Uma Menina refugiada e jacaré capixaba dividem o palco em espetáculo de bonecos que estreia em Vitória: “Ayla e Marmelo”, nova montagem do Grupo Árvore, mistura teatro de animação, humor e reflexão sobre migração, amizade e meio ambiente em apresentações no Centro de Vitória.
Se alguém dissesse que uma menina refugiada da Turquia faria amizade com um jacaré capixaba, provavelmente muita gente pensaria que isso é roteiro de filme de animação. Ou conversa de pescador exagerado. Mas no teatro tudo é possível. E às vezes é justamente aí que surgem as histórias mais bonitas.
Esse é o ponto de partida do espetáculo “Ayla e Marmelo”, nova produção do Grupo Árvore Casa das Artes, que chega aos palcos de Vitória com uma mistura sensível de teatro de bonecos, humor e reflexão social. A peça será apresentada nos dias 4 e 5 de abril, às 18h, no Palácio da Cultura Sônia Cabral, com classificação livre e duração de aproximadamente 50 minutos.
A montagem conta a história da menina Ayla, que chega ao Brasil com sua família após fugir de conflitos políticos em seu país de origem, a Turquia. Em terras capixabas, ela encontra novas paisagens, novas culturas e um amigo bastante peculiar: o jacaré Marmelo, morador imaginário das águas da Lagoa do Juara, na Serra. Sim, é teatro infantil. Mas com temas grandes. Embora a narrativa tenha um tom lúdico, o espetáculo toca em questões muito atuais. Migração, diversidade cultural, empatia e preservação ambiental aparecem ao longo da trama, sempre através de humor, poesia e imagens visuais criativas.
Segundo dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), mais de 100 milhões de pessoas vivem atualmente deslocadas no mundo devido a guerras e conflitos. Trazer esse tema para o universo infantil pode parecer ousado, mas especialistas defendem essa abordagem. O pedagogo e educador brasileiro Paulo Freire afirmava que “a educação precisa dialogar com a realidade para formar cidadãos críticos”. O teatro infantil contemporâneo segue justamente essa linha: divertir, emocionar e provocar reflexão.
No caso de “Ayla e Marmelo”, tudo acontece sem perder a leveza. Porque criança gosta de pensar, mas também gosta de rir. E adulto também, convenhamos. A montagem marca mais um passo na pesquisa do Grupo Árvore sobre teatro de animação, linguagem artística que utiliza bonecos, objetos e elementos visuais para criar personagens e histórias.
De acordo com o diretor Wyller Villaças, a proposta do espetáculo vai além da manipulação tradicional. “A função do manipulador é ampliada. Ele não está apenas escondido animando o boneco, mas aparece em cena como ator-manipulador, dialogando diretamente com os personagens”, explica. Essa técnica cria uma espécie de jogo teatral em que humanos e bonecos dividem o palco. É como se a imaginação da plateia fosse convidada a completar o espetáculo.
Fundado em 2016, o Grupo Árvore Casa das Artes desenvolve seu trabalho a partir de uma mistura de linguagens populares, que vão do teatro de rua ao circo e à palhaçaria. Com sede no Centro de Vitória, próximo ao Morro da Piedade, o coletivo também mantém atividades formativas como o Núcleo de Pesquisa em Teatro de Rua (NPTR) e a Escola de Circo e Teatro da Árvore (ECTA).
Em “Ayla e Marmelo”, o cenário capixaba também ganha destaque. A paisagem da Lagoa do Juara, na Serra, inspira parte do universo visual da peça, criando um encontro simbólico entre culturas. Ayla representa quem chega de longe. Marmelo representa quem já estava ali. E o palco vira o lugar onde essas duas histórias se encontram. Talvez seja essa a beleza do teatro: criar pontes onde antes existiam apenas distâncias. Histórias infantis costumam terminar com uma lição. Mas o teatro prefere algo um pouco mais interessante: deixar uma pergunta no ar. Quem sabe depois de assistir à peça alguém saia pensando sobre amizade, natureza ou sobre como tratar melhor quem chega de outro lugar. Ou talvez apenas saia feliz por ter visto um jacaré simpático no palco.
Serviço
Espetáculo: Ayla e Marmelo
Datas: 4 e 5 de abril
Horário: 18h
Local: Palácio da Cultura Sônia Cabral – Centro de Vitória (ES)
Duração: 50 minutos
Classificação: Livre
Ingressos: R$ 20 (meia promocional até 31 de março)
Realização: Grupo Árvore Casa das Artes
Projeto: Incentivo da Lei Paulo Gustavo – Ministério da Cultura e Governo do Espírito Santo








