“Fronteiras livres, corpos livres, escolhas livres e livres do medo!”: a declaração de Perfidia (Teyana Taylor) no início do filme resume o propósito do movimento revolucionário que conduz a história. A produção Uma Batalha Após a Outra, do aclamado diretor Paul Thomas Anderson, recebeu treze indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Ator Principal, Ator Coadjuvante, Fotografia, Direção e Roteiro. A obra também se destacou no Globo de Ouro, levando prêmios como Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Direção e Melhor Roteiro. No total, o longa acumula cerca de duzentas vitórias e mais de quatrocentas indicações em cerimônias nacionais e internacionais.
Filmado inteiramente nos Estados Unidos, com locações na Califórnia e no Texas, o longa-metragem tem 2 horas e 41 minutos de duração e arrecadou globalmente 206,8 milhões de dólares. Estreou no Brasil em setembro de 2025 e já está disponível na plataforma de streaming HBO Max.
O lançamento de Uma Batalha Após a Outra acontece em um momento de fortes tensões sociais e políticas nos Estados Unidos, onde temas como imigração e violência estatal ganharam centralidade no debate público. A política migratória, em especial, passou a ser tratada pelo governo Trump 2.0 como uma questão de segurança nacional, alimentando a polarização e consolidando um clima de conflito que se manifesta nas ruas, na mídia e na cultura do país. Nesse cenário, operações conduzidas por agências federais de imigração resultaram na detenção de milhares de pessoas e em confrontos violentos entre agentes e manifestantes, com registros de mortes decorrentes de ações policiais.
Assim, o filme surge em um contexto onde a violência e a disputa sobre imigração se tornaram um dos temas mais sensíveis e divisivos da política americana, formando um pano de fundo real, urgente e diretamente ligado às questões centrais da narrativa.
Do ponto de vista estético e narrativo, Uma Batalha Após a Outra combina drama, comédia, suspense, alegoria, sátira e tragédia sociopolítica. A produção mescla sequências de ação intensa com crítica social, resultando em um trabalho que vai além do cinema de ação convencional, inserindo-se em um circuito mais autoral e reflexivo.
Paul Thomas Anderson é um dos cineastas mais influentes do cinema americano contemporâneo. Criado em um ambiente profundamente imerso na cultura midiática, desenvolveu desde jovem um olhar aguçado para a linguagem audiovisual e para a construção de narrativas complexas. Seu trabalho é reconhecido pelo estilo visual ousado e por enredos multifacetados, como se vê em filmes como Boogie Nights (1997) e Magnólia (1999).
Resumo analítico da obra
Uma Batalha Após a Outra segue Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), apelidado de Guetto Pat, um ex-revolucionário que vive em um Estados Unidos transformado em um Estado policial de caráter fascista. No início da trama, um grupo radical chamado French 75 executa uma operação na fronteira com o México, libertando imigrantes detidos e prendendo agentes do governo, o que provoca uma resposta violenta das forças policiais comandadas pelo coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn). A líder do movimento, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), mantém um relacionamento com Bob e engravida, mas decide deixar a filha recém-nascida, Willa (Chase Infiniti), para permanecer na luta, até ser presa posteriormente.
Dezesseis anos depois, Bob e Willa levam uma vida aparentemente comum: Willa estuda e pratica esportes, enquanto Bob tenta exercer a paternidade lidando com o consumo problemático de substâncias. Paralelamente, Lockjaw é convidado a integrar o Clube dos Aventureiros de Natal, uma organização secreta ligada ao governo, composta por nacionalistas brancos que defendem a pureza racial e almejam “limpar” a população americana.
Determinado a garantir sua entrada no grupo, Lockjaw identifica um possível obstáculo: suspeita que Willa seja sua filha, fruto de um relacionamento anterior com Perfidia, o que a tornaria mestiça e mancharia sua pureza racial. Movido por essa suspeita, ele usa sua posição militar para localizar a jovem, com a intenção de eliminá-la caso a paternidade se confirme. Para isso, utiliza o pretexto de uma invasão em Baktan Cross, local onde Bob e Willa residem, alegando a busca por imigrantes sem documentação. Durante a operação, Willa é resgatada por membros do French 75, mas se separa de Bob. Este, por sua vez, busca a ajuda do sensei Sergio St. Carlos (Benicio del Toro) e, juntos, enfrentam uma série de confrontos enquanto tentam proteger a comunidade local, defender os imigrantes e reencontrar Willa. A história se desdobra em batalhas, fugas e embates sucessivos, misturando ação, drama familiar e crítica social.
O filme sustenta que as lutas sociais e políticas de uma sociedade não são apenas conflitos momentâneos, mas questões persistentes que atravessam gerações, moldando indivíduos e instituições. Propõe uma reflexão sobre a violência política e policial, que não é episódica, mas estrutural, enraizada em um imaginário estatal que hierarquiza vidas e define certos grupos como ameaças. Além disso, a preocupação paterna de Bob e a necessidade de manter sua filha em segurança simbolizam a transmissão intergeracional de valores, traumas e responsabilidades sociais, ilustrando como questões políticas também se manifestam no âmbito familiar.
