A Câmara Setorial Temática de Atenção Psicossocial realizou sua primeira reunião ordinária de 2026 na Assembleia Legislativa de Mato Grosso para debater a saúde mental de crianças e adolescentes no estado. Convocado pelo deputado Carlos Avallone, o encontro reuniu profissionais e gestores que destacaram a necessidade urgente de expandir a rede de cuidados, agilizar a abertura de novos CAPS e consolidar a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
O parlamentar Carlos Avallone observou que, embora a atuação da CST nos últimos três anos e meio tenha gerado avanços maiores que os das três décadas anteriores, a ampliação das iniciativas na área da saúde mental continua sendo prioritária. Ele reconheceu, porém, que ainda há um longo caminho para sanar as carências históricas do setor.
Rede ampliada e acompanhamento contínuo
A psiquiatra infantil Luana Frick, que atua em Cuiabá, ressaltou a importância de expandir a rede de saúde mental para o público infantojuvenil, principalmente diante da ligação entre problemas psicológicos e contextos de vulnerabilidade social. Para ela, a criação de leitos é crucial para casos urgentes, mas o cuidado não pode se limitar à emergência.
A profissional defendeu o acompanhamento contínuo após a alta hospitalar e a importância de uma abordagem interdisciplinar, com reuniões periódicas da equipe e monitoramento atento do progresso dos pacientes. Ela mencionou que o tratamento envolve múltiplas frentes, como avaliação nutricional e estudos sobre dietas que possam favorecer o desenvolvimento cognitivo.
Luana detalhou que muitas crianças chegam aos serviços em estado crítico e, mesmo com a recuperação durante o tratamento, ainda enfrentam dificuldades para um encaminhamento adequado, especialmente quando as famílias não têm condições de recebê-las de volta. Atualmente, das 22 crianças internadas em sua unidade, 16 têm histórico de abuso, um dado que evidencia a necessidade de uma rede de proteção e monitoramento permanente.
Ela acrescentou que a maioria dos jovens internados na unidade privada chega por decisão judicial, muitas vezes após passagem por abrigos ou instituições socioeducativas. Esses pacientes, segundo Luana, já passaram por avaliações prévias e foram direcionados para tratamento especializado quando outras formas de apoio social e psicológico, inclusive nos CAPS, se mostraram insuficientes.
Obras paradas e superlotação
O promotor de Justiça Milton Mattos afirmou que a conclusão do CAPS III em Cuiabá é uma medida urgente para fortalecer a rede, já que as obras estão paradas desde novembro de 2023, mesmo com a destinação de aproximadamente R$ 6 milhões. Ele destacou que a capital não possui nenhuma unidade desse modelo, embora sua população precise de até quatro.
Mattos também citou a superlotação do Hospital Adauto Botelho e as dificuldades para conseguir vagas em residências terapêuticas, observando que muitos pacientes permanecem institucionalizados devido ao abandono familiar e à falta de opções de acolhimento. O problema, segundo ele, não se restringe a Cuiabá, atingindo também cidades como Sinop e Rondonópolis, o que exige maior articulação com as prefeituras para expandir a rede, com apoio do Ministério Público.
Recursos e expansão planejada
O deputado Carlos Avallone lembrou que, durante sua presidência na Comissão de Orçamento da ALMT, foi garantida a destinação de R$ 200 milhões para a saúde pública, com uma proposta de reservar R$ 12 milhões desse valor especificamente para o fortalecimento da RAPS no estado. O montante foi aprovado e integrado à ação orçamentária para ampliação da rede, devendo financiar projetos como a reforma do CAPS II, em fase final, e a instalação de novas unidades.
Entre as novas unidades planejadas estão cinco CAPS Infantojuvenis em municípios como Primavera do Leste, Cáceres, Lucas do Rio Verde e Sorriso, além de quatro CAPS I. Avallone explicou que mudanças recentes nas regras de financiamento aumentaram significativamente os repasses para custeio dessas unidades e para serviços como residências terapêuticas. No entanto, persistem desafios na habilitação perante o Ministério da Saúde e na garantia de recursos para estruturas já em funcionamento, como as seis residências terapêuticas de Cuiabá, que atualmente não recebem repasses.
Metas para 2026
Entre as metas da CST para 2026, Avallone destacou a criação de leitos de saúde mental no Hospital Geral de Cuiabá, que pode comportar até 30 vagas conforme parâmetros populacionais. Ele informou que também está em andamento a articulação para implantar 11 CAPS I em cidades que ainda não contam com esse serviço.
Outra prioridade, segundo o deputado, é acelerar a implementação de um CAPS III com atendimento ininterrupto em Cuiabá, além de estender a Rede de Atenção Psicossocial para ampliar a cobertura em municípios de pequeno porte, especialmente aqueles com população inferior a 15 mil habitantes.







