28 de fevereiro de 2026
sábado, 28 de fevereiro de 2026

Política externa brasileira e as críticas da imprensa

Durante o período colonial, era inconcebível estabelecer uma orientação para as relações internacionais. Esse cenário de desinteresse ideológico e fragilidade material persistiu no Império.

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O Estado recém-independente, apesar de sua soberania formal, confrontou a supremacia britânica, uma condição de subordinação com a qual a nação conviveria até a República. Esta última nasceu já sob a influência econômica, militar, política, estratégica e ideológica dos Estados Unidos, a nova potência preeminente que se consolidava como força hemisférica. O Brasil buscou então estreitar laços com esse país, elegendo-o como seu principal parceiro econômico e político.

Foi a época da “Doutrina Monroe”, do lema “América para os americanos” – uma referência a um continente supostamente ameaçado pelo colonialismo europeu em declínio. Foram os tempos da ideologia do “big stick”, que, de maneiras variadas e com as nuances do processo histórico, retornou ao cenário e chega aos nossos dias sob a alcunha de “trumpismo”.

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Joaquim Nabuco, embaixador em Washington entre 1905 e 1910, foi o primeiro a formular o americanismo brasileiro. Esta doutrina encontraria no Barão do Rio Branco, nosso mais celebrado chanceler (1902-1912), seu grande e eficaz executor. Paranhos consolidou a autonomia jurídica e diplomática do país, associando-a a um alinhamento político-estratégico com os EUA. Afirmou-se tanto como arquiteto quanto como executor de uma política externa que, para além de sua gestão, dominaria a Primeira República, com foco especial na definição de nossas fronteiras.

Do Pragmatismo à Doutrina

O americanismo deixou de ser uma teoria. Transformou-se em doutrina e em realidade, e seus ecos chegam até o presente.

A formulação original de Nabuco, que serviria de base para o americanismo, longe de representar uma escolha ideológica, deve ser compreendida principalmente como uma concessão ao pragmatismo político que inevitavelmente rege as decisões do estadista. Através de seus biógrafos, o autor de “Minha Formação” estaria, em sua avaliação, cedendo ao peso da realidade objetiva: o declínio europeu em contraste com a emergência dos EUA como potência que buscava a hegemonia regional, seu crescente peso no comércio de café e seu papel político-militar no hemisfério.

Para o grande tribuno da monarquia, se não era possível alterar os fatos nem confrontar a grande potência emergente, a única alternativa viável seria uma reconciliação: “Não podemos ficar fora da órbita do novo Império; é melhor estar no quintal do que na rua”.

O Quintal e seus Moradores

E neste quintal permanecemos, com alguns tentando sair dele e outros optando por nele ficar. Este último é o caso da família Mesquita, com quatrocentos anos de história, proprietária do Estadão, que mantém os pés e os corações, as mentes e as contas bancárias atreladas ao Brasil arcaico, o Brasil da plantation e do monopólio da terra, destinada a fornecer produtos primários demandados pela metrópole.

As primeiras tentativas de uma autonomia negociada, ou mesmo de um projeto nacional, só surgiram a partir de 1930, já sob a égide do getulismo, paralelamente à preeminência – econômica, militar, política e ideológica – dos EUA, que se aprofundou a partir da Segunda Guerra Mundial. Essa relação conheceria atritos crescentes nos anos 1950, principalmente durante o governo constitucional de Getúlio Vargas, até o desfecho conhecido.

O Surgimento de uma Política Independente

O discurso de uma política externa independente, propriamente dito, só ganhou relevância em 1961, na presidência de Jânio Quadros, por iniciativa própria, e seria inicialmente operacionalizado pelo então senador e ministro das Relações Exteriores, Afonso Arinos de Melo Franco. Trata-se, na essência, da primeira formulação explícita e doutrinária de autonomia no século XX. Encerrada a breve experiência janista de pouco mais de sete meses, a política externa independente foi retomada como projeto de Estado e reordenada como doutrina por San Tiago Dantas, já no governo de João Goulart (1961-1964).

A geopolítica, no curto período janista, estava condicionada pela Guerra Fria – com a qual a classe dominante brasileira e, consequentemente, a grande imprensa local estavam comprometidas. O governo perdeu o apoio de parte de sua base conservadora, como o lacerdismo e as correntes que se reuniam em torno do então ainda influente O Estado de S. Paulo.

A renúncia de Jânio Quadros e seus desdobramentos, assim como o governo e a deposição de João Goulart, são fatos históricos. Patrocinada pelo Estadão e por outros veículos da chamada grande imprensa da época, a tentativa de uma política externa independente foi derrubada. Foram os anos da ditadura militar, uma projeção, em território brasileiro, dos interesses norte-americanos na Guerra Fria.

