Grupo de Teatro Rerigtiba inicia circulação por 10 cidades do Espírito Santo com a fábula contemporânea “A Maldição e o Mistério de Kalá”, com entrada gratuita e acessibilidade em Libras
Tem espetáculo que a gente assiste. E tem espetáculo que olha de volta pra gente. No dia 1º de março, o palco do histórico Theatro Carlos Gomes, em Vitória, recebe a estreia da circulação de “A Maldição e o Mistério de Kalá”, novo trabalho do Grupo de Teatro Rerigtiba. E já aviso: tem máscara balinesa, maldição ancestral e aquela pergunta incômoda que todo bom teatro faz — o que você faria diante das próprias escolhas?
A montagem abre uma turnê que vai passar por 10 municípios capixabas, de norte a sul, com entrada franca e intérprete de Libras em todas as sessões. Ou seja, cultura acessível e itinerante, do jeito que política pública séria deve ser.
Uma fábula contemporânea com sotaque universal
“A Maldição e o Mistério de Kalá” apresenta a história de uma vila amaldiçoada por um imperador vingativo. A cada sete luas novas, o mais jovem de uma família é levado pela noite. Sim, é pesado. Mas calma: o teatro também é o lugar da esperança.
Dois antigos moradores e uma jovem visitante se unem para romper o ciclo de dor, reafirmando o poder do amor, da amizade e da família. Pode parecer conto de fadas, mas a metáfora é atualíssima. Em tempos de intolerância e polarização, falar de escolhas e coletividade nunca foi tão urgente.

A encenação utiliza máscaras balinesas, recurso que remete a tradições milenares do teatro asiático. Segundo a diretora e dramaturga Tiche Vianna, pesquisadora reconhecida no universo das máscaras teatrais, o uso da meia máscara exige do ator precisão corporal e expressividade ampliada. Quando o rosto se cobre, o corpo fala. E fala alto.
Três décadas de estrada e pesquisa
Fundado em 1993, em Anchieta, o Grupo Rerigtiba é um dos coletivos mais longevos do Espírito Santo. Ao longo de mais de 30 anos, a companhia percorreu mais de 40 por cento dos 78 municípios capixabas, consolidando-se como referência em pesquisa estética e processo colaborativo.
A circulação atual foi contemplada no edital 10 de 2024, com recursos do Funcultura, da Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo, por meio da Política Nacional Aldir Blanc, do Ministério da Cultura e Governo Federal. Em outras palavras, é o dinheiro público retornando em forma de arte, formação de público e descentralização cultural.
No elenco estão as atrizes Julia Campos, Sara Lyra e Welida Pontes, com assistência de cena de Jacqueline Cupertino. A equipe técnica reúne Danilo Curtiss na operação de som, Murillo Pompermayer na luz e produção executiva de Telma Amaral. Teatro é coletivo e sempre foi, isso é umas das estruturas do grupo Rerigtiba.
A circulação inclui apresentações em Vitória, Marilândia, Viana, São Mateus, Venda Nova do Imigrante, Atílio Vivácqua, Anchieta, Santa Teresa, Muniz Freire e João Neiva. Levar um espetáculo com essa complexidade estética para teatros e espaços alternativos pelo interior é também um gesto político.
E se alguém acha que teatro é coisa de nicho, vale lembrar: as histórias que atravessam séculos são justamente as que falam de medo, perda, amizade e redenção. Kalá poderia ser qualquer vila. Inclusive a nossa.
Se a vida anda meio automática, talvez seja hora de sentar na plateia e deixar a máscara cair. Ou subir. Talvez a maior maldição seja viver sem imaginar outros finais possíveis. E o teatro, convenhamos, é especialista em reescrever destinos.
Serviço
Estreia de “A Maldição e o Mistério de Kalá”
01 de março (domingo) as 19h
Theatro Carlos Gomes, Vitória
Entrada Gratuita
Acessibilidade: Intérprete de Libras
Classificação indicativa: 10 anos
Informações: (28) 98811 8468