Desse modo, a ficção adota um método narrativo que mistura gêneros e estratégias estéticas para construir seu enredo e significado. A produção integra elementos de ação, comédia e drama político, criando um ritmo que oscila entre entretenimento e comentário social. Anderson recorre a situações hiperbólicas e personagens extremos como forma de satirizar práticas de violência e repressão, sem abrir mão da humanidade das figuras retratadas. Protagonistas e antagonistas funcionam tanto como indivíduos únicos quanto como representações de forças sociais mais amplas. Por fim, vale mencionar que a obra dialoga com o espírito de Vineland, romance de Thomas Pynchon, incorporando a sensibilidade crítica e intertextual do livro em sua construção narrativa, embora não seja uma adaptação literal.
Comentário crítico
Uma Batalha Após a Outra se mostra especialmente relevante no contexto contemporâneo, ao dialogar com eventos recentes nos Estados Unidos. Não há consenso sobre a mensagem política do filme. O próprio Leonardo DiCaprio afirmou, em entrevista ao The New York Times, que o foco da obra não seria o discurso político, mas as diferenças geracionais e as relações entre pais e filhos. Embora essa dimensão esteja presente, é difícil, diante dos acontecimentos políticos recentes, ignorar a existência de um discurso político consistente na narrativa, independentemente da posição ideológica do espectador.
A relação entre a opressão policial retratada em Baktan Cross e as ações recentes da Agência de Imigração e Fronteiras dos EUA (ICE) surge de maneira quase imediata. O filme se insere em um cenário de crise institucional, marcado pela erosão da confiança nas instituições, pelo aumento do poder coercitivo do Estado e pela normalização de discursos de exceção em nome da segurança nacional. A associação constante entre imigração, ameaça e violência, presente ao longo da trama, reflete debates amplamente documentados na política americana recente, onde fronteiras, policiamento e soberania se tornaram eixos centrais da radicalização política.
A obra mobiliza a memória política como elemento central, sugerindo que conflitos passados não resolvidos continuam a moldar práticas institucionais no presente. Ao articular um passado militante e uma repressão contemporânea, a narrativa reforça a compreensão da democracia como um processo atualmente instável e tensionado por comportamentos autoritários.
Como forma de exemplificar a função política desempenhada por obras audiovisuais na ativação da vigilância democrática, pode-se mencionar O Agente Secreto, filme de Kleber Mendonça Filho e grande aposta brasileira ao Oscar. A produção revisita as marcas da ditadura militar no Brasil, mostrando como experiências autoritárias do passado continuam a ecoar no presente, mesmo sob regimes formalmente democráticos. De modo similar, Uma Batalha Após a Outra cumpre uma função política relevante, ao expor práticas de repressão estatal, vigilância, criminalização da dissidência e naturalização da violência institucional. Contribui, assim, para o reconhecimento de padrões autoritários que não se apresentam necessariamente sob regimes formalmente ditatoriais. Nesse sentido, o filme funciona como um alerta para comportamentos estatais que tensionam o Estado de Direito em contextos democráticos.
Além disso, chama atenção o fato de que, nos últimos anos, produções cinematográficas que abordam autoritarismo, violência institucional e crise democrática tenham alcançado reconhecimento crítico e institucional expressivo. A recepção positiva dessas obras por parte da academia e de premiações internacionais, como exemplificado pelo sucesso do brasileiro Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, indica uma valorização crescente de narrativas que tensionam a relação entre Estado, memória e democracia. Ao mesmo tempo, esse reconhecimento tem sido acompanhado por controvérsias, debates acalorados e processos de polarização no espaço público, revelando que tais obras, ao alimentar o debate político, também expõem fraturas sociais e disputas interpretativas sobre o passado e o presente. Dessa forma, o sucesso desses filmes não apenas reflete uma demanda cultural por reflexão crítica, mas também evidencia os limites e os conflitos envolvidos na elaboração pública da memória e da experiência democrática.
A tese central do filme — a de que a violência estatal e a exclusão política são estruturais, sustentadas por discursos ideológicos profundamente enraizados — mostra-se bem desenvolvida ao longo da narrativa. Os argumentos apresentados mantêm coerência, ao articular ações individuais dos personagens com práticas institucionais mais amplas, evitando reduzir o conflito a antagonismos meramente pessoais.
No que diz respeito à clareza comunicativa, o filme opta por uma estratégia indireta, baseada na combinação de gêneros como ação, sátira e drama político. Tal estratégia amplia o alcance da obra, permitindo que diferentes públicos se envolvam com a história em níveis interpretativos diversos.
De modo geral, Uma Batalha Após a Outra se consolida como uma obra que ultrapassa o entretenimento e oferece uma leitura crítica da democracia contemporânea, marcada por tensões entre memória, poder e violência institucional. Suas escolhas narrativas e estéticas reforçam a proposta de provocar reflexão, ainda que isso implique assumir riscos interpretativos e manter zonas de ambiguidade abertas ao espectador.