Os Resmungos do Presente

Envelhecido e desgastado, o diário dos Mesquita ainda hoje resmunga contra qualquer tentativa de política externa independente, como se observa na leitura penosa de seu editorial mal elaborado do último 1º de fevereiro (“O mundo sob as regras do PT”), repleto de diatribes contra Celso Amorim, sem dúvida um dos mais importantes chanceleres brasileiros do século XXI, reconhecido como um dos mais destacados em todo o mundo. E isso, sem dúvida, não é por acaso.

O Brasil do atraso, do qual o Estadão é porta-voz inconteste e orgulhoso, não perdoa ao antigo chanceler a formulação – e, sobretudo, a execução – de uma política “altiva e ativa”. Amorim consolidou, sob a presidência de Lula, as formulações de Quadros, Afonso Arinos e San Tiago Dantas, que haviam sido arrasadas pela ditadura militar. O diário paulista – que agora ainda fala em democracia! – participou direta e ativamente da construção desse regime, inclusive como articulador financeiro, funções que Júlio Mesquita, o chefe do clã, desempenhou em conluio com Adhemar de Barros, aquele político paulista notório pelo infame slogan “rouba, mas faz”.

Embaixador do Brasil em Washington (1964-1967), o general Juracy Magalhães declararia, em nome do regime de 1º de abril, que “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Ao abdicar de qualquer dignidade, o país anunciava sua subordinação plena aos interesses de uma potência estrangeira. Renunciava, como nação e Estado, ao papel de sujeito, à fonte de sua própria legitimidade. Esse cenário de renúncia só seria interrompido a partir da redemocratização em 1988, mas a retomada da busca pela independência como política de Estado só se tornaria um intento concreto com a posse de Lula, em 2003, e a reativação, por seu governo, do projeto de política externa independente, dentro dos limites impostos pela geopolítica.

É a política “ativa e altiva” de Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e Marco Aurélio Garcia.

A Incompreensão da Direita

Apesar da história recente e dos rumos da política dos EUA – dos aumentos tarifários ao expansionismo bélico, no mundo e, especialmente, na América do Sul, seu quintal redivivo –, a direita brasileira, que se expressa nos editoriais do jornalão paulista (ainda um jornalão, apesar de sua visível decadência), queixa-se de nossa impertinência: essa teimosia de querer andar com os próprios pés e pensar com a própria cabeça, considerando os interesses do povo, da nação e do Estado.

Os Mesquita, com os pés na plantation e na cafeicultura, e suas dívidas penduradas na Faria Lima, são saudosistas da Guerra Fria. Reclamam nossa submissão incondicional aos interesses do império norte-americano, em guerra contra o mundo, e, nesses termos, não conseguem compreender que ainda defendamos o multilateralismo e uma ordem internacional baseada em regras que obrigam todos os Estados.

Para a direita brasileira, atrasada desde sempre, os princípios e as regras do direito internacional não valem por si só: dependem dos interesses de poder que expressam. O papel de sua imprensa é construir uma leitura falsa da realidade.

Desindustrialização e Especulação

Em matéria de primeira página, o Valor anunciou o déficit da balança comercial da indústria de transformação brasileira em 2025, alcançando US$ 71,1 bilhões, o maior saldo negativo desde o início da série histórica em 1971. Esses dados são indicadores claros:

  • Da desindustrialização brasileira, persistente há décadas.
  • Da reprimarização das nossas exportações.
  • De nossa maior vulnerabilidade em um cenário de extrema instabilidade da economia internacional, com óbvias consequências internas sobre emprego, renda, salários e desenvolvimento científico-tecnológico, aumentando nossa dependência.

Enquanto isso, do outro lado, os tambores rufam na Faria Lima. Nesse mesmo ano de 2025, marcado pelo desastre do desenvolvimento industrial, o lucro do Itaú-Unibanco atingiu R$ 46,8 bilhões, um recorde histórico entre bancos privados. Na mesma linha de lucros crescentes e sucessivos, o Bradesco registrou um montante líquido recorde de R$ 24,6 bilhões. O espanhol Santander vem em terceiro lugar, com R$ 15 bilhões. Essa pequena amostra reflete o quadro geral: o lucro do capital especulativo em contraste com a crise da produção industrial. Ou simplesmente o desdobramento desejado de uma política que acentua nosso papel de potência frustrada na periferia do capitalismo.

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Fabrício Costa

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