Extratos financeiros mostram que Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, movimentou R$ 19,5 milhões entre janeiro de 2022 e janeiro de 2026. A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, que investiga fraudes previdenciárias, obteve esses dados bancários. Após a divulgação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino suspendeu as quebras de sigilo aprovadas pela comissão.
A investigação apura se o filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de 51 anos, recebeu valores de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, no esquema chamado de “Farra do INSS”.
Em 26 de fevereiro, a CPMI autorizou a quebra dos sigilos fiscal, bancário e telemático de Lulinha. A decisão permite o acesso a operações financeiras que podem esclarecer a origem e o destino de recursos mencionados em interceptações telefônicas.
Um relatório detalha o fluxo de recursos de Fábio Luís. No período de quatro anos analisado, foram registradas 1.531 operações bancárias.
O total de R$ 19,5 milhões movimentado por Lulinha inclui entradas, saídas e transferências entre suas próprias contas. Os créditos somaram R$ 9,77 milhões, enquanto os débitos totalizaram R$ 9,75 milhões.
Lulinha também recebeu três depósitos de Lula, que juntos somam R$ 721 mil, em 2022 e 2023. Em dezembro de 2023, no mesmo dia de um desses depósitos, o filho do petista depositou um cheque de R$ 157 mil assinado por Paulo Tarcísio Okamotto, atual diretor do Instituto Lula. Entre os créditos identificados, aparecem valores de uma empresa da qual sua esposa, Renata de Abreu Moreira, é sócia.
Conforme os extratos, a maior parte dos créditos, R$ 4,4 milhões, vem de resgates de fundos de investimento. Desse valor, R$ 1,2 milhão está relacionado a consórcios, previdência, seguros e transações não identificadas.
Transferências a donos de sítio em Atibaia
Os documentos também mostram transferências de Lulinha para ex-sócios: 17 direcionadas a Jonas Leite Suassuna Filho, somando R$ 704 mil, e outras 15 transações, de janeiro de 2024 a outubro de 2025, para o ex-sócio Kalil Bittar, que totalizam R$ 750 mil.
Suassuna Filho é dono do sítio em Atibaia, São Paulo, frequentado pelo presidente Lula. A propriedade esteve no centro de um dos processos da Operação Lava Jato, que resultou na condenação de Lula, posteriormente anulada pelo STF. Kalil Bittar é irmão de Fernando Bittar, outro dos proprietários do local.
Lula foi acusado e condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro na primeira e segunda instâncias da Justiça Federal. A pena, aplicada em maio de 2020, foi de 17 anos, 1 mês e 10 dias de prisão. O petista foi considerado culpado de receber vantagens indevidas das construtoras Odebrecht e OAS para uma reforma de cerca de R$ 1 milhão no sítio. Em contrapartida, segundo o processo, Lula teria ajudado ilegalmente as empreiteiras a obter contratos com a Petrobras. O presidente sempre negou as acusações.
Quebra de sigilo suspensa
Poucas horas após a divulgação das informações, o ministro do STF Flávio Dino suspendeu todas as quebras de sigilo aprovadas pela CPMI na mesma votação que incluiu Lulinha.
Dino afirmou que, embora CPIs e CPMIs tenham competência para determinar a quebra de sigilo, ao exercer essa função assumem um papel semelhante ao de um juiz. Portanto, devem observar os mesmos deveres de um magistrado, o que exige justificativa técnica para cada investigado e votação individualizada.
No entanto, antes do pedido da CPMI do INSS, o ministro André Mendonça, também do STF, já havia autorizado, em janeiro, a abertura dos dados bancários, fiscais e telemáticos de Lulinha, a pedido da Polícia Federal.
Posicionamento da defesa
Nesta quinta-feira, a defesa de Lulinha afirmou que o vazamento de informações sobre movimentações de R$ 19,5 milhões ligadas a ele configura um “crime grave”. Em nota, alega não ter tido acesso aos documentos divulgados.
Segundo a defesa: “Se ocorreu, o vazamento configura crime grave, que está sendo imediatamente comunicado a todas as autoridades competentes. Não pouparemos esforços para apurar e punir os responsáveis”.
A defesa informou que comunicará o STF e a presidência do Congresso Nacional sobre o vazamento de dados da quebra de sigilo.
Em trechos da nota, a defesa argumenta que as informações divulgadas citam apenas fontes de renda legais e legítimas, como empresas nas quais Fábio Luís tem participação e rendimentos de aplicações financeiras. Também menciona que transferências ligadas ao presidente Lula referem-se a adiantamento de herança, reembolso de custos ou empréstimos. Pagamentos a Jonas Suassuna Filho são descritos como aluguel, e a Kalil Bittar como pagamento por cotas societárias. Todos os movimentos e bens são declarados ao fisco, de acordo com a nota.
A defesa ainda critica a divulgação da soma total das movimentações, esclarecendo que esse dado é irrelevante em Relatórios de Informação Financeira, pois um mesmo valor pode ser registrado várias vezes em operações diferentes, superando em muito os valores efetivamente existentes.







