A escolha do título Cara de Um, Focinho de Outro para o lançamento brasileiro do trigésimo filme da Pixar soa quase como uma admissão de falta de originalidade. Em cartaz a partir desta quinta-feira, a produção, chamada Hoppers no original, entrega exatamente o que seu nome em português promete.
Apesar de vir do mesmo estúdio de animação digital responsável por obras inovadoras como Toy Story, Monstros S.A., Procurando Nemo, Wall-E, Up: Altas Aventuras, Divertida Mente e Viva: A Vida É uma Festa, o longa é tão genérico que sua única assinatura distintiva é o famoso abajur que forma a letra “i” nos créditos iniciais.
Essa impressão não é isolada. Até as críticas positivas carregam um tom de ressalva.
“Tem diversão de sobra, alguns trocadilhos são ótimos e o final frenético é deliciosamente exagerado. Infelizmente, ainda é um filme de segunda categoria da Pixar”, avaliou o crítico Kevin Maher, do jornal britânico The Times.
“Um filme divertido e singelo, com energia e charme para entreter as crianças, o que desencoraja críticas mais duras. Mas a memória do que a Pixar já foi pode nos fazer perguntar para onde foram toda aquela energia, originalidade e talento artístico”, afirmou Bilge Ebiri, do site Vulture.
Kristen Lopez, do The Film Maven, declarou que Cara de Um, Focinho de Outro “é um dos melhores filmes da Pixar nos últimos anos”, mas deu ao longa uma nota C+.
A verdade é que o estúdio não vive um bom momento há tempos. Embora Divertida Mente 2 tenha sido um sucesso comercial colossal, arrecadando US$ 1,7 bilhão e entrando para a lista das dez maiores bilheterias da história, a produção não levou o Oscar de Melhor Animação, perdendo para Flow: À Deriva, um filme letão feito em um software gratuito. Apesar de ser o maior vencedor da categoria na Academia, com onze estatuetas, a Pixar não ganha um prêmio desde 2021, com a vitória de Soul.
O ano de 2026 também não parece ser o da retomada dos triunfos no Oscar. O antecessor de Cara de Um, Focinho de Outro, Elio, está indicado ao prêmio, mas aparece em último nas casas de apostas, atrás de Guerreiras do K-Pop – o favorito, já premiado pela Associação dos Produtores dos EUA, no Globo de Ouro e no Annie –, Zootopia 2, A Pequena Amélie e Arco.
Comercialmente, Elio foi um fracasso expressivo, somando apenas US$ 154 milhões. Esse valor supera as bilheterias de Red: Crescer É uma Fera, Luca, Soul e Dois Irmãos, mas todos esses títulos tiveram seu desempenho financeiro severamente impactado pela pandemia de covid-19, que forçou lançamentos diretos em streaming, fechou salas e reduziu o público.
A trama de “Cara de Um, Focinho de Outro”
Cara de Um, Focinho de Outro marca a estreia nos cinemas do diretor Daniel Chong, criador da série Ursos Sem Curso. O roteiro é assinado por ele e Jesse Andrews, com dublagens que incluem a vencedora de três Oscars Meryl Streep como a Rainha dos Insetos, papel dublado no Brasil por Renata Sorrah.
A protagonista é Mabel Tanaka, uma garota que visita sua avó na clareira florestal de Beaverton, habitat de uma colônia de castores. Inspirada pela avó, Mabel cultiva um profundo amor pela natureza.

Anos depois, o prefeito Jerry Generazzo anuncia planos de substituir a clareira por uma rodovia, alegando o desaparecimento dos animais. Mabel, agora com 19 anos, torna-se sua principal opositora, mas não consegue mobilizar a comunidade local.
Diante do insucesso político, a solução pode estar na tecnologia. Mabel descobre que sua professora de Biologia, a doutora Samantha Fairfax, desenvolve em segredo um dispositivo que transfere a consciência humana para um animal robótico, com o objetivo de estudar espécies.
Mabel então empresta sua mente a um castor robótico hiper-realista e adentra a floresta para se comunicar com os animais e impedir a destruição de seu habitat.

Como é típico da Pixar, o filme oferece momentos comoventes, piadas para o público adulto, ousadia visual e mensagens positivas.
A relação entre Mabel e sua avó é emocionante, com um prólogo que lembra o de Up. A presença de um tubarão assassino voador é surpreendente, assim como o reconhecimento, em uma obra infantil, da existência de uma cadeia alimentar, resumida na “regra número 3 do lago”: quando estiver com fome, coma. Mesmo que seja outro animal.
Isso não contradiz a lição ecológica central: é preciso entender que todos fazem parte de um todo maior, que humanos, animais, plantas e elementos naturais são interdependentes.
No entanto, Cara de Um, Focinho de Outro frequentemente cai no formulaico, seguindo convenções de narrativas de amadurecimento. Às vezes, a magia se quebra por escolhas óbvias, como na cena em que a avó pede a Mabel que escute a natureza. O filme permite um breve momento de silêncio, pontuado por sons da floresta, logo interrompido por uma trilha musical excessivamente sentimental.







