31 de janeiro de 2026
sábado, 31 de janeiro de 2026

A convivência molda o comportamento e as emoções de cães e seus tutores

Além de simples companheiros, os cachorros frequentemente espelham as características de seus donos. Uma pesquisa publicada na revista científica Personality and Individual Differences mostra que donos e seus animais de estimação costumam compartilhar traços de personalidade e até rotinas de saúde semelhantes.

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Esses paralelos podem surgir desde a escolha do pet ou se intensificarem conforme a relação se estreita.

Mariana Hess, especialista em Psicologia Experimental e Etologia com mestrado pelo Instituto de Psicologia (IP) da USP, explica que as atitudes do dono influenciam diretamente as do cão.

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“Pessoas com traços mais acentuados de neuroticismo – um estado contínuo de instabilidade emocional – podem ter cachorros mais medrosos e ansiosos. Isso acontece porque donos neuróticos tendem a ser mais imprevisíveis, o que pode até atrapalhar o processo de adestramento. Por outro lado, donos extrovertidos normalmente têm cães mais amistosos. E tutores mais conscientes costumam ter animais mais dóceis, o que facilita o treinamento graças à constância e regularidade que mantêm durante o processo.”

Vínculo e bem-estar psicológico

Embora muitas vezes seja vista como positiva, Mariana esclarece que as similaridades entre dono e cão nem sempre são benéficas para a dinâmica do relacionamento.

“Em muitos casos, quanto maior o apego do tutor ao cachorro, maiores podem ser os índices de estresse, ansiedade e depressão. Isso não significa que ter um cão cause esses problemas, mas pode indicar um vínculo excessivo, que nem sempre é saudável. Às vezes, a relação é usada como uma estratégia para lidar com questões emocionais, daí os índices mais altos.”

A especialista complementa: “Imagine um dono muito sociável e cheio de energia, que adora sair e quer levar o cachorro junto, mas o animal é extremamente ansioso. Nessas situações sociais, o pet pode ficar ainda mais nervoso. Da mesma forma, se o cão é ansioso e fica sozinho em casa por longos períodos, a conduta do dono pode ser prejudicial. A divergência de temperamento também é problemática no cenário inverso: tutores com cachorros muito energéticos, mas que não costumam sair de casa, podem deixá-los agitados e intranquilos.”

Contudo, Mariana ressalta que certas convergências podem fortalecer a relação. “Quando há características compartilhadas, como extroversão ou cordialidade, o laço tende a ser mais favorável. Donos sociáveis e cooperativos geralmente oferecem interações mais equilibradas e agradáveis para o cão, o que promove saúde física e emocional e fortalece vínculos de confiança.” Ela enfatiza que “a similaridade de personalidade nem sempre é o elemento decisivo para a qualidade da conexão. O que importa é saber quais tipos de semelhanças estão presentes”.

A pesquisadora conclui dizendo que o cão pode ser visto como uma figura natural de afeto. “O cachorro costuma estar sempre ao lado do dono, é carinhoso e não critica. Por isso, o tutor se sente à vontade em sua presença e busca essa proximidade, o que gera uma segurança no apego. Esse vínculo pode até facilitar o estabelecimento de outras relações seguras”, explica. “Cultivar essa relação com o animal de estimação também ajuda a desenvolver uma conexão melhor com outras pessoas”, finaliza.

Vida dinâmica, saúde física e mental

Mariana afirma que a relação pode influenciar o nível de atividade física de ambos. “Quanto mais o tutor sai para caminhar e se exercitar, maior a chance de levar o cão junto. Se o dono é ativo, passear com o pet não parece um grande esforço, e isso faz com que o cachorro também tenha um nível maior de atividade física.”

Segundo ela, essa rotina traz benefícios diretos para a saúde do animal. “É um fator de proteção contra doenças crônicas, problemas musculoesqueléticos e obesidade. No aspecto mental, a atividade física regular está associada a menores índices de ansiedade e agressividade.”

Seleção criteriosa e adoções conscientes

Com base na pesquisa, a especialista acredita que essas informações podem tornar as adoções mais ponderadas no futuro. “Sabendo que alguns alinhamentos de temperamento e personalidade serão positivos ou não para a relação, é crucial escolher um cachorro que se adapte melhor à nossa rotina, sem tentar moldá-lo à força.”

Para Mariana, esse cuidado é especialmente vantajoso na adoção de cães idosos. “Cães mais velhos costumam ser mais compatíveis com certas pessoas, porque sua personalidade, nível de exercício necessário e demanda por atenção já são conhecidos. Essas características se definem com o tempo. Assim, podemos ampliar a perspectiva e considerar a adoção de cães adultos, e não apenas de filhotes.”

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