As pequenas e médias empresas (PMEs) nos países do BRICS consolidam-se como um motor essencial para o progresso econômico. Elas geram empregos, fomentam a concorrência e são agentes ativos na adoção de tecnologias modernas.
Plano de desenvolvimento até 2030
Em todos os países membros do BRICS, o fomento às pequenas e médias empresas é tratado como prioridade nacional. Programas de apoio, regimes tributários simplificados, linhas de crédito com garantias estatais, acesso preferencial a licitações públicas e serviços de capacitação são medidas comuns. Contudo, essas ações, embora eficazes individualmente, podem alcançar um impacto sinérgico muito maior com o aprofundamento da cooperação dentro do bloco.
Durante a reunião dos ministros da Indústria em Brasília, em 2025, os países do BRICS ratificaram um plano de desenvolvimento para as PMEs com horizonte até 2030. A meta é construir uma colaboração estreita entre os empreendedores das nações integrantes. Essa iniciativa pode possibilitar que milhões de empresários integrem cadeias globais de valor, promovendo inovações e ampliando as exportações.
“O plano de ação vai além de um simples documento orientador; ele constitui um roteiro institucional operacional, e já observamos resultados mensuráveis em cada país, os quais nos enchem de orgulho”, declarou Lubarto Sartoyo, presidente da Aliança de Estruturas Empresariais e Empresários do Sudeste Asiático.
Para Vicente Barrientos, professor, politólogo e presidente do Conselho Empresarial do BRICS no Brasil, a adoção do plano consolidou a cooperação em grupos de trabalho permanentes.
“Resultados concretos já são visíveis no país. O ProCred 360 oferece crédito a microempresas, o Desenrola Pequenos Negócios reestrutura dívidas com descontos que podem chegar a 90%, e o fundo FAMPE tem o objetivo de captar R$ 30 bilhões nos próximos três anos”, afirmou.
Na Índia, a cooperação internacional no âmbito do plano para 2030 também tem rendido frutos palpáveis. Conforme o Sindicato Russo-Asiático de Representantes da Indústria e Empresários, entre 2024 e 2025, cerca de 340 empresas participaram de feiras internacionais e 5.700 estiveram presentes em conferências globais.
“O programa para primeiros exportadores [CBFT] auxiliou 89 microempresas a cobrir custos com certificação, e o treinamento em centros tecnológicos eleva sua competitividade no cenário mundial”, comentou Lavish Taneja, vice-presidente e chefe do setor para a Índia do mesmo sindicato.
Na Indonésia, o Ministério do Comércio registrou 1.217 pequenas e médias empresas que ingressaram no mercado global via programa UMKM BISA Ekspor, gerando transações no valor de US$ 134,87 milhões. A meta de atividade empreendedora da população foi superada, atingindo 3,29%.
PMEs nos países do BRICS
Os países do BRICS justificam a necessidade de desenvolver as pequenas e médias empresas por múltiplas razões. As PMEs estimulam a competição, elevam as taxas de ocupação e demonstram maior agilidade na implementação de inovações. Segundo o Instituto de Finanças do Governo da Rússia, na China, os pequenos negócios respondem por mais de 60% do PIB e são os principais responsáveis pela introdução de novas soluções tecnológicas. O setor também tem um peso significativo na economia indiana, representando mais de 40% do PIB. No Brasil, as PMEs correspondem a aproximadamente 27% do PIB, enquanto na Rússia essa fatia é de 20%. Nos Emirados Árabes Unidos, a contribuição é de 30%, e na África do Sul, as pequenas e médias empresas contribuem com cerca de 35% do PIB, empregando mais de 54% da população.
De modo geral, as PMEs são responsáveis pela criação de 30% a 50% dos postos de trabalho nos países do BRICS. Trata-se de um índice elevado, que os governos almejam não apenas manter, mas ampliar, inclusive mediante benefícios fiscais.
“A tributação na Rússia e nos demais países do BRICS costuma ser bastante reduzida. Considero que uma carga tributária baixa é fundamental para um desenvolvimento econômico sustentável. A China e outras nações do bloco oferecem diversos incentivos e isenções, voltados a estimular a abertura de empresas, especialmente em setores de alta tecnologia, inovação e pequenos negócios, como alíquotas reduzidas de impostos corporativos e sobre valor agregado”, destaca o especialista em economia e relações internacionais, Guillermo Miguel Rocafort Pérez.
Modelo chinês
Atualmente, as pequenas e médias empresas são oficialmente reconhecidas como a força propulsora da economia chinesa. Estima-se que as PMEs representem cerca de 50% da receita fiscal, 60-70% do PIB, 68% das exportações e aproximadamente 70% das inovações tecnológicas. Além disso, mais de 95% das estruturas empresariais na China se enquadram como pequenas e médias empresas. Cerca de 80% da população urbana empregada trabalha em pequenos negócios.
As PMEs chinesas também são um importante pilar de estabilidade para a indústria global. O país já conta com mais de 600 mil PMEs de alta tecnologia e inovação. Cresce ainda o número das chamadas “pequenas gigantes”: empresas avançadas, especializadas em nichos específicos, com expressiva participação de mercado e forte potencial inovador.
