Terceira Guerra do Golfo e Primeira Guerra entre BRICS

Ignoremos, por um momento, o ruído constante de declarações contraditórias vindas da Casa Branca, algo que, com uma frequência paradoxal os apoiantes de Trump recomendam que se faça. Procuremos perceber se há sinais de uma estratégia dos EUA nesta guerra no Irão. Afloremos o debate crucial sobre as suas implicações geoestratégicas globais e regionais deste conflito.

Continua após a publicidade

Uma guerra regional com forte impacto global

Mas que guerra é esta? Não se trata de uma guerra mundial, porque, para já o conflito armado está limitado a uma região e não implica um confronto militar direto entre as principais potências globais. A China e a Rússia são amigas do Irão, mas à distância. Pequim e Moscovo preferem evitar um choque direto com os EUA, na esperança de que se volte a atolar no Médio Oriente. Mas esta não é uma pequena intervenção militar limitada no tempo e nos objetivos como o raide contra Maduro ou o ataque contra o programa nuclear iraniano de junho de 2025.

Continua após a publicidade

Estamos a lidar, para já, com uma guerra regional que envolve mais de 10 países do Médio Oriente e do Mediterrâneo. O Irão apostou numa estratégia de escalada horizontal, de alargamento regional da guerra. Israel também alargou a guerra ao Líbano para tentar eliminar de vez o Hizbullah. Este é, portanto, uma guerra regional, envolvendo uma grande potência, e com um forte impacto global. Se o conflito se prolongar pode mesmo levar a um novo choque petrolífero e a uma recessão global como um risco sério de, como na década de 1970, cairmos na estagflação, num círculo vicioso de crise e inflação elevada. Certamente uma grande potência como os EUA, com um grande líder, e uma longa tradição de planeamento estratégico terá um plano para lidar com problema.

Os EUA têm uma estratégia nesta guerra?

Olhemos para os EUA como se estivéssemos num contexto político e institucional normal. A resposta deveria estar na Estratégia de Segurança Nacional, para mais publicada poucos meses antes do início deste conflito, em dezembro de 2025. Aí podemos verificar que o Médio Oriente aparece como a quarta prioridade geoestratégia dos EUA, depois das Américas, da Asia-Pacífico, da Europa.  O objetivo é claro: “shift burdens, build peace”. Especificamente sobre o Irão o documento afirmava que era efetivamente “a principal força desestabilizadora” da região, mas logo acrescente que “foi grandemente enfraquecido” pelas operações anteriores de Israel e dos EUA.

Ora, pelo contrário, este conflito obriga a reforçar muito a presença militar dos EUA na região, e se o conflito se prolongar ou terminar num cessar-fogo de facto frágil, potencialmente por muito tempo. Tentar forçar a abertura do estreito de Ormuz e garantir pela força a segurança da navegação será uma operação muito pesada e de alto risco. E ainda há a possibilidade dos Houthis voltarem a ameaçar a segurança da navegação noutro grande ponto de estrangulamento, o estreito de Aden, o que obrigaria a fixar ainda mais forças. Tudo isto vai claramente contra a estratégia declarada dos EUA e as prioridades estratégicas definidas meses antes. Esta guerra parece ser ao nível estratégico e da parte dos EUA um conflito improvisado, contrariando prioridades estratégicas declaradas.

Impactos geoestratégicos regionais

O erro pode ser da liderança norte-americana, mas todo o Mundo está a pagar o preço de se ter subestimado no planeamento estratégico e na decisão política o risco representado pelo Irão para a navegação em Ormuz, e o que seria necessário fazer para lidar com essa ameaça. Em continentes mais dependentes da importação de hidrocarbonetos do Golfo, e mais frágeis economicamente, as consequências já são bem mais dramáticas do que na Europa. Com racionamento em África e teletrabalho na Ásia. E os problemas não acabam aí.

Muitos países asiáticos têm enormes comunidades de migrantes a trabalhar nos países do Golfo. Só indianos são 10 milhões, e há milhões mais de filipinos, nepaleses, bengalis, paquistaneses. A preocupação destes governos asiáticos é com a segurança dos seus cidadãos, mas também com a possibilidade de, se o conflito se prolongar, as economias do Golfo serem seriamente afetadas, pondo em risco empregos bem pagos e enormes remessas de divisas que daí vêm. Mais, um potencial novo bloqueio à navegação segura pelo estreito de Aden afetaria grande parte do comércio marítimo entre a Ásia e a Europa. Embora se possa recorrer à rota do Cabo isso acrescenta 7.000 km e todos os custos e demoras que daí resultam. Seria mais um fator de inflação e incerteza na economia global, afetando, em particular, a Ásia e a Europa.

Em África menos combustível e mais caro significa racionamento, mas também populações muito pobres com enorme dificuldade em acomodar subidas generalizadas de preços em produtos essenciais. Problemas no acesso a fertilizantes para os muitos africanos que ainda dependem da agricultura de subsistência pode significar piores colheiras, mais insegurança alimentar e até fome. Tudo isto pode levar a mais migração, mais revoltas populares contra governos com margem orçamental limitada para subsidiar os mais atingidos.

