23 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Tendências de paisagismo para 2026

Aquela sensação de que o jardim virou apenas mais uma tarefa para o fim de semana está com os dias contados. O grande movimento do paisagismo em 2026 segue na direção oposta. A ideia agora é transformar áreas externas em sistemas dinâmicos e autônomos, que refrescam a casa, armazenam água da chuva e ainda servem como um refúgio para a alma. O objetivo não é aumentar as obrigações, mas permitir que mais vida, no sentido literal, germine ao seu redor.

Continua após a publicidade

A velocidade das mudanças climáticas e a sobrecarga da vida digital estabeleceram uma nova prioridade para o desenho de ambientes ao ar livre. No próximo ano, o jardim deixa de ser um elemento decorativo estático para se tornar um ecossistema ativo e um abrigo para as emoções. A busca já não é pelo domínio total da terra, mas por uma colaboração estratégica, na qual o paisagismo funciona como um instrumento de resistência e recuperação, convertendo espaços em santuários de propósito e harmonia.

As tendências que definem este período não se limitam à aparência, embora a beleza esteja garantida. O foco agora é a funcionalidade ecológica: jardins que resolvem problemas reais, como calor excessivo, alagamentos e até o afastamento da natureza que muitos vivem no dia a dia. De acordo com a Royal Horticultural Society, a prática da “jardinagem regenerativa” ganha força justamente por unir sustentabilidade a resultados práticos visíveis em poucos meses.

Continua após a publicidade

Espere ver menos gramados perfeitos que consomem volumes enormes de água e mais jardins estratificados, densos e ricos em texturas e dinamismo. O objetivo é imitar a natureza, não dominá-la. Materiais pesados e artificiais estão em declínio. Em seu lugar, entram em cena pisos permeáveis, decks de madeira de manejo sustentável e até biochar incorporado ao substrato, uma tecnologia oculta que faz uma diferença crucial para a vitalidade das plantas.

Compilamos as tendências mais significativas do panorama internacional, com atenção especial ao contexto do Brasil. São 12 movimentos paisagísticos que vão muito além da decoração: representam filosofias de vida que desabrocham sob a luz do sol.

“O paisagismo de 2026 não se resume a ter mais plantas, mas a selecionar com mais critério, honrando o local, o clima e quem as cultiva.”

1. A Revolução da Biologia do Solo: Cultivar a Terra Viva

Esqueça a ideia de que fertilizantes químicos são a solução para tudo. A nova fronteira do paisagismo é invisível aos olhos, mas profundamente transformadora: falamos da biologia do solo, aquele universo silencioso e extraordinário de fungos, bactérias benéficas, minhocas e micro-organismos que convertem matéria orgânica em nutrição viva para a vegetação.

O princípio fundamental desta tendência é a jardinagem regenerativa, ou “no-dig” (sem cavar): ao manter as camadas do solo intactas, protegemos as redes micorrízicas, verdadeiras autoestradas de nutrientes que interligam os sistemas radiculares. Cavar, compactar ou esterilizar a terra com agentes químicos significa, em essência, destruir esse sistema nervoso subterrâneo que levou anos para se desenvolver.

A prática da cobertura morta (mulching) é uma das mais simples e impactantes: camadas de folhas secas, aparas de grama ou palha sobre o canteiro conservam a umidade, alimentam os micro-organismos e suprimem ervas invasoras, tudo ao mesmo tempo. Complementando esse sistema, o uso de inoculantes biológicos com micorrizas e a aplicação de biocarvão (biochar) geram um substrato que retém água e carbono de forma notável. Um solo vivo e bem estruturado pode melhorar a drenagem em até 40% sem qualquer intervenção estrutural, apenas com a adição de matéria orgânica protetora.

A técnica “Chop and Drop” complementa esse ciclo: resíduos de poda são triturados e deixados sobre a terra como uma cobertura viva, fechando o ciclo de nutrientes de maneira completamente natural. O movimento “No-Mow May”, originado na Inglaterra e já adotado em jardins brasileiros, incentiva a interrupção das podas em certos períodos para beneficiar polinizadores e permitir que o solo respire e se regenere.

O que procurar em garden centers: condicionadores orgânicos de solo (turfa de qualidade, bokashi); inoculantes biológicos com micorrizas; biocarvão vegetal para retenção de água e carbono; e fertilizantes de liberação lenta contendo micro-organismos vivos.