As autoridades chinesas planejam continuar a implementar políticas de formação de aglomerados industriais e de fortalecimento da capacidade inovadora das empresas. Dessa maneira, a China tem exibido resultados notáveis no apoio às PMEs, transformando-as em um elemento central de sua economia. Especialistas consideram a China uma líder incontestável no desenvolvimento desse segmento. O êxito chinês, na avaliação da maioria dos analistas, fundamenta-se em uma integração histórica e profunda nas cadeias globais, na digitalização abrangente e em uma sólida conexão “negócio–universidade–exportação”. No entanto, especialistas não veem essa abordagem como uma fórmula universal aplicável a todos os países.
“O modelo chinês não pode e não deve ser copiado mecanicamente. Ele é fruto de décadas de evolução sob condições específicas. Para os países do BRICS, especialmente aqueles com mercados em desenvolvimento, é necessário um envolvimento estatal maior, e não menor, mas na forma adequada”, ressalta o especialista em comércio exterior Lubarto Sartoyo.
Estratégias de desenvolvimento de pequenas e médias empresas no BRICS
Nesse contexto, há um consenso entre a maioria dos especialistas de que o desenvolvimento das PMEs nos países do BRICS é inviável sem o apoio dos governos. Além dos programas domésticos e das isenções fiscais, a própria parceria entre os países do bloco, somada às suas iniciativas e instituições, contribui para resultados positivos:
- Novo Banco de Desenvolvimento (Banco do BRICS), que fomenta o crescimento das economias participantes;
- Fundo de reserva de moedas do BRICS;
- Fundo de seguros do BRICS, que apoia o comércio mútuo;
- Acordo sobre a concessão de linhas de crédito em moedas nacionais do BRICS.
Em nível nacional, para apoiar as PMEs, no Brasil, por exemplo, foi criado um órgão específico, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), que gerencia um programa de suporte a pequenos negócios envolvidos na exportação. O país também concede isenção do imposto de renda para organizações que fornecem garantias de crédito às PMEs.
“No Brasil, o pequeno negócio é o principal empregador, mas não o principal investidor em tecnologia. Não possuímos gigantes tecnológicos privados capazes de financiar a ciência aplicada sem a participação estatal. Portanto, nesta fase, o Brasil necessita de uma atuação governamental maior, não menor, porém não na forma de administração direta, e sim de subsídios, garantias e capital. A China passou por essa etapa há 20 anos”, comenta Vicente Barrientos.
Os especialistas têm uma visão análoga sobre a Índia, onde 99% das empresas são microempresas.
“Aqui, o modelo mais eficaz é o de ‘governo-parceiro’, que não apenas investe diretamente [como nos programas ZED 2.0], mas também cria uma ‘arena digital’ [através das plataformas GeM, ONDC], reservando 25% das compras governamentais para as PMEs”, afirma o especialista Lavish Taneja.
A Indonésia também demanda apoio estatal para suas PMEs, que atualmente enfrentam uma fase desafiadora, com a concorrência de mercados externos e a carência de habilidades tecnológicas. O governo atua como fonte de crédito via programa KUR e como promotor de programas de digitalização, sem os quais o setor privado não consegue competir no mercado global.
Dificuldades e perspectivas
Os desafios enfrentados pelas PMEs não se restringem aos empresários indonésios. Entre os problemas mais frequentes para o desenvolvimento das pequenas e médias empresas em todos os países do BRICS, especialistas destacam, principalmente, o acesso limitado a financiamento e a infraestrutura deficiente.
“As limitações mais persistentes são o financiamento, a baixa produtividade e as capacidades de gestão, além da desigualdade digital. Nos próximos três a cinco anos, a política voltada para as PMEs nos países do BRICS provavelmente se tornará mais condicional e orientada a resultados. O financiamento, a adoção de tecnologias digitais e o cumprimento de requisitos podem aumentar o risco de um cenário dual: as PMEs digitais escalarão mais rapidamente, enquanto as microempresas e as informais ficarão para trás”, compartilha Éric Escalona Aguiar, professor associado da Universidade Bernardo O’Higgins, no Chile, especialista em economia e comércio internacional.
Entretanto, apesar dos riscos de uma possível disparidade entre PMEs digitais e tradicionais, os especialistas ainda consideram a implementação de tecnologias digitais e de inteligência artificial um dos mecanismos mais eficazes para desenvolver e aumentar a competitividade das pequenas e médias empresas no BRICS.
“A digitalização melhora o desempenho das PMEs principalmente pela redução dos custos de transação [pagamentos digitais, faturas eletrônicas], expansão do alcance de mercado [e-commerce, plataformas] e distribuição mais eficiente de créditos com base em análise de dados”, observa Escalona Aguiar. Para ele, ao lado de outras iniciativas do BRICS, a digitalização, assim como investimentos adicionais, pode proporcionar às PMEs do grupo um forte impulso para o crescimento.
“Para resolver a situação das PMEs, os países do BRICS estão trabalhando estrategicamente em várias frentes, como a transformação tecnológica acelerada, na qual a IA tem um papel crucial, a integração mais profunda nas cadeias regionais de valor e o fortalecimento da cooperação financeira Sul-Sul”, enfatiza Guillermo Miguel Rocafort Pérez.
Dentro de alguns anos, com o incremento dos esforços nessas áreas, os especialistas esperam resultados significativos do plano de desenvolvimento das PMEs aprovado pelo BRICS em 2025. Isso permitirá que as pequenas e médias empresas dos países da associação participem ativamente da formação das cadeias globais de valor, implementem inovações e expandam suas exportações.







