Quando a cidade vira página: Iniciativa do Cine por Elas seleciona frases de escritoras locais para intervenções urbanas acessíveis, misturando poesia, inclusão e ocupação cultural dos espaços públicos
Quem disse que literatura precisa ficar quietinha na estante, esperando alguém lembrar de abrir o livro? Em Vila Velha, as palavras vão ganhar pernas, braços e muito cola, ocupando muros, centros culturais e a rotina de quem passa apressado rumo ao trabalho. É com essa proposta simples e poderosa que nasce o projeto Palavra Colada, iniciativa do coletivo Cine por Elas que vai transformar frases de escritoras locais em intervenções urbanas no formato de lambe-lambe.
As inscrições seguem abertas até o dia 9 de fevereiro e são gratuitas. A ideia é selecionar 20 frases curtas, com até 150 caracteres, que serão espalhadas por pontos culturais da cidade, provando que poesia também combina com ponto de ônibus, esquina movimentada e aquele muro que já estava pedindo um pouco mais de beleza.
Porque, convenhamos, se a propaganda pode ocupar a cidade inteira, a literatura também pode. E com muito mais sentido.
O Palavra Colada nasce com um objetivo claro: democratizar o acesso à produção literária feminina de Vila Velha e valorizar vozes que historicamente tiveram pouco espaço nos circuitos tradicionais. A proposta dialoga com um movimento cada vez mais forte no Brasil de levar arte para o espaço urbano, aproximando cultura do cotidiano das pessoas.
Segundo a idealizadora do projeto e fundadora do Cine por Elas, Fabíola Mozine, a iniciativa busca ampliar a circulação dessas palavras e criar novos encontros entre cidade e literatura. “Queremos evidenciar a diversidade de mulheres que escrevem em Vila Velha e permitir que esses textos dialoguem diretamente com quem vive a cidade. É uma forma de transformar o urbano em espaço de afeto, reflexão e pertencimento”, afirma.
Em vez de um livro fechado, frases abertas ao vento, ao sol e à curiosidade de quem passa.
A seleção das frases ficará por conta de uma curadoria formada por Fabíola Mozine, a atriz e poeta Suely Bispo, mestre em Estudos Literários, e a pesquisadora cultural Kátia Fialho. O grupo vai escolher 15 frases inéditas enviadas pelas participantes, além de cinco citações-homenagem a escritoras de Vila Velha que ajudaram a construir a memória literária local.
Os critérios passam por qualidade literária, originalidade, potência poética e diversidade de vozes. Não é necessário ter currículo, livro publicado ou prêmio na estante. A única exigência é escrever, morar em Vila Velha e querer ocupar a cidade com palavras.
Um detalhe importante é que cada frase selecionada receberá uma premiação cultural de cem reais, reforçando o reconhecimento simbólico e financeiro da produção artística local.
Depois da seleção, o projeto ganha as ruas em três grandes ações públicas de colagem, que também funcionam como encontros culturais entre autoras e público.
No dia 5 de março, o lançamento acontece na sede do Cine por Elas, com apresentação das escritoras e colagem coletiva dos primeiros lambes. Em 14 de março, a intervenção segue para a Casa Cultural 155, durante a Feira do Livro. Já no dia 20 de março, as frases ocupam o Centro Cultural Canela Verde.
Mais do que espalhar textos, o projeto cria momentos de troca, conversa e pertencimento. É literatura com cheiro de cola, som de gente rindo e cidade pulsando.
Um dos grandes diferenciais do Palavra Colada é o compromisso com a inclusão. Todos os lambe-lambes contarão com audiodescrição, acessível por QR Code, permitindo que pessoas com deficiência visual também tenham acesso ao conteúdo.
Além disso, integrantes do Cine por Elas participarão de uma formação sobre audiodescrição com o especialista Alberto Contarato, fortalecendo práticas culturais mais acessíveis e responsáveis.
Como defendem pesquisadores da área cultural, inclusão não é favor, é direito. E o projeto leva isso a sério.
Financiado por meio do programa Fundo a Fundo da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) e da Prefeitura de Vila Velha, dentro da Política Nacional Aldir Blanc, o Palavra Colada mostra como políticas públicas bem aplicadas conseguem gerar impacto direto na vida cultural das cidades.
Ao unir literatura, urbanismo, diversidade e acessibilidade, a iniciativa transforma muros em páginas abertas e faz da cidade um grande livro coletivo.
E talvez, no meio da correria, alguém pare, leia uma frase, sorria e pense: ainda bem que a arte resolveu sair de casa hoje. Quando as palavras ocupam a cidade, o cotidiano ganha poesia, reflexão e novos olhares. O Palavra Colada não é só um projeto artístico, é um convite para enxergar Vila Velha como território de criação, diversidade e afeto. Algumas frases não nasceram para ficar presas no papel. Elas nasceram para caminhar.
SERVIÇO
Inscrições gratuitas até 9 de fevereiro (formulário no Instagram @cineporelas)
Resultado: 14 de fevereiro, nas redes do Cine por Elas
Intervenções urbanas: março, em espaços culturais de Vila Velha
Premiação: cem reais por frase selecionada







