Se você busca entender por que a América Latina, um continente tão vasto e rico, parece estar presa em um ciclo eterno de “potencial não realizado”, não existe ponto de partida mais impactante do que a obra-prima de Eduardo Galeano.
Ler Eduardo Galeano não é apenas consumir um livro de história ou economia; é sentir o pulso de um continente que, há cinco séculos, tem sua riqueza drenada para alimentar o progresso alheio. Publicado originalmente em 1970 e atualizado em 1977 — anos de chumbo em que o pensamento crítico era um ato de coragem —, o livro se consolidou como o “inventário da nossa vassalagem”.
O Ciclo da Exploração
Galeano traça uma linha do tempo dolorosa, mas necessária. Ele mostra como a nossa estrutura de dependência apenas trocou de mãos ao longo dos séculos:
Séculos XV – XVIII: O ouro e a prata que financiaram o Renascimento europeu à custa do sangue indígena.
Século XIX: A cana-de-açúcar, o café e o cacau que transformaram nossas terras em monoculturas dependentes.
Séculos XX – XXI: O petróleo, o ferro e a influência política e econômica das grandes potências (como os EUA), mantendo a lógica de submissão.
Por que ler hoje?
Embora o próprio Galeano tenha admitido anos mais tarde, com sua honestidade intelectual característica, que na época não tinha a formação econômica completa para entender certas nuances de mercado, a força narrativa de As Veias Abertas permanece inabalável.
O livro não é um amontoado de estatísticas secas. É prosa poética carregada de indignação. Ele nos ajuda a entender que a pobreza da América Latina não é fruto do destino ou da “preguiça”, mas sim uma consequência direta da riqueza de outros. Como ele bem resume: “A nossa divisão internacional do trabalho consiste em que uns países especializam-se em ganhar e outros em perder.”
O Veredito
Se você quer sair da superfície dos noticiários e entender as raízes da desigualdade que vemos ao cruzar a rua, esta leitura é obrigatória. É um livro que incomoda, que tira o sono, mas que, acima de tudo, nos devolve a memória — e um povo sem memória está condenado a repetir seus erros.
“A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será.” — Eduardo Galeano.






