Evento promovido pela Amacentro reúne especialistas e sociedade civil para debater cuidado, políticas públicas e a realidade de pessoas em situação de rua
Se saúde mental já é assunto difícil na rotina de quem tem casa, imagine para quem vive sem teto, sem rotina e, muitas vezes, sem escuta. Pois é exatamente esse silêncio que um novo evento em Vitória quer quebrar. E não com sussurros, mas com diálogo aberto, direto e necessário.
Nesta terça feira, 17 de março, às 19h, o Centro da capital capixaba recebe o seminário “Mente, Corpo e Comunidade – Por Dentro da Saúde Mental”, iniciativa do Fórum Permanente das Pessoas em Situação de Rua, promovido pela Amacentro (Associação de Moradores do Centro de Vitória).
O encontro acontece no Instituto Fênix, na Escadaria Acyr Guimarães, e propõe um debate urgente: como cuidar da saúde mental de quem, muitas vezes, sequer tem acesso ao básico? O seminário reúne especialistas de diferentes áreas para discutir caminhos possíveis de acolhimento e construção de políticas públicas mais humanas.
Entre os participantes estão a professora doutora Fabíola Xavier Leal, da UFES, o pesquisador e gestor público Pablo Lira, diretor do Instituto Jones dos Santos Neves, e a psicóloga Camila Mariani Silva, que atua na rede pública e na luta antimanicomial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1 em cada 8 pessoas no mundo vive com algum transtorno mental. Em contextos de vulnerabilidade social, como a população em situação de rua, esses números tendem a ser ainda mais alarmantes. Ou seja, não é só uma questão de saúde. É também uma questão de dignidade.
A Política Nacional para a População em Situação de Rua, criada pelo Decreto nº 7.053 de 2009, define esse grupo como pessoas que vivem em pobreza extrema, com vínculos familiares rompidos ou fragilizados e sem moradia regular, utilizando espaços públicos ou abrigos temporários para viver. O cuidado com essa população deve ser intersetorial, envolvendo diferentes políticas públicas. A saúde é um dos eixos centrais, com o objetivo de garantir acesso amplo e seguro aos serviços, além de fortalecer a articulação entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS).
O seminário marca o início de um ciclo de quatro encontros que vão aprofundar temas como o uso de álcool e outras drogas, a ruptura de vínculos sociais e protocolos de atendimento em situações de crise. A proposta é construir uma rede de cuidado mais integrada, envolvendo poder público, pesquisadores e sociedade civil. Como já defendia o psiquiatra italiano Franco Basaglia, referência mundial na reforma psiquiátrica, “a liberdade é terapêutica”. No Brasil, esse pensamento inspirou o movimento da luta antimanicomial, que busca substituir modelos de exclusão por práticas de cuidado comunitário. E aqui entra um ponto importante: falar sobre saúde mental não é apenas tratar sintomas. É entender contextos, histórias e, principalmente, pessoas.
Eventos como esse mostram que o debate sobre saúde mental está, aos poucos, saindo dos consultórios e indo para as ruas, onde ele também precisa estar. Porque não adianta falar de cuidado sem escutar quem mais precisa. E talvez o maior desafio seja justamente esse: transformar conversa em ação. Entre teorias, dados e falas técnicas, o que fica é uma pergunta simples e incômoda: quem cuida de quem não tem ninguém? Se o seminário não trouxer todas as respostas, já cumpre um papel essencial ao abrir espaço para a pergunta. E, às vezes, tudo começa com alguém disposto a ouvir.






