A redação dissertativo-argumentativa é um componente essencial na preparação para os vestibulares em todo o Brasil. Exigida no Exame Nacional do Ensino Médio, esse formato também é comum nos processos seletivos das universidades. Nesse cenário, a Fundação Universitária para o Vestibular, responsável pelo acesso à Universidade de São Paulo, anunciou uma novidade importante: a partir do Vestibular 2026, sua prova passará a aceitar outros formatos textuais, além da dissertação.
A medida já tem precedentes. Instituições como a Universidade Estadual de Campinas e a UFPR, por exemplo, há tempos incorporam uma variedade maior de gêneros em suas avaliações de escrita.
Estudar para vestibulares que podem exigir diferentes tipos de texto é um desafio considerável e requer uma preparação planejada. Para esclarecer as principais diferenças entre a dissertação argumentativa e os demais gêneros, conversamos com uma coordenadora de redação de um curso preparatório em Campinas.
A seguir, a especialista explica como os candidatos podem se preparar para produzir bons textos, independentemente da proposta apresentada.
A hegemonia da dissertação e a mudança na Fuvest
Há razões sólidas para a prevalência da dissertação argumentativa nos vestibulares. Segundo a coordenadora, esse gênero permite avaliar diversas habilidades de leitura e escrita necessárias para a vida acadêmica. Por meio dele, é possível medir a capacidade de argumentação, a organização do pensamento, o uso de repertório cultural e a elaboração de propostas para problemas sociais.
Outro aspecto que favorece o texto dissertativo-argumentativo é a praticidade para correções em massa. “A dissertação oferece às bancas examinadoras um campo de avaliação mais estável e previsível. Seus critérios são mais objetivos, o que reduz a subjetividade na correção”, comenta a especialista.
Para ela, a mudança recente na Fuvest reflete uma transformação mais ampla no ensino brasileiro. Essa atualização está alinhada à Base Nacional Comum Curricular, que, no componente de Língua Portuguesa, enfatiza o domínio de múltiplos gêneros discursivos presentes em diversas áreas da vida. “A Fuvest reconhece que a competência linguística não se limita à argumentação formal, mas também inclui a habilidade de narrar, descrever, simular diálogos e adequar a linguagem a diferentes contextos”, salienta.
Novas exigências na prova de Redação
Enquanto a dissertação argumentativa avalia competências mais objetivas e conhecidas pelos estudantes, outros gêneros textuais demandam uma visão mais ampla sobre a escrita. Nesses casos, a avaliação considera a compreensão da situação comunicativa, os elementos de interlocução e um uso mais pessoal da língua.
“Em textos narrativos, por exemplo, a construção do enredo, a coerência interna da trama, a criação de personagens e o manejo do tempo ganham importância central”, ilustra a professora. Nessa categoria, podem ser solicitados formatos como contos, crônicas e fábulas. Nos gêneros de cunho descritivo, como relatos de viagem ou diários, destaca-se a sensibilidade na escolha do vocabulário, o uso de metáforas e a adequação ao contexto proposto.
A especialista também alerta para os problemas comuns que podem surgir com esses gêneros. É frequente encontrar falhas de coerência, excesso de clichês, termos vagos, dificuldade em construir significado e inadequação ao tema solicitado.
A escolha do gênero textual requer planejamento
A adoção de diversos gêneros nas provas de redação pode tornar os vestibulares mais acessíveis. Segundo a coordenadora, isso beneficia principalmente os candidatos que não têm total domínio do gênero argumentativo. Contudo, essa diversificação exige uma preparação mais abrangente, com familiaridade em múltiplos formatos. “É fundamental entender as particularidades de cada gênero e ter sensibilidade para criar uma estrutura que organize o texto, o que demanda maior consciência linguística”, enfatiza.
Informações recentes da Fuvest indicam que, no Vestibular 2026, 80% dos inscritos escolheram a dissertação, enquanto apenas 20% optaram pela carta, a outra alternativa oferecida. Para a especialista, selecionar um gênero menos comum pode ser benéfico, pois o estudante tende a se diferenciar da maioria que seguiu o caminho tradicional. No entanto, a escolha deve ser, acima de tudo, estratégica. É crucial que o candidato domine o gênero escolhido. “Há vantagem estratégica somente quando há solidez técnica. Caso contrário, o risco supera o potencial de se destacar”, observa.
Além do conhecimento sobre o gênero, também é vital considerar o tempo disponível para escrever e revisar o texto, e, sobretudo, analisar se é possível estruturar um bom projeto de escrita para o formato selecionado.
Abordagens distintas para a preparação
Dada a natureza diversa dos gêneros, é natural que a preparação para a dissertação argumentativa e para os outros formatos seja diferente. A coordenadora ressalta três eixos principais para quem está focado no texto dissertativo-argumentativo: dedicar-se à construção de um repertório sociocultural; praticar a estrutura clássica (com introdução, desenvolvimento e conclusão); e melhorar a articulação lógica entre as ideias. Nesse caso, a prática constante da escrita é fundamental.
Para se preparar para outros gêneros textuais, a recomendação da especialista é ler diferentes tipos de texto, como contos, crônicas e artigos de opinião. Também é valioso observar como cada um constrói seu significado a partir de escolhas estruturais e linguísticas, além de experimentar diversos estilos de escrita e buscar avaliações que considerem não apenas a correção gramatical, mas também a construção do discurso. O diferencial, aqui, está na capacidade de se adaptar aos diferentes gêneros.







