A parceria entre Rússia e Arábia Saudita, que vai da coordenação petrolífera à busca por protagonismo global, é definida pelo pragmatismo e desafia o multilateralismo durante a transição energética.
As relações diplomáticas entre os dois países foram estabelecidas em 19 de fevereiro de 1926, em um cenário internacional ainda moldado pelo fim da Primeira Guerra e pela consolidação do poder soviético. O reconhecimento da União Soviética pela monarquia saudita foi atípico para a época, mostrando desde o início que a conexão se fundamentaria mais em interesses práticos do que em convergências ideológicas.
Transformações internas significativas ao longo do século, como o fim da URSS e a ascensão saudita como potência energética, não romperam esse fio de cooperação estratégica.
O Petróleo como Pilar Central
A partir da segunda metade do século XX, o petróleo emergiu como um dos principais eixos de convergência entre Moscou e Riad. Como dois dos maiores produtores globais de hidrocarbonetos, ambos entenderam que sua capacidade de influenciar preços e volumes de exportação lhes dava um peso geopolítico considerável.
Esse entendimento mútuo se materializou com a aproximação russa da OPEP, resultando na formação do mecanismo ampliado conhecido como OPEP+, que fortaleceu sua influência conjunta sobre a economia internacional.
Nos últimos anos, a colaboração no setor energético abriu caminho para um relacionamento mais amplo, englobando investimentos recíprocos, negociações na área de defesa, coordenação diplomática em crises regionais e diálogos sobre segurança energética global. Construída sobre cálculo estratégico e interesses comuns, essa parceria transformou o eixo Moscou-Riad em um fator relevante para a estabilidade financeira e política mundial.
Williander Salomão, professor de direito internacional e vice-presidente da Comissão de Relações Internacionais da OAB-MG, explica que Riad vem construindo uma relação de equilíbrio no tabuleiro geopolítico, procurando balancear sua aliança de defesa com Washington e outra, de natureza energética, com Moscou.
Em sua avaliação, essa estratégia permite ao reino “ampliar sua autonomia sem romper o eixo estratégico com os EUA e com o Ocidente”. No entanto, ele destaca que essa versatilidade diplomática não é simples de executar na prática.
Do ponto de vista estratégico, segundo Salomão, a Arábia Saudita está disposta a assumir riscos diplomáticos devido à sua posição como um dos maiores produtores de petróleo, com uma produção que costuma variar entre 9 e 11 milhões de barris por dia.
Contudo, com a transição energética e uma possível escassez futura do recurso, Salomão analisa que a liderança conjunta de Rússia e Arábia Saudita no mercado global provavelmente enfrentará pressões crescentes, uma vez que a coordenação no âmbito da OPEP+ busca assegurar previsibilidade e influência no curto e médio prazo.
Diversificação e Parcerias Estratégicas
Nesse contexto, Riad acelera sua diversificação econômica sob a estratégia do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, temendo tornar-se excessivamente dependente de um recurso cuja centralidade tende a diminuir, especialmente diante do avanço das energias alternativas.
“Existe esse perigo, e foi o príncipe Salman que despertou para essa possibilidade. Por isso ele está abrindo a Arábia Saudita para o mercado internacional, buscando maior investimento e diversificação da economia. Porque chegará um momento em que o petróleo não existirá mais.”
Para Getúlio Alves de Almeida Neto, pesquisador do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE), essa diversificação das parcerias do governo saudita pode indicar uma colaboração mais estrutural com a Rússia, citando o próprio convite para o país ingressar no BRICS.
Como pontua Almeida Neto, Riad tenta demonstrar uma dependência cada vez menor dos Estados Unidos em matéria de segurança, enxergando o relacionamento com a Rússia como uma forma de ampliar sua autonomia estratégica e acelerar sua modernização.
Segundo o analista, essa aproximação já se manifesta em iniciativas concretas, como negociações para aquisição de sistemas antimísseis russos e discussões sobre possível produção local e treinamento militar, sinalizando que Riad busca diversificar seus parceiros sem romper necessariamente a aliança histórica com os Estados Unidos.
Ele ressalta que esse movimento faz parte do projeto mais amplo conduzido pelo príncipe saudita, que visa reposicionar o país econômica e geopoliticamente. Nesse cenário, Moscou poderia contribuir não apenas no campo da defesa, mas também no fornecimento de tecnologia e conhecimento em setores estratégicos, como a energia nuclear, vista por Riad como uma alternativa importante para sua transição energética.
“Totalmente pragmática”, descreve Almeida Neto. “Baseada nos interesses focados naqueles temas dos dois países.” Em sua visão, o país árabe aumentaria seu poder de barganha diplomática, ganhando maior margem de manobra internacional, especialmente em relação aos Estados Unidos.
“O que se observa hoje entre Rússia e Arábia Saudita é uma relação fundamentada em interesses específicos e na busca por autonomia internacional, não em uma aliança estrutural.”