Mais, para os países da África Oriental este não é um conflito distante. A Etiópia, o Quénia, os militares do Sudão, ou os separatistas da Somalilândia construíram relações de parceria próxima com países do Golfo como os Emiratos a Arábia Saudita, ou Israel no campo da segurança e defesa. Essa cooperação pode estar em questão se estes Estados forem forçados a focar-se no Irão, aumentando os desafios económicos e de segurança na região, sobretudo se o conflito se alargar, por via dos Houthis, ao Mar Vermelho e à costa oriental de África.

No caso da América Latina prevalece a perceção de que estarem numa situação periférica que reduz riscos mais diretos desta guerra, mas não todos os custos de um conflito que a região não tem capacidade de influenciar. Na crise crescente de Cuba prevalece a ideia de que isto poderá significar mais possibilidades para a diplomacia, visto que militarmente os EUA estão empenhados noutro lado. Também há algumas oportunidades para países exportadores de petróleo como Brasil ou, sobretudo, a Guiana, o petroestado emergente das Américas, para aumentarem lucros e vendas como uma alternativa segura. Mas há um grande receio de uma recessão global impactar esta região economicamente frágil.

A Europa não é diferente

É errado falar de uma Europa mais dividida relativamente a esta questão ou mais alinhada com os EUA quando comparada com os outros continentes. Vemos uma tendência geral global para evitar o envolvimento direto na guerra, mesmo de aliados tradicionais dos EUA, como a Austrália ou o Japão, muito mais dependentes da importação de hidrocarbunetos Golfo do que os europeus. A razão? Não ter havido qualquer consulta prévia, qualquer esforço dos EUA para criar uma coligação. Essa também é uma das funções do planeamento estratégico desde a Segunda Guerra Mundial, permitir criar amplas coligações que tem uma ideia clara e uma palavra a dizer na definição de objetivos estratégicos e da missão.

Política e diplomaticamente temos três grupos nos diferentes continentes. Um primeiro grupo reduzido de Estados que declaram publicamente total apoio a Israel e aos EUA. São geralmente governos muitos alinhados ideologicamente com Trump como a Argentina de Milei. A maioria dos aliados tradicionais e muitos outros Estados que procuram manter boas relações com os EUA, ou com Israel ou com os países do Golfo, evitam criticar estes Estados, mas apelam à contenção, ao diálogo, e a esforços rápidos para terminar o conflito, criticam os ataques indiscriminados iranianos a alvos civis: vão da Alemanha à Índia, da Grã-Bretanha à Nigéria. Alguns Estados criticam os EUA mas não vão ao ponto de manifestar simpatia pelo Irão, como a Espanha ou o Brasil. Um grupo relativamente pequeno de Estados criticam mais duramente os EUA e mostram solidariedade com o Irão, embora sem se envolverem diretamente, como as já referidas China ou Rússia.

Uma guerra no seio dos BRICS

É verdade que esta guerra criou tensões no seio da Aliança Atlântica, no entanto, os BRICS não se saíram melhor. É verdade que os BRICS não são uma aliança formal de defesa mútua, não existe um artigo 5. Mas convém recordar isso, e que esta é mesmo a primeira guerra entre Estados dos BRICS. Com o seu alargamento dos BRICS Mais passaram a fazer parte o Irão, mas também os Emiratos (a Arábia Saudita foi convidada mas ainda não aderiu formalmente). Será que nomeadamente a China ou até o Brasil ou o Egito irá tentar nalgum momento jogar a cartada da “mediação BRICS”? Teremos de ver. Quem aparece a desempenhar, sobretudo, esse papel, para já, é o Paquistão, vizinho do Irão e que representa os seus interesses diplomáticos nos EUA. Veremos se, por exemplo, Riade conclui deste conflito que precisa de mais BRICS ou menos.

Em suma, lamento, mas não teremos outro remédio se não ir acompanhando as declarações, para todos os gostos, e, sobretudo, as decisões de Trump, bem como a reação do regime iraniano e do governo de Israel. Neste momento ter certezas sobre a escalada e o prolongar do conflito ou sobre o seu rápido fim é impossível com o mínimo de rigor. Até porque não há uma clara visão, prioridades estratégias claras dos EUA neste conflito. Do ponto de vista de Trump esta indefinição tem a vantagem de lhe permitir a qualquer momento declarar vitória. O que podemos dar como certo é a transformação dos EUA de pilar da ordem global num dos principais fatores de incerteza e instabilidade na política global.

Continua após a publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
27ºC
Máxima
27ºC
Mínima
21ºC
HOJE
28/03 - Sáb
Amanhecer
05:47 am
Anoitecer
05:45 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
3.09 km/h

Média
24ºC
Máxima
26ºC
Mínima
22ºC
AMANHÃ
29/03 - Dom
Amanhecer
05:47 am
Anoitecer
05:44 pm
Chuva
0.94mm
Velocidade do Vento
4.91 km/h

Parem de nos Matar: O Grito Necessário Contra a Endemia do...

Cristiane Martins

Leia também