As mudanças tecnológicas que moldaram o setor de entretenimento nas últimas duas décadas – da popularização do iPod à consolidação dos smartphones e do streaming – estão prestes a dar lugar a transformações ainda mais radicais nos próximos vinte anos.
Analistas do setor projetam um horizonte em que a criação audiovisual se tornará mais acessível, a inteligência artificial terá um papel crucial na geração de conteúdo e as experiências presenciais serão renovadas com apoio tecnológico.
Vinte anos atrás, era comum esperar DVDs pelo correio, e gadgets como o iPod eram vistos como indispensáveis. O avanço do streaming e dos smartphones revolucionou o consumo de mídia em casa, colocando em xeque o futuro das salas de cinema e levando as locadoras físicas quase à extinção. Hoje, especialistas consultados pelo The Wall Street Journal antecipam uma nova onda de disrupção.
Produções com qualidade de Hollywood feitas em casa
Uma das mudanças mais aguardadas é a redução significativa da distância entre gravações amadoras e obras cinematográficas. Segundo Paul Warner, diretor e instrutor sênior da New York Film Academy, a tecnologia de produção virtual tende a ficar mais barata e eficiente.
Ele observa que instituições de ensino de cinema já oferecem cursos focados em produção virtual. A vantagem do estúdio virtual é a possibilidade de realizar todas as etapas sem sair de casa, eliminando a necessidade de filmagens externas e reduzindo custos de forma expressiva.
Nesse cenário, efeitos visuais como explosões e chamas poderão ser renderizados ao vivo em telas LED de alta definição, permitindo capturar cenas inteiras sem uma etapa de pós-produção dedicada. A inteligência artificial generativa também viabilizará a criação de ambientes elaborados – incluindo cenas de batalha e multidões – sem a necessidade de gravar em locação ou contratar figurantes.
Apesar de reconhecer o potencial de redução de postos de trabalho no setor, Warner ressalta que essas ferramentas também abrirão oportunidades para produtores independentes realizarem projetos que hoje demandam investimentos vultosos.
Inteligência Artificial como “público de teste”
- Uma transformação importante está na aplicação da IA no fluxo criativo;
- Criadores poderão usar “audiências simuladas” para avaliar conceitos instantaneamente, em vez de simplesmente publicar conteúdo e monitorar a reação do público;
- Stephanie Dolan, responsável pela área de entretenimento da Deloitte nos EUA, afirma que “a linha que separa o criador do consumidor deve desaparecer quase por completo nas próximas duas décadas”;
- Ela detalha que será viável usar dados preditivos em tempo real para orientar escolhas de enredo, personagens e arco narrativo antes da conclusão de um projeto;
- “Não será preciso esperar a finalização da filmagem, edição e exibição para entender os gostos do público… isso seria extremamente eficaz, permitindo que os fãs ajudem os criadores a contar as histórias que desejam ouvir”;
- Assim, produtores poderão simular respostas de diferentes segmentos de audiência por meio de personas alimentadas por vastos conjuntos de dados históricos, ajustando roteiros e criando até finais variados – como versões românticas ou dramáticas – conforme o perfil de cada espectador.
Companheiros virtuais com IA nos jogos
No universo dos videogames, a inteligência artificial também deve reformular a interação. Para Jesse Schell, designer e professor da Carnegie Mellon University, o futuro será marcado pelos chamados “companheiros de IA”.
Ele diz que tudo girará em torno desses acompanhantes digitais. Eles mudarão não apenas a forma como os jogadores interagem com os personagens do jogo, mas também como se relacionam entre si durante a partida.
Em sua visão, esses personagens poderão seguir os jogadores por longos períodos, preservando a memória de experiências anteriores e estabelecendo laços mais profundos. Além disso, inovações como realidade virtual e aumentada permitirão interações mais autênticas, e avanços na robótica podem até dar uma presença física a esses parceiros.
Schell contrasta a experiência de ter um companheiro virtual com quem se conversa com a possibilidade futura de ter uma entidade verdadeiramente presente, capaz de trocar olhares e dialogar.
Experiências presenciais tendem a se fortalecer
Apesar do aumento no tempo gasto com dispositivos digitais, analistas não preveem o fim do entretenimento ao vivo. Pelo contrário: a expectativa é que essas vivências sejam mais valorizadas como uma forma de conexão humana.
Mariko Silver, presidente do Lincoln Center for the Performing Arts, enfatiza que os momentos presenciais manterão sua importância. Compartilhar um espaço com outras pessoas durante uma performance excepcional constitui, em sua opinião, uma experiência essencial, já que os seres humanos são naturalmente inclinados à conexão.
Ela ressalta que os espaços culturais precisarão se adaptar a um público acostumado ao ambiente digital, incorporando elementos interativos – como a participação ativa da plateia e o uso de tecnologias para votação ou feedback imediato.
Entretenimento híbrido e imersivo
Para Mike Bechtel, futurista e professor da Universidade de Notre Dame, o futuro do entretenimento será uma fusão entre o físico e o digital. Ele afirma que qualquer experiência de entretenimento relevante será uma mistura do espacial com o digital.
Ele prevê ambientes equipados com telas panorâmicas, sistemas de áudio de alta fidelidade e efeitos sensoriais, como vento e chuva, proporcionando vivências profundamente imersivas. Tecnologias de realidade virtual e aumentada permitirão que cada espectador experimente versões personalizadas de um mesmo evento.
Dispositivos atuais, como os óculos de RV, devem evoluir para soluções mais discretas, como lentes de contato inteligentes ou interfaces neurais. Esses avanços poderão permitir que o público personalize conteúdos em tempo real – desde escolher rumos narrativos até modificar cenas com base em reações fisiológicas.
Bechtel compara essa dinâmica aos antigos livros de “escolha sua própria aventura”, nos quais a narrativa é moldada cena a cena. Ele complementa dizendo que, no futuro, o entretenimento será muito mais participativo do que apenas observado. Dentro de 25 anos, não apenas assistiremos ao entretenimento, mas também tomaremos parte ativa nele, nos tornando parte integrante da experiência.







