Houve uma fase da minha vida em que viajei muito. Conheci países, paisagens e culturas diferentes e, além das experiências e aprendizados, procurava sempre trazer algo que representasse as terras por onde passei.
Assim comecei uma coleção de CD’s e fitas cassete com composições que não consigo encontrar em serviço de streaming algum.
Não me refiro a músicas folclóricas ou étnicas, apesar de algumas serem. A maioria dessas composições são produções de circulação local e seriam consideradas estranhas ou de qualidade duvidosa aos nossos ouvidos.
Para alguns esse fato poderia colocar em dúvida a ideia de que a música seria a única linguagem capaz de unir a humanidade.
A universalidade da obras musicais, porém, não pode ser confundida com uma uniformidade musical. A variedade de estilos e estéticas musicais testemunham a diversidade humana em nossa sociedade e no planeta. Um bom exemplo disso é a importância que damos à escrita da composição.
Muitas vezes associada ao conhecimento desse universo, a partitura ocidental não é a única forma de registro escrito. Um bom exemplo é a figura abaixo.

À primeira vista as imagens acima podem parecer ilustrações abstratas, mas tratam-se na verdade da forma escrita dos milenares cantos dos monges tibetanos. É assim que por séculos esses religiosos cantam da mesma forma. Apesar de confuso aos nossos olhos, essa escrita resulta é bastante precisa e pode apresentar resultados como o do vídeo abaixo.
O que vimos acima é uma das várias formas de registro escrito da obra. Além desta há também diferentes escritas musicais como tablaturas para instrumentos de corda coreanos e japoneses. O registro musical mais antigo que conhecemos é o Hino Hurrita, escrito em tabuletas de argila há 3400 anos, muito antes de o ocidente começar a se desenvolver .
Além de evidenciar o fato de não haver uma única forma de se registrar a obra, esses registros demonstram como diferentes povos desenvolveram formas e estéticas das composições tão distintas entre si quanto são as diferentes línguas faladas no mundo todo.
Essa variedade é tanta que muitas vezes tendemos a julgar que uma obra produzida em outra parte do mundo não soa como “música” aos nossos ouvidos. Um exemplo dessa afirmação pode ser o canto entoado pelos monges tibetanos, mas não precisamos buscar uma referência de uma cultura tão diferente para classificarmos uma produção como nada musical.
No Brasil tendemos a olhar para a Europa como referência de refinamento cultural e bom gosto. No entanto, o começo do século XX nos trouxe algumas revoluções musicais que desafiam os ouvidos e, por que não dizer, a paciência de muitos ouvintes. Um bom exemplo é Pierro Lunaire, de Arnold Schoenberg.
Assista aqui: Arnold Schoenberg – Pierrot Lunaire, Op. 21 (Ensemble Intercontemporain, Pierre Boulez)
Muitos poderiam dizer que esse não seria um bom exemplo, pois estaria muito distante da realidade da maioria já que Schoenberg é um autor pouco ou nada conhecido pelo grande público. Então vamos usar um exemplo mais próximo da maioria. Que tal uma faixa do aclamadíssimo álbum branco dos Beatles. Refiro-me a Revolution 9.
O que para nós parece uma coleção de ruídos, para músicos como Pierre Schaeffer, Edgar Varèse, Ferruccio Busoni, Luigi Russolo e John Cage é música feita a partir da apropriação do ruído como elemento sonoro e musical, também conhecida como composição concreta. Para eles e seus discípulos, isso é música, denominada por eles como composição concreta.
Isso tudo foi exposto para refletirmos melhor sobre o lugar de onde julgamos a estéticas das composições de povos ou lugares diferentes dos nossos. Da mesma forma que a visão de música do oriente não nos ajuda a apreciar ou validar manifestações da África, nossa cultura musical baseada em tons e uma escala com 12 notas é imprópria para avaliar composições com outras escalas e formas de nomear as “notas” musicais.
Em outras palavras, quando o assunto é música ou outra forma de manifestação estética o correto é relaxar e curtir o momento.







