Mostra coletiva em Vitória reúne artistas do ES, BA e RJ e transforma fenômeno climático em metáfora de arte, cura e identidade afro-diaspórica
Se você acha que rio só corre para frente, talvez esteja olhando pouco para o céu. Os chamados “rios voadores” — correntes de umidade que saem da Amazônia e atravessam o continente pela atmosfera — inspiram a nova exposição coletiva que ocupa a Galeria Homero Massena, no Centro de Vitória. E não, não é aula de geografia. É arte contemporânea com afeto, política e espiritualidade.
A abertura acontece no sábado, 21 de fevereiro de 2026, com entrada gratuita e classificação livre. A programação começa às 15h, com distribuição de picolés (porque ninguém debate ancestralidade desidratado), segue às 16h com contação de histórias de Adélia Oliveira e culmina na vernissage das 17h às 19h.
Inspirada na visão do líder indígena Ailton Krenak — que afirma que o rio não é recurso, mas ser vivo —, a exposição propõe a arte como movimento coletivo de cura e invenção. A metáfora dos rios invisíveis conecta memórias afro-diaspóricas, saberes ancestrais e afetos que sustentam modos de existir.
Com recursos do Funcultura e da Secretaria de Cultura do Espírito Santo, por meio do edital 09/2023, a mostra reúne artistas de Porto Seguro (BA), Campos dos Goytacazes (RJ) e Vila Velha (ES). Pinturas e instalações amadurecidas no solo capixaba dialogam com temas como espiritualidade, identidade, tempo espiralar e reconexão com a ancestralidade.
Três trajetórias
A capixaba Yasmin Cerqueira, criada na Baixada Fluminense e residente em Vila Velha, explora afetos e memórias por meio da pintura. Finalista em Artes Visuais pela UFES, já participou de salões como o 20º Salão Ubatuba de Artes Visuais, onde recebeu Prêmio Incentivo. Suas obras são territórios de cura e imaginação, atravessadas pelo lúdico.
Valentim Faria, nascido em Campos dos Goytacazes e residente em Vitória, constrói sua poética a partir das vivências de jovens negros, mestiços e LGBTQIA+. Graduando em Artes Visuais pela UFES, transita entre pintura, moda e escrita. Sua pesquisa envolve espiritualidade e fabulação, tendo o rio Paraíba do Sul como guia simbólico. Atua ainda como arte-educador no Parque Cultural Casa do Governador e produtor cultural na Grande Vitória.
Já Guilherme Brasil, natural de Porto Seguro e também estudante da UFES, trabalha desenho, pintura, foto-performance e escultura. Sua produção dialoga com a figura de Exu e a ideia de tempo curvo, espiritual e criativo. Como arte-educador do Sesc Glória, reforça a educação como parte viva do fazer artístico.
Espiritualidade, tarô e autoconhecimento
Curiosamente, a exposição também abre espaço para reflexões sobre espiritualidade e autoconhecimento, temas que dialogam com práticas como o tarô. Em tempos de incerteza, muitos buscam respostas sobre amor, carreira ou propósito. Especialistas destacam que o tarô funciona menos como previsão e mais como ferramenta de reflexão, revelando padrões e medos subconscientes.
Assim como nas cartas, a arte aqui atua como espelho. Não determina destino, mas amplia percepção. E, convenhamos, às vezes a gente precisa mais de pergunta boa do que de resposta pronta.
A tarde de abertura foi pensada como experiência em camadas: do lúdico ao educativo, do encontro ao institucional. A iniciativa reforça o papel da Galeria Homero Massena como espaço de democratização cultural no Espírito Santo.
No fim, talvez a pergunta não seja “o que essa exposição quer dizer?”, mas “o que ela desperta em você?”. Se os rios voadores conectam florestas e cidades, essa mostra conecta passado e futuro no presente urgente.
E se a arte é travessia, que tal atravessar também?