2. Micro-Florestas Domésticas: Um Bosque em 20 m²

A preservação de remanescentes e a criação de mini-florestas é tendência tanto em condomínio, como em propriedades privadas.
É possível criar uma floresta funcional em apenas vinte metros quadrados? O Método Miyawaki, criado pelo botânico japonês Akira Miyawaki e adaptado para a realidade urbana brasileira, utiliza um plantio de alta densidade, entre duas e quatro mudas por metro quadrado, e, em poucos anos, produz um bosque particular completo, com sombra generosa, microclima mais ameno, atração de aves e um nível impressionante de biodiversidade.

O segredo está na estratificação: o plantio é organizado em quatro camadas que imitam a estrutura de uma floresta natural. A camada rasteira é formada por forrações densas que protegem o solo e retêm umidade. A arbustiva preenche o espaço intermediário com plantas de porte médio. As árvores medianas, de três a seis metros, constituem o sub-bosque e garantem sombra parcial. E as árvores de dossel, as mais altas, criam a copa protetora que determina o microclima de todo o conjunto.

A grande vantagem prática desta técnica reside no próprio adensamento: com pouco espaço disponível para a luz solar atingir o solo diretamente, as plantas invasoras simplesmente não conseguem germinar. Isso reduz drasticamente a necessidade de manutenção a longo prazo, e o jardim passa a funcionar por si só.

Nos centros urbanos brasileiros, onde o calor das ilhas de calor é crescente, uma micro-floresta de Miyawaki pode diminuir a temperatura local em até 2°C e elevar a umidade relativa do ar em períodos de estiagem. Trata-se de arquitetura ambiental no quintal de casa. Peça em viveiros por “mudas de reflorestamento” ou “árvores nativas pote 15/20”, são mais acessíveis que exemplares grandes e se adaptam melhor ao clima regional.

3. Identidade Botânica Brasileira: Nativas em Destaque

Dicorisandra e Abelha-jataí. As nativas brilhando no jardim.
As plantas nativas brasileiras finalmente conquistam o protagonismo que merecem nos projetos paisagísticos residenciais, e não se trata apenas de uma questão de identidade cultural ou patriotismo ecológico. É, sobretudo, uma decisão de inteligência ambiental: essas espécies evoluíram por milênios para suportar exatamente os nossos extremos climáticos, das secas prolongadas do Cerrado às chuvas intensas da Mata Atlântica.

O paisagismo contemporâneo no Brasil redescobre sua essência ao priorizar espécies da Mata Atlântica e do Cerrado. O Manacá da Serra (Pleroma mutabile) não apenas marca a transição cromática das estações, do branco ao lilás, como ancora a identidade do projeto. A Caliandra (Calliandra sp.) oferece floração exuberante que alimenta beija-flores durante todo o ano. O Guaimbê (Philodendron bipinnatifidum) entrega presença estrutural marcante com manutenção mínima.

“O Manacá conta a nossa história. Ao escolher uma planta nativa, não estamos apenas decorando um jardim, estamos escrevendo uma biografia botânica do lugar.”

Outras espécies nativas em alta para 2026: a Pitangueira (Eugenia uniflora), frutífera ornamental perfeita para calçadas e vasos grandes; a Quaresmeira (Pleroma granulosum), com floração intensa que alimenta abelhas e borboletas; a Caliandra, que atrai beija-flores e é resistente à seca; e o Ipê-amarelo (Handroanthus albus), símbolo nacional com floração deslumbrante.

Além da beleza, espécies nativas são ímãs para a fauna local: abelhas nativas, borboletas, pássaros e outros polinizadores as reconhecem geneticamente e estabelecem com elas relações de interdependência. Um jardim de nativas não é apenas um jardim, é um fragmento de ecossistema em pleno funcionamento.

4. Xeriscaping Inteligente: O Fim do Gramado Perfeito

Que tal substituir áreas gramadas e exigente, por plantas de baixa manutenção e pouca exigência de água?
A obsessão pelo tapete verde impecável e sedento por água finalmente está perdendo espaço, literalmente. Em 2026, a resposta inteligente ao calor extremo e às restrições hídricas é o Xeriscaping: uma abordagem de paisagismo que prioriza espécies de baixo consumo de água e coberturas vegetais que atuam a favor do microclima, não contra ele.

