A universalidade da música

Houve uma fase da minha vida em que viajei muito. Conheci países, paisagens e culturas diferentes e, além das experiências e aprendizados, procurava sempre trazer algo que representasse as terras por onde passei.

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Assim comecei uma coleção de CD’s e fitas cassete com composições que não consigo encontrar em serviço de streaming algum.

Não me refiro a músicas folclóricas ou étnicas, apesar de algumas serem. A maioria dessas composições são produções de circulação local e seriam consideradas estranhas ou de qualidade duvidosa aos nossos ouvidos.

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Para alguns esse fato poderia colocar em dúvida a ideia de que a música seria a única linguagem capaz de unir a humanidade.

A universalidade da obras musicais, porém, não pode ser confundida com uma uniformidade musical. A variedade de estilos e estéticas musicais testemunham a diversidade humana em nossa sociedade e no planeta. Um bom exemplo disso é a importância que damos à escrita da composição.

Muitas vezes associada ao conhecimento desse universo, a partitura ocidental não é a única forma de registro escrito. Um bom exemplo é a figura abaixo.

música
Obra Tibetana – Notação Milenar

À primeira vista as imagens acima podem parecer ilustrações abstratas, mas tratam-se na verdade da forma escrita dos milenares cantos dos monges tibetanos. É assim que por séculos esses religiosos cantam da mesma forma. Apesar de confuso aos nossos olhos, essa escrita resulta é bastante precisa e pode apresentar resultados como o do vídeo abaixo.

3 HOURS Relaxation Powerful Meditation | Tibetan Monks Chanting | Singing Bowls | Background Yoga

O que vimos acima é uma das várias formas de registro escrito da obra. Além desta há também diferentes escritas musicais como tablaturas para instrumentos de corda coreanos e japoneses. O registro musical mais antigo que conhecemos é o Hino Hurrita, escrito em tabuletas de argila há 3400 anos, muito antes de o ocidente começar a se desenvolver .

Hurrian Hymn no.6 performed by Michael Levy

Além de evidenciar o fato de não haver uma única forma de se registrar a obra, esses registros demonstram como diferentes povos desenvolveram formas e estéticas das composições tão distintas entre si quanto são as diferentes línguas faladas no mundo todo.

Essa variedade é tanta que muitas vezes tendemos a julgar que uma obra produzida em outra parte do mundo não soa como “música” aos nossos ouvidos. Um exemplo dessa afirmação pode ser o canto entoado pelos monges tibetanos, mas não precisamos buscar uma referência de uma cultura tão diferente para classificarmos uma produção como nada musical.

No Brasil tendemos a olhar para a Europa como referência de refinamento cultural e bom gosto. No entanto, o começo do século XX nos trouxe algumas revoluções musicais que desafiam os ouvidos e, por que não dizer, a paciência de muitos ouvintes. Um bom exemplo é Pierro Lunaire, de Arnold Schoenberg.

Assista aqui: Arnold Schoenberg – Pierrot Lunaire, Op. 21 (Ensemble Intercontemporain, Pierre Boulez)

Muitos poderiam dizer que esse não seria um bom exemplo, pois estaria muito distante da realidade da maioria já que Schoenberg é um autor pouco ou nada conhecido pelo grande público. Então vamos usar um exemplo mais próximo da maioria. Que tal uma faixa do aclamadíssimo álbum branco dos Beatles. Refiro-me a Revolution 9.

The Beatles – Revolution 9 (Music Video)

O que para nós parece uma coleção de ruídos, para músicos como Pierre Schaeffer, Edgar Varèse, Ferruccio Busoni, Luigi Russolo e John Cage é música feita a partir da apropriação do ruído como elemento sonoro e musical, também conhecida como composição concreta. Para eles e seus discípulos, isso é música, denominada por eles como composição concreta.

Isso tudo foi exposto para refletirmos melhor sobre o lugar de onde julgamos a estéticas das composições de povos ou lugares diferentes dos nossos. Da mesma forma que a visão de música do oriente não nos ajuda a apreciar ou validar manifestações da África, nossa cultura musical baseada em tons e uma escala com 12 notas é imprópria para avaliar composições com outras escalas e formas de nomear as “notas” musicais.

Em outras palavras, quando o assunto é música ou outra forma de manifestação estética o correto é relaxar e curtir o momento.


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Ulisses Mantovani
Ulisses Mantovani
Bacharel em Música da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), violeiro, compositor e Servidor Público Estadual

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