No coração do Centro Histórico de Vitória, a Casa Cousa transforma fevereiro em um convite à reflexão, ao fazer editorial e ao prazer de pensar junto.
Se fevereiro costuma ser lembrado pelo calor, pelo calendário apertado e pela sensação de que o ano só começa depois do Carnaval, a Casa Cousa resolveu discordar. E discordar com estilo, livros abertos, café passado e ideias circulando sem pedir licença. A programação do mês aposta em leitura crítica, troca de experiências e oficinas que colocam a palavra para trabalhar fora do papel. Sim, a escrita também pode pegar sol.
Localizada na Rua Duque de Caxias, no Centro Histórico de Vitória, a Casa Cousa se firma como um desses raros espaços onde pensar não dá dor de cabeça, dá vontade de ficar mais um pouco.
A Casa Cousa integra uma rede de iniciativas ligadas à Editora Cousa, à Combiousa e a projetos de circulação literária no Espírito Santo. O espaço atua como um ponto de encontro entre leitores, escritores, editores e curiosos em geral. Gente que gosta de livro, mas não necessariamente de silêncio absoluto.
Com atividades gratuitas viabilizadas pelo Edital nº 03 de 2025 da Secretaria da Cultura do Espírito Santo, em diálogo com a Política Nacional Aldir Blanc do Ministério da Cultura, a programação reafirma algo importante em tempos de distração infinita: cultura também é política pública, não só evento de Instagram.
A abertura da programação acontece no dia 12 de fevereiro, às 18h30, com a Roda de Leitura dedicada ao Ensinamento 9 do livro Ensinando Pensamento Crítico: sabedoria prática, da pensadora bell hooks.
Referência mundial nos estudos sobre educação, raça, gênero e emancipação, bell hooks defende a narrativa como ferramenta de construção de pensamento crítico e de transformação social. Contar histórias, para ela, não é passatempo, é método.
A roda propõe um debate coletivo sobre como a escuta e a partilha de experiências ampliam a leitura de mundo. E não precisa ser especialista, doutor ou professor. Basta chegar com disposição para ouvir e falar. Errar faz parte do pacote, inclusive.
No dia 24 de fevereiro, às 18h30, o Ciclo A Oficina recebe Francisco Aurélio Ribeiro, nome fundamental da edição independente capixaba. Editor de livros que ajudaram a formar gerações de leitores no Espírito Santo, Francisco traz um bate papo sobre o ofício de editar, que passa longe da ideia de glamour.
Editar é cortar, costurar, duvidar, insistir e, às vezes, brigar com o próprio texto. Como lembra o crítico Roger Chartier, o livro é sempre resultado de uma cadeia de decisões coletivas. E esse encontro promete abrir a caixa de ferramentas desse processo.
Encerrando o mês, no dia 28 de fevereiro, às 14h, a escritora e artista Aline Dias conduz a oficina Palavra Pano: o que suporta a escrita. A proposta é simples e provocadora: pensar a escrita para além do papel, explorando outros suportes, materiais e possibilidades criativas.
Em tempos digitais, falar de pano pode soar estranho. Mas talvez seja exatamente aí que mora a graça. Afinal, escrever também é gesto, corpo e matéria. A oficina dialoga com práticas contemporâneas de arte e literatura que borram fronteiras e ampliam sentidos.
Todas as atividades acontecem na Casa Cousa, na Rua Duque de Caxias, 121, Centro Histórico de Vitória. A entrada é gratuita e aberta ao público. A realização envolve a Editora Cousa, Combiousa, Catraia Livros e Leitura, Funcultura, Secretaria da Cultura do Espírito Santo, Sistema Nacional de Cultura, Política Nacional Aldir Blanc e Ministério da Cultura.
Em um cenário em que a pressa virou regra e o pensamento raso ganha likes, iniciativas como a Casa Cousa funcionam como pequenos atos de resistência. Ler junto, conversar, discordar com respeito e experimentar a palavra em novas formas é, sim, um gesto político. Fevereiro passa rápido. As boas ideias, quando bem cultivadas, ficam.







