Rosane Svartman sempre foi uma arquiteta do cotidiano. Conhecida por sucessos televisivos como Vai na Fé e Bom Sucesso, sua assinatura reside menos na trama em si e mais na forma como transforma rituais ordinários em gestos de profunda sensibilidade. Em seu novo esforço cinematográfico, (Des)controle, Svartman e a codiretora Carol Minêm abandonam o volume alto do melodrama para investigar a anatomia de um colapso silencioso.
A Arquitetura do Colapso
O filme acompanha a degradação de Kátia (Carolina Dieckmann) sob uma lente observacional e íntima. Aqui, a direção evita o espetáculo da autodestruição; em vez disso, a câmera atua como uma testemunha discreta da erosão da protagonista. Os espaços que Kátia habita — da casa familiar ao escritório — deixam de ser meros cenários para se tornarem extensões de sua psique fragmentada.
A dinâmica mais fascinante ocorre no quarto/escritório, onde a “cópia desvairada” de Kátia se manifesta. Não se trata de um recurso fantástico gratuito, mas de uma materialização visual da fratura interna da personagem. A asfixia emocional é traduzida em planos fechados que comprimem a protagonista, revelando o rastro do vício não por grandes explosões, mas pela desordem dos objetos e pelo esvaziamento da presença física.
Dieckmann: A Embriaguez pela Erosão
O pilar central do longa é, sem dúvida, a performance de Carolina Dieckmann. Fugindo do clichê da embriaguez performática, a atriz constrói Kátia através de detalhes sutis: o olhar que hesita, a fala que se reconstrói em tempo real e um corpo que parece sempre em descompasso com a própria mente.
O desafio atinge seu ápice quando Dieckmann contracena consigo mesma. O diálogo entre a versão contida e a “desvairada” evita a caricatura, estabelecendo uma conversa corporal entre o impulso e a lucidez. São gradações de um mesmo colapso, interpretadas com uma entrega que sustenta o filme mesmo nos momentos de maior fragilidade narrativa.
Entre o Rito e a Recaída
Um elemento interessante, embora subexplorado, é a subtrama religiosa. O filho mais novo (Rafael Fuchs Müller) prepara-se para seu Bar Mitzvah, criando um contraste simbólico potente: enquanto o jovem caminha em direção à responsabilidade espiritual e à maturidade, a mãe regride ao desamparo do vício.
Embora o filme tangencie essa discussão sobre herança e formação moral, a multiplicidade de temas — que vão do alcoolismo feminino às pressões do mercado de trabalho — impede que a fricção entre o sagrado e o autodestrutivo ganhe a densidade que o tema prometia.
Uma Escolha Ética pela Contenção
A colaboração entre Svartman e Carol Minêm resulta em uma linguagem que oscila entre a estilização sensível e uma objetividade direta. Se essa flutuação às vezes gera quebras de fluxo, ela também ecoa o ritmo da própria recaída: um ciclo de avanços e retrocessos.
Ao final, (Des)controle destaca-se por sua ética da discrição. O filme não se interessa pelo “fundo do poço” sensacionalista, mas pela inclinação perigosa do terreno que leva até lá. Ao recusar o excesso, Svartman preserva a humanidade de Kátia e entrega uma obra onde a potência reside, justamente, na dor que se instala em silêncio.







