A geopolítica global está prestes a ganhar uma nova dimensão: o cosmos. Em uma declaração estratégica, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia anunciou oficialmente a intenção de criar um Conselho Espacial do BRICS. O objetivo é unir potências emergentes para consolidar projetos de exploração que, até agora, permaneciam sob o domínio de agências consolidadas, como a NASA, dos Estados Unidos, e a ESA, europeia. Assim como a transição mundial para veículos elétricos exige uma rede energética coordenada, essa nova fase da aventura espacial demanda uma colaboração técnica e financeira sem precedentes entre os países do bloco.
Proposta russa para conselho espacial visa desafiar supremacia ocidental
A iniciativa de Moscou é ambiciosa. O eixo central do conselho proposto seria a execução de projetos de grande escala, incluindo missões tripuladas e o desenvolvimento de uma estação orbital própria do BRICS. A Rússia argumenta que o conhecimento adquirido na Estação Espacial Internacional (ISS) — cuja desativação está prevista para os próximos anos — serviu como campo de testes para inovações que agora podem ser usadas de forma autônoma pelos membros do grupo.
Para o Brasil, a sugestão surge em um momento de reaquecimento do programa espacial, após os êxitos nos lançamentos de satélites em cooperação com a China. Participar do conselho permitiria ao país dividir custos e expertise em setores de alta tecnologia, fortalecendo a indústria aeroespacial local e abrindo oportunidades para que astronautas brasileiros integrem missões colaborativas.
A relevância econômica e política do BRICS
O bloco, que cresceu substancialmente nos últimos anos, inclui agora nações como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, além dos membros originais. Juntos, esses países concentram 45% da população mundial e 36% do PIB global. Esse peso financeiro é o impulso essencial para iniciativas que exigem investimentos de longo prazo, comparáveis aos estudos e ao desenvolvimento de baterias de alta eficiência para os carros elétricos atuais.
Na cúpula realizada no Rio de Janeiro no final de 2025, a proposta foi recebida com grande interesse. A ideia de um conselho unificado visa evitar a subordinação tecnológica às potências ocidentais e garantir que a exploração do espaço seja guiada por uma ordem multipolar. Além disso, a inclusão de nações associadas, como Vietnã e Nigéria, estende o alcance do projeto para mercados emergentes com rápido crescimento tecnológico.
Obstáculos na padronização e na questão de soberania
Apesar do ânimo positivo, o Conselho Espacial do BRICS enfrentará barreiras consideráveis. A compatibilidade entre os sistemas da agência espacial russa, Roscosmos, e da chinesa, CNSA, por exemplo, exige uma padronização técnica minuciosa. No entanto, a perspectiva de um cosmos compartilhado parece ser o caminho lógico para um bloco que pretende remodelar as instituições internacionais.
A aliança para dominar o espaço exterior não é apenas uma questão de status, mas de autonomia tecnológica. No futuro, a conexão de cada carro elétrico autônomo nas grandes cidades brasileiras pode depender de sinais de satélites gerenciados por essa nova aliança espacial — mostrando que as decisões tomadas hoje em Moscou e Brasília terão impacto direto no solo que pisamos.







