Há períodos que podem durar dias, semanas ou até anos em que não nos sentimos bem. É uma realidade. Seja por motivos físicos ou emocionais, devido a diversos fatores ou à falta de algo ou alguém, passamos por fases complicadas. Nessas horas, o cuidado de outra pessoa costuma trazer alívio: uma palavra amiga, uma refeição, um gesto de compreensão ou simplesmente companhia. Mas por que é tão comum sentirmos um certo desconforto ao receber esse cuidado?
A revista Vida Simples já explorou várias vezes formas de enfrentar a solidão, a importância de estar consigo mesmo e os benefícios dessa experiência. Contudo, numa sociedade acelerada e cada vez mais focada no indivíduo, também é preciso discutir como pode ser positivo não estar sozinho em certas situações.
Quando desejamos ou precisamos da presença de outro, uma variedade de emoções pode surgir, da saudade da infância à frustração por não dar conta de tudo sozinho.
Segundo a psicanalista Roberta D’Albuquerque, o primeiro passo é identificar e admitir para nós mesmos o que estamos sentindo. “Antes mesmo de pensar no outro, pode ser difícil confessar a si próprio o que se experimenta. Dar um nome ao que se sente. Se não estou bem, não estou bem – por quê?”
O que acontece?
Ela explica que nem sempre é fácil discernir qual sentimento nos invade: “É tristeza, raiva, angústia, desespero? A tarefa de elaborar o sentimento, de traduzi-lo em palavras, pode ser assustadora. É como se, ao fazê-lo, nos aproximássemos de uma concretização da própria emoção. Quando o pedido de ajuda é dirigido a outra pessoa – ou seja, expresso em voz alta e ouvido por nós mesmos –, ele se torna excessivamente real.”
Para muitos, abordar o tema do cuidado está diretamente ligado à ideia de perder a independência. Também pode remeter tanto à infância – fase anterior à conquista dessa autonomia – quanto à velhice, quando a necessidade de ajuda nas atividades diárias costuma aumentar.
De acordo com a analista, a resistência em aceitar o cuidado pode ser vista como uma forma de autoproteção:
“Aceitar o cuidado, o auxílio do outro, é aceitar também a própria carência, não é? Adoramos fingir (para nós mesmos inclusive) que temos controle absoluto sobre a vida. Mas controle total é pura invenção.”
Do ponto de vista da psicanálise, esse mal-estar também pode estar ligado à falta de cuidado em fases anteriores da vida, especialmente na primeira infância, quando ainda não formamos nossa individualidade e dependemos mais da atenção alheia.
“Uma criança que ainda não fala, ou que está aprendendo a elaborar o que sente, precisa do outro para construir recursos e desenvolver seus próprios instrumentos para interpretar o mundo. Quando esse outro não está presente, não escuta, o impacto na desconfiança é imenso, e ela segue pela vida com uma caixa de ferramentas incompleta”, explica Roberta.
Todos precisam de alguém
Para lidar com essa questão, ajuda enxergá-la como algo comum a todos. Somos todos frágeis; em algum momento, todo mundo precisa do outro – todos precisamos de cuidado. Inclusive quem cuida.
“Gosto de lembrar aos pacientes que chegam ao consultório com a impressão de que só eles vieram ao mundo sem manual de instruções: esse manual não existe. Ponto. Ninguém recebeu um ao sair da maternidade. Alguns fingem melhor, outros se angustiam menos, mas saber, de fato, de onde viemos e para onde vamos, ninguém sabe. Vamos descobrindo no caminho. Isso facilita a noção de que é possível parar e pedir orientação: ‘ei, meu caro, vem cá, como é mesmo que se faz para sair desse buraco, você me ajuda?’.”
Compreender a si mesmo é fundamental para se permitir receber ajuda – assim como identificar em quem se pode confiar para oferecer cuidado.
“Quanto mais nos conhecemos, mais sabemos o que pedir ao outro. E depois, tão crucial quanto, vem a prática de nutrir nossas redes de apoio: quem são as pessoas em que eu confio? Quão disposto estou a ouvi-las? Mas ouvir de verdade, tanto para receber ajuda quanto para oferecê-la”, conclui Roberta.