A grande protagonista dessa transição é a Grama Amendoim (Arachis repens). Diferente das gramíneas comuns, ela dispensa podas frequentes, não exige fertilizantes nitrogenados em excesso e forma um tapete denso pontilhado por delicadas flores amarelas que atraem polinizadores. Em taludes e áreas de pouco pisoteio, tornou-se a substituta natural do gramado convencional, com uma beleza orgânica que o gramado tradicional jamais consegue oferecer.

Complementando o Xeriscaping, surgem os mini-prados (mini meadows), espaços pontuados por flores silvestres que rompem com a rigidez geométrica do jardim tradicional. Favorecem polinizadores, reduzem o uso de insumos químicos e criam paisagens que parecem ter brotado espontaneamente, com uma beleza orgânica em constante transformação. Mesmo em vasos na varanda, um mini-prado de flores silvestres pode converter o espaço em um elo vital no ecossistema local.

Pisos drenantes, que permitem a infiltração da água no solo, completam esse movimento. Eles eliminam poças, reduzem o calor refletido pelas superfícies impermeáveis e contribuem para a recarga do lençol freático. O novo símbolo de status em paisagismo é o jardim que sustenta vida, aceita bordas irregulares e valoriza a autenticidade das texturas naturais sobre as superfícies manufaturadas.

5. Jardins de Chuva: Resiliência Climática no Quintal

Os jardins de chuva são uma tendência e necessidade forte nas cidades. Mas podem sair do macro para o micropaisagismo também.
Eis o grande diferencial prático de 2026: jardins que não são apenas belos, mas que solucionam problemas climáticos reais. Os jardins de chuva (rain gardens) são canteiros estrategicamente posicionados para captar a água das calhas e telhados, direcionando-a para zonas de infiltração controlada, prevenindo alagamentos, recarregando o lençol freático e ainda criando microclimas notavelmente mais frescos.

O funcionamento é elegante em sua simplicidade: a água da chuva, em vez de escorrer pelo quintal ou entupir bueiros, infiltra lentamente pelos canteiros, alimenta as raízes das plantas e refresca o ambiente por evaporação. No pico do verão, a diferença de temperatura percebida em jardins com esse sistema pode alcançar 3°C, sem consumir um centavo de energia elétrica.

Um jardim de chuva bem projetado pode absorver até 30% do escoamento superficial do lote. Esta tendência dialoga diretamente com as enchentes urbanas que assolam cidades brasileiras a cada verão, e pode ser implementada desde quintais de 20m² até grandes condomínios. É paisagismo funcional em sua expressão mais completa.

6. Design Biofílico e Bem Estar: O Jardim como Santuário

Design Biofílico e Wellness no jardim.
O design biofílico não é uma moda passageira: é ciência. Estudos consolidados comprovam que o contato regular com plantas e ambientes naturais reduz os níveis de cortisol (hormônio do estresse), melhora a qualidade do sono, fortalece a imunidade e aumenta significativamente o bem-estar geral. Em 2026, os jardins residenciais incorporam essa ciência de forma intencional e sofisticada, tornando-se verdadeiros centros de saúde.

O conceito de Wellness Garden, jardim como núcleo de bem-estar, ganha novos contornos. A integração de saunas externas e piscinas de imersão a frio (cold plunges) ao jardim reflete uma busca por rituais de saúde integrados à natureza. O conceito de Sunday Garden evoca a estética reconfortante de um luxo discreto que prioriza a “baixa intensidade” de esforço em favor do relaxamento profundo, com estruturas perenes que garantem beleza durante todo o ano.

“Os jardins são cada vez mais vistos como espaços para nutrir e ser nutrido. É uma mudança sutil, mas importante, da baixa manutenção para a baixa intensidade.”

Continua após a publicidade

Vitória, ES
Temp. Agora
26ºC
Máxima
31ºC
Mínima
23ºC
HOJE
23/02 - Seg
Amanhecer
05:36 am
Anoitecer
06:13 pm
Chuva
0.89mm
Velocidade do Vento
5.14 km/h

Média
24.5ºC
Máxima
25ºC
Mínima
24ºC
AMANHÃ
24/02 - Ter
Amanhecer
05:36 am
Anoitecer
06:12 pm
Chuva
4.55mm
Velocidade do Vento
3.37 km/h

A cidade que a gente usa todos os dias: por que...

Marcos Paulo Bastos

Leia também