“Que lugar é este (?)” reúne textos de pessoas LGBTQIAPN+ privadas de liberdade e será lançado na Penitenciária de Segurança Média II, em Viana
Quando a gente pensa em lançamento de livro, imagina livraria charmosa, café passado na hora e fila para autógrafo. Mas, em 23 de fevereiro, às 15h, o palco será outro: os muros da Penitenciária de Segurança Média II, em Viana. É ali que nasce publicamente “Que lugar é este (?)”, obra organizada pela produtora cultural e escritora capixaba Kátia Fialho, resultado de um projeto literário realizado com pessoas LGBTQIAPN+ privadas de liberdade. A Literatura é rica.
E antes que alguém pergunte “literatura na prisão funciona?”, a resposta mais honesta é: funciona porque palavra é ferramenta. E ferramenta, quando bem usada, abre portas. Até as que parecem de ferro.
Executado entre março e maio de 2025, o projeto foi viabilizado pelo Edital 04 de 2023 de Valorização da Diversidade Cultural Capixaba, da Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo. A proposta foi simples e profunda ao mesmo tempo: promover leitura e escrita como instrumentos de formação de leitores, produção de sentido e ressocialização.
A iniciativa dialoga com pesquisas nacionais que apontam a leitura como fator de redução de reincidência e fortalecimento da identidade. O Conselho Nacional de Justiça já destacou, em diferentes relatórios sobre remição de pena pela leitura, que a prática amplia repertório crítico e estimula autonomia intelectual.
No caso de “Que lugar é este (?)”, a literatura não foi apenas exercício técnico, mas território de reconhecimento. Vinte e três participantes aceitaram publicar suas escrevivências no formato de crônicas. São textos que abordam memória, afeto, identidade, violência, resistência e pertencimento. Narrativas que, como diria Conceição Evaristo, escrevem a vida a partir da própria experiência.

As oficinas tiveram como ponto de partida o livro “Corpos benzidos em metal pesado”, de Pedro Augusto Baía, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2022. O autor assina o prefácio da nova obra, ampliando o diálogo entre literatura contemporânea e vivências periféricas e dissidentes.
A publicação também conta com a participação da drag queen e influenciadora Rita Von Hunty, responsável pela contracapa, e do professor da Unifesp e coordenador do Núcleo Trans, Renan Quinalha, que assina as orelhas do livro. A presença dessas vozes reforça o debate sobre direitos humanos, diversidade e políticas públicas voltadas à população LGBTQIAPN+ no sistema prisional.
A equipe responsável inclui ainda Henrique Barros, fotógrafo e diagramador, que colaborou no projeto gráfico. A organização e mediação das oficinas ficaram a cargo de Kátia Fialho, que também atua como editora da obra.

O evento de lançamento será realizado dentro da própria unidade prisional, em formato restrito a familiares, convidados e autoridades. A escolha não é simbólica por acaso. Trata-se de devolver o livro ao território onde foi gestado, valorizando o percurso coletivo e reafirmando a potência da palavra.
Segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional, a população carcerária brasileira ultrapassa 800 mil pessoas, com crescimento significativo nos últimos anos. Iniciativas culturais dentro das unidades prisionais ainda são minoritárias, especialmente aquelas voltadas à diversidade de gênero e orientação sexual.
Nesse contexto, “Que lugar é este (?)” surge como marco cultural e político no Espírito Santo. Não se trata apenas de um livro, mas de um gesto institucional e artístico que reconhece subjetividades historicamente silenciadas.
Especialistas em educação e direitos humanos defendem que políticas de leitura no cárcere ampliam horizontes e fortalecem processos de reintegração social. Como afirma o professor Renan Quinalha em diversos debates acadêmicos, a garantia de direitos culturais é parte fundamental da cidadania, mesmo em contextos de privação de liberdade.
Ao investir em projetos como esse, o poder público sinaliza que cultura não é luxo, é direito. E direito, quando exercido, transforma.
Talvez a pergunta do título seja menos geográfica e mais existencial. Que lugar é este? É o lugar onde alguém escreve sua história. É o espaço onde identidade não cabe em cela. É o ponto onde literatura vira ponte. E se livros costumam abrir mundos, este começa abrindo um portão.






