A comédia cult “Saneamento Básico, O Filme”, de 2007, dirigida por Jorge Furtado e estrelada por Wagner Moura e Fernanda Torres, voltou a ser assunto e agora está disponível nas principais plataformas de streaming, como HBO Max, Netflix, MUBI e Globoplay. Para assistir no Amazon Prime Video, é preciso ter uma assinatura do Telecine.
Detalhes técnicos e contexto histórico
Lançado em 2007, o filme captura bem a transição do analógico para o digital que marcou os anos 2000. A maior parte foi rodada em película 16 mm, com alguns trechos em 35 mm, o que confere uma textura cinematográfica clássica. Já o “filme dentro do filme”, intitulado “O Monstro do Fosso”, foi gravado com uma câmera de vídeo amadora. Essa escolha do diretor visava distinguir visualmente a realidade da ficção, mas também acabou registrando um formato que era símbolo do vídeo caseiro da época. Para o público atual, acostumado com edições rápidas em aplicativos, é interessante observar os personagens descobrindo e aprendendo a edição não-linear em computadores.
A criação do monstro e efeitos práticos
Em uma era dominada por efeitos especiais digitais e inteligência artificial, a criação do monstro neste filme é uma demonstração de criatividade manual. A estética escolhida combina perfeitamente com a narrativa de uma produção caseira. O personagem de Wagner Moura, Joaquim, constrói a criatura usando materiais recicláveis, folhas e lixo, com efeitos práticos tradicionais e sem telas verdes – uma solução que dialoga diretamente com o tema ecológico da história.
O custo dos direitos autorais
A trilha sonora de um filme envolve uma burocracia de direitos complexa e cara. Em “Saneamento Básico”, a música que teve o licenciamento mais caro foi o clássico “It Had to Be You”, na interpretação de Billie Holiday. O diretor Jorge Furtado revelou que pagou cerca de três mil dólares na época só para usar essa canção, um exemplo de como a qualidade artística sempre teve seu preço.
Um elenco premiado e roteiro sob medida
Assistir ao filme hoje é uma experiência curiosa, pois o elenco de 2007 reuniu talentos que depois conquistaram reconhecimento internacional. Além da dupla Wagner Moura e Fernanda Torres, que posteriormente foram premiados com o Globo de Ouro, a produção conta com atores consagrados como Lázaro Ramos e Camila Pitanga. Uma curiosidade sobre o roteiro é que os papéis foram escritos especificamente para esses atores. Jorge Furtado explicou que desenvolveu a trama já imaginando esse grupo. Por exemplo, o papel de Silene, vivido por Camila Pitanga, permitiu ao diretor explorar com precisão a metalinguagem de uma “musa” em busca de papéis dramáticos profundos, que acaba roubando a cena ao fugir de um monstro feito de lixo.
A inspiração em fatos reais
Apesar de parecer absurda, a história tem suas raízes em uma contradição típica do Brasil. O diretor Jorge Furtado contou que a ideia nasceu da junção de dois universos: os personagens arquetípicos da Commedia dell’Arte, um estilo clássico de teatro popular italiano, e os editais de cultura lançados pelo governo. Ele testemunhou o lançamento de um concurso real para a produção de vídeos em cidades com até vinte mil habitantes. A partir disso, criou o dilema central: como justificar a verba para um projeto de cinema em um lugar que nem tem saneamento básico? A solução fictícia encontrada pelos personagens – usar o dinheiro da arte para realizar a obra de infraestrutura – foi a resposta satírica do diretor a essa questão.







