A maior movimentação militar norte-americana no Oriente Médio desde 2003 coloca o Irã diante de uma escolha de altíssimo risco. Com porta-aviões, caças modernos e reforços navais já posicionados, os Estados Unidos demonstram prontidão para agir, enquanto esforços diplomáticos tentam evitar uma escalada. O momento atual aponta para três desfechos possíveis: uma pressão militar contida, um conflito ampliado ou um acordo obtido por concessões.
Autoridades americanas avaliam a possibilidade de um ataque iminente, que poderia acontecer ainda neste final de semana. Paralelamente, o presidente Donald Trump sinalizou que dará um prazo de dez dias para que as conversas avancem.
As negociações ocorrem em Omã na tentativa de reduzir a tensão, mas o impasse permanece: até agora, o Irã não mostrou disposição para revisar seu programa nuclear, seus mísseis balísticos ou o apoio a grupos considerados terroristas na região. O panorama sugere que o tempo para a diplomacia está se esgotando e pode acabar completamente nos próximos dias.
O regime iraniano, por sua vez, desconfia dos prazos diplomáticos anunciados por Trump – e tem pelo menos um motivo sólido para isso. No ano passado, alvos iranianos foram bombardeados pelos Estados Unidos poucos dias depois de Trump declarar que daria duas semanas para o país fechar um acordo nuclear com os americanos.
Quais os cenários possíveis?
Uma das alternativas consideradas mais prováveis por especialistas militares é uma ação pontual dos Estados Unidos. Nesse caso, as forças americanas atingiriam alvos estratégicos do Irã, como instalações da Guarda Revolucionária e do regime.
Fontes próximas ao assunto informaram ao Wall Street Journal que, se o presidente optar por esse plano, o objetivo seria uma mobilização de menor escala para pressionar o adversário a aceitar suas condições para um pacto nuclear. De acordo com o jornal, seria um ataque militar focalizado, que não provocaria uma retaliação de grande porte.
Caso o Irã ainda assim se recuse a acatar as exigências de Trump, os EUA recorreriam a uma segunda opção: uma campanha abrangente contra estruturas do regime, com potencial para derrubar os aiatolás.
Uma avaliação do think tank Atlantic Council, especializado em relações internacionais, considera que essa alternativa exigiria uma operação militar bem coordenada, apoiada por aliados regionais, o que forçaria o regime a escolher entre obedecer às ordens de Trump ou enfrentar uma guerra direta com os EUA que ameaçaria sua própria sobrevivência.
Nesse contexto, cresce o risco de instabilidade tanto dentro do Irã quanto na região, com a possibilidade de surgirem facções armadas rivais ou mesmo uma guerra civil em larga escala.
Para o analista militar da reserva Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, a probabilidade de um ataque americano é bastante alta.
“Os recursos militares concentrados ao redor do Irã atingiram um patamar comparável apenas ao usado na invasão do Iraque, e isso tem um custo extremamente elevado. Não seria feito assim se não houvesse a intenção de agir militarmente”, observa ele.
Segundo Paulo Filho, um ataque se tornará mais provável com a chegada do segundo porta-aviões à região nos próximos dias. O USS Gerald Ford deve alcançar a costa de Israel na próxima segunda ou terça-feira.
A terceira possibilidade é que o Irã aceite um acordo diplomático nos termos impostos pelos EUA. À Newsweek, Mick Mulroy, ex-subsecretário adjunto de Defesa dos EUA para o Oriente Médio, afirmou que, nesse cenário, o país precisaria impor restrições cruciais a seu programa nuclear e de mísseis balísticos.
“Se eles [iranianos] rejeitarem esses termos, acredito que os EUA não apenas estão preparados para tomar medidas militares significativas contra instalações nucleares e locais de produção e lançamento de mísseis balísticos, como também estão prontos para fazê-lo de maneira sustentada, incluindo a resposta a quaisquer ações de escalada por parte do Irã”, declarou.
Apesar de o Irã negar a fabricação de armas nucleares e qualquer projeto para tal desenvolvimento, o regime islâmico detém o maior arsenal de mísseis e drones do Oriente Médio atualmente.
Paulo Filho ressalta que toda ação militar serve a um propósito político. “Ela será pontual ou mais ampla conforme esse objetivo. Se for, como no ano passado, apenas desferir um golpe para destruir determinadas capacidades militares, como baterias de mísseis balísticos, sem a intenção de mudar o regime, será um ataque pontual”.
Para o analista, há um fator complicador: a capacidade do Irã de retaliar de forma equivalente, ameaçando a integridade das tropas americanas, o que pode abrir caminho para um conflito mais extenso.
“Caso o Irã, ao ser atacado, consiga reagir e provocar baixas significativas entre os militares americanos, a situação pode evoluir para um cenário de confronto mais amplo”.
Qual é o destacamento militar dos EUA no Oriente Médio?
As forças armadas dos Estados Unidos reuniram uma das maiores concentrações de poder naval e aéreo no Oriente Médio em mais de dez anos, enquanto outros reforços se deslocam para a área em uma mobilização histórica.
Até o momento, dois grupos de ataque de porta-aviões atuam na região: o USS Abraham Lincoln, que opera no Mar Arábico e é apoiado por contratorpedeiros da classe Arleigh Burke, incluindo o USS Spruance, o USS Michael Murphy, o USS Frank E. Petersen Jr. e o USS Pinckney; e o Gerald Ford, o maior porta-aviões do mundo, que segue para o Oriente Médio.
Um reforço militar com duas embarcações de guerra de alto poder ofensivo indica uma formação de ataque raramente vista fora de grandes conflitos.
Apesar de o Departamento de Defesa dos EUA não ter divulgado o número de aeronaves mobilizadas para a eventual operação, a presença aérea na região cresceu drasticamente até esta semana.
Imagens de satélite registraram caças de ponta em bases regionais, incluindo os F-22 Raptor e os F-35 Lightning II.
Ao todo, mais de cinquenta caças avançados foram deslocados para bases estratégicas. Além dos porta-aviões, o Pentágono também mobilizou contratorpedeiros de mísseis guiados, submarinos e navios de apoio logístico.
Uma vez que as defesas aéreas estejam neutralizadas, os EUA têm condições de usar aeronaves como os F-15E Strike Eagles e os F/A-18 Super Hornets, baseados em porta-aviões, para executar ataques subsequentes contra a infraestrutura de mísseis, centros de comando e instalações da Guarda Revolucionária Islâmica.





