Cinema, esgoto e genialidade: Clássico de Jorge Furtado será exibido gratuitamente no Cine Metrópolis, com debate e certificado para o público
Já dizia o ditado informal do brasileiro: quando falta saneamento, sobra criatividade. E se a burocracia não resolve, a arte dá um jeitinho. Nesta quarta-feira, 25 de fevereiro, às 13h, o Cine Metrópolis, no campus de Goiabeiras da Universidade Federal do Espírito Santo, exibe gratuitamente o longa “Saneamento Básico, o Filme” (2007), dirigido por Jorge Furtado.
A sessão integra um projeto de extensão que acontece todas as quartas-feiras (exceto feriados), sempre com debate após a exibição. Desta vez, a conversa será conduzida pelo professor Fabio Camarneiro, do Departamento de Comunicação Social. Sim, tem certificado. E não, não precisa entender de cinema para participar. Basta gostar de boas histórias e, talvez, já ter enfrentado algum problema bem brasileiro.
A trama acompanha uma pequena comunidade de descendentes de imigrantes italianos na serra gaúcha, atormentada pela falta de tratamento de esgoto. Liderados por Marina, vivida por Fernanda Torres, e seu marido Joaquim, interpretado por Wagner Moura, os moradores tentam convencer a prefeitura a investir na construção de uma fossa séptica.
A resposta é negativa. Mas surge uma brecha: há uma verba pública destinada à produção de um filme que, se não for usada, volta para Brasília. A solução? Produzir um “filme de terror” sobre o monstro da fossa para captar os recursos e resolver o problema real.
O roteiro de Furtado transforma a ingenuidade dos personagens em humor inteligente. É metalinguagem pura: um filme sobre pessoas que tentam fazer um filme sem saber como se faz um filme. Entre erros técnicos, improvisos e descobertas acidentais, o grupo acaba aprendendo, na prática, as etapas de uma produção audiovisual.
O elenco é um espetáculo à parte. Além de Torres e Moura, o longa reúne nomes como Lázaro Ramos, Camila Pitanga, Paulo José e Tonico Pereira. O timing cômico é cirúrgico, especialmente nos diálogos rápidos e nas situações absurdas que, convenhamos, não estão tão distantes da realidade.
Por trás das risadas, o filme oferece uma crítica contundente às engrenagens burocráticas do país. O uso criativo de recursos públicos, a lógica do “se não gastar, perde”, e a distância entre gestão municipal e necessidades básicas da população são tratados com ironia elegante. Segundo o próprio Jorge Furtado, em entrevistas à imprensa na época do lançamento, a intenção era discutir como a arte e a política se entrelaçam na vida cotidiana.
E há ainda uma camada interessante: o investimento cultural gera impacto real. No universo do filme, a produção cinematográfica impulsiona o turismo local e transforma a dinâmica da comunidade. Arte também é infraestrutura simbólica.
Exibir “Saneamento Básico” em um espaço universitário amplia essa reflexão. O Cine Metrópolis, tradicional sala de exibição da UFES, tem papel relevante na formação de público e na difusão do cinema brasileiro no Espírito Santo. Em tempos de discussões sobre políticas públicas, cultura e cidadania, revisitar essa obra é quase terapêutico. E educativo.
No fim das contas, a pergunta que fica não é apenas sobre esgoto ou cinema. É sobre criatividade coletiva diante da negligência estrutural. Se a vida insiste em oferecer buracos, talvez a gente possa filmá-los. Ou tapá-los. De preferência, os dois.
Porque, como mostra Furtado, às vezes a solução começa com uma câmera, uma ideia improvável e um grupo disposto a rir da própria tragédia.
Serviço
Exibição de “Saneamento Básico, o Filme” (2007, 112 min.)
Data: 25 de fevereiro
Horário: 13h
Local: Cine Metrópolis, Campus Goiabeiras, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória
Entrada: Gratuita
Atividade com certificado
Programação com apresentação do professor Fabio Camarneiro e debate após a sessão






