente originando-se nas áreas vizinhas ao tumor removido. Isso faz com que a sobrevida após cinco anos seja de apenas 10% dos casos.
Tão intrigante quanto o potencial médico são as investigações de Levin sobre o papel da bioeletricidade na vida como um todo, não apenas na saúde humana. Seu trabalho sugere que todas as células, e não apenas os neurônios, usam processos eletroquímicos para se comunicar e, possivelmente, reter memória de experiências passadas, orientando ações futuras.
Essa perspectiva abre um vasto campo de reflexão. Surge, por exemplo, a possibilidade de existirem formas de percepção, memória e ação em plantas, fungos e microrganismos, mesmo na ausência de um sistema nervoso – características que antes se acreditavam restritas ao reino animal. Um tema que certamente renderia muitas outras discussões.







