Ione Reis e Musca representam o Brasil no “Nosotras Estamos en la Calle”, encontro que reúne criadoras de 14 países e celebra há 17 anos o protagonismo das mulheres nas ruas
Tem gente que viaja para tirar foto em mural. Elas viajam para pintar o mural. Duas artistas do Espírito Santo atravessam fronteiras esta semana para representar o Brasil em um dos mais relevantes festivais de arte urbana da América Latina. Entre os dias 3 e 9 de março, Ione Reis e Nadine Luiza, a Musca, participam do “Nosotras Estamos en la Calle”, em Lima, no Peru.
O festival reúne criadoras de 14 países e, há 17 anos, fortalece o protagonismo feminino nas artes de rua. Em tempos em que ainda se discute a presença de mulheres em espaços públicos, ocupar muros vira ato político. E artístico, claro.
O “Nosotras Estamos en la Calle” transforma espaços urbanos em galerias a céu aberto. Nesta edição, cerca de 30 artistas latino-americanas pintam os muros do colégio Mariano Melgar, na região de Breña, em Lima. A proposta é simples e poderosa: dar visibilidade à produção feminina e promover intercâmbio cultural.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a Unesco, a arte urbana é ferramenta de transformação social e diálogo comunitário. Quando feita por mulheres, amplia ainda mais a discussão sobre gênero, território e identidade.
“É uma honra imensa levar o nome do nosso estado e do país para esse espaço”, afirma Musca.
Musca: ancestralidade e sonho em spray
Natural da Serra, Musca iniciou na arte urbana em 2013 com sua tag. Expandiu para graffiti, pintura, ilustração e arte educação. Formada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Espírito Santo, desenvolve obras que dialogam com narrativas afrodiaspóricas, espiritualidade e identidade.
Além dos murais, atua como educadora, ministrando oficinas de graffiti para jovens em diferentes territórios capixabas. É o tipo de artista que pinta e planta.
Ione Reis: artevivência afro indígena
Também formada pela Universidade Federal do Espírito Santo, Ione Reis constrói uma poética afro indígena que une arte e ativismo. Reconhecida internacionalmente, já expôs do Brasil à África do Sul e colaborou com a Organização das Nações Unidas em projetos ligados à diáspora africana.
Em 2025, recebeu o Prêmio de Honra ao Mérito Cultural e foi condecorada como Comendadora do Estado do Espírito Santo pela Assembleia Legislativa. Sua produção, que ela define como “Artevivência”, transforma experiência em estética e resistência em cor.
O convite para o festival chegou próximo à data do evento. Para viabilizar a viagem, as artistas organizaram uma rifa solidária com diversos prêmios. A mobilização busca ampliar o apoio à presença de mulheres capixabas no cenário internacional.
“Cada contribuição ajuda a colocar mulheres do Espírito Santo nas ruas do mundo”, reforça Musca.
Mais do que participar de um festival, as artistas afirmam que a experiência reafirma a luta por mais mulheres nos espaços públicos e na cultura periférica. “Estar nesse festival é mostrar que o Espírito Santo também produz arte potente, diversa e internacional”, conclui Ione.
Quando o muro fala, a cidade escuta. E quando mulheres pintam esse muro, a história ganha novas cores. Que venham mais convites, mais voos e mais paredes em branco. O Espírito Santo tem tinta de sobra.







