1 de março de 2026
domingo, 1 de março de 2026

Brasil define posição sobre conflito entre EUA e aliado do Brics

Num polo está a maior potência econômica mundial; no oposto, uma nação associada aos Brics. A questão é que postura o Brasil adotará diante do conflito.

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Analistas indicam que o Brasil precisa agir com prudência após os recentes ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. A orientação se deve ao contexto: o governo brasileiro negocia tarifas com os norte-americanos enquanto considera o Irã um aliado no âmbito dos Brics, bloco de nações emergentes.

Apesar das negociações sobre o programa nuclear iraniano, os Estados Unidos conduziram uma operação militar contra alvos no Irã, com Israel também realizando ofensivas.

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Em resposta, o Irã lançou mísseis contra países vizinhos que abrigam instalações militares americanas. O governo iraniano afirma que seu programa nuclear tem fins exclusivamente civis.

EUA, Irã e a prudência do Brasil

Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, defende que a diplomacia brasileira busque uma “posição de equilíbrio” entre Irã e Estados Unidos.

Para ele, com o Irã agora integrando os Brics, o Brasil vive um momento delicado, no qual deve evitar se posicionar claramente contra qualquer um dos lados – especialmente diante das tratativas comerciais em curso com os EUA.

Há a possibilidade de um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump nos Estados Unidos no fim de março.

As negociações mencionadas referem-se às tarifas de importação impostas pelo governo Trump no ano anterior, que em alguns casos chegaram a 50% sobre produtos brasileiros.

Os Estados Unidos justificam o aumento como forma de proteger a economia doméstica, incentivando a produção local em vez das importações.

Desde então, os dois países buscam acordos para normalizar a parceria comercial, com alguns produtos já tendo sido retirados da lista de sobretaxas.

Em fevereiro, uma decisão da Suprema Corte americana anulou a medida de Trump, que respondeu impondo uma tarifa de 10% a vários países.

Williams Gonçalves, professor emérito de Relações Internacionais da Uerj, ressalta que a cautela do Brasil se explica por o país ser um dos fundadores dos Brics, bloco que hoje reúne onze membros e dez parceiros, identificados como parte do Sul Global.

Rússia e China, dois importantes apoiadores do Irã, também são membros fundadores do grupo, criado em 2006. O Irã tornou-se membro pleno em 2024.

O professor observa que o Brasil mantém relações sólidas com Rússia e China e uma relação com o Irã, estando todos esses países unidos nos Brics e comprometidos, ao menos em teoria, com a transformação da ordem internacional.

Ações dos EUA na Venezuela: um precedente?

Williams Gonçalves também menciona que a postura cautelosa do Brasil é influenciada pelas ações de Trump na Venezuela.

Ele cita a captura do presidente Nicolás Maduro como exemplo, afirmando que a posição brasileira tem sido de extrema prudência, evitando qualquer ação que possa ser vista como provocação.

Contudo, acredita que a evolução dos fatos pode exigir respostas mais firmes do Brasil, especialmente diante da intenção declarada dos EUA de promover uma mudança de regime no Irã.

Para Gonçalves, o Brasil, que historicamente defende a autodeterminação dos povos e o princípio da não ingerência, não pode apoiar governos que interfiram em outros Estados para alterar seu sistema político.

Impactos restritos para o Brasil

Leonardo Paz Neves, pesquisador da FGV, avalia que os efeitos do conflito no Oriente Médio sobre o Brasil devem ser limitados.

Ele classifica a reação oficial do governo como “protocolar”, restrita a uma crítica ao ataque.

Em sua visão, o envolvimento do presidente Lula e do Brasil no conflito será pequeno, dada a distância geográfica e a ausência de grandes interesses diretos na região – em contraste com as longas negociações comerciais em andamento com os Estados Unidos.

Sobre a possível visita de Lula aos EUA, o pesquisador espera que o país mantenha uma postura de “crítica institucional”, conclamando iranianos e americanos ao diálogo, mas sem se aprofundar para evitar perdas significativas.

Para ele, antagonizar Trump neste momento atrairia uma atenção negativa considerável para o Brasil.

Os principais efeitos econômicos em um cenário de escalada do conflito estariam ligados ao preço do petróleo, cuja alta geraria inflação ao afetar diversas cadeias produtivas.

Outra consequência atingiria o comércio exterior com o Irã, um importador relevante de produtos brasileiros como soja, milho e proteínas.

Dados do Ministério do Desenvolvimento mostram que o intercâmbio comercial entre os dois países atingiu US$ 3 bilhões, com superávit expressivo para o Brasil. O Irã foi o 31º maior destino das exportações brasileiras, tendo o milho como principal produto, seguido pela soja.

Neves alerta que uma escalada severa do conflito, com um possível cerco naval ao Irã, dificultaria o envio de exportações brasileiras, prejudicando setores que perderiam um comprador importante.

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