A situação é comum em muitas casas: um adolescente percebe uma sensação estranha, uma melancolia persistente ou uma inquietação constante e, antes de procurar alguém, busca respostas na internet. O problema é que, na enxurrada de vídeos rápidos e publicações virais sobre bem-estar psicológico, conceitos médicos perdem o rigor, supostos sinais viram moda e soluções milagrosas ganham popularidade.
As consequências? Pessoas que se autodiagnosticam com condições sérias sem uma avaliação adequada, atraso na busca por apoio especializado e a perpetuação de preconceitos que tanto custaram a superar.
Diante desse cenário, o Instituto Cactus e o Juntô Brasil — projeto nacional do Global Center para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes — uniram forças para alertar sobre um consumo mais cuidadoso das redes sociais. A ideia é clara e urgente: fazer da internet um espaço que apoie sem enganar, que eduque sem banalizar a dor.
Quando o conhecimento se torna perigoso
“Ao enfrentar momentos difíceis, muitos adolescentes buscam primeiro a internet”, observa Carolina Costa, gerente nacional do SNF Global Center no Brasil.
“Por isso, é fundamental estimular a compaixão, uma perspectiva positiva e o pensamento crítico, para que as ferramentas digitais ajudem — e não atrapalhem — o cuidado com o bem-estar emocional. Precisamos construir uma rede de apoio que aproveite as possibilidades da web, mas que também enfrente, com responsabilidade, os riscos da desinformação e da simplificação do sofrimento psicológico.”
Maria Fernanda Quartiero, fundadora e diretora-presidente do Instituto Cactus, complementa: “A rede está cheia de diferentes tipos de informação, mas também pode ser um lugar para criar e acessar conteúdos confiáveis.”
“O desafio está em mostrar alternativas de autocuidado e reforçar que, diante de problemas emocionais, buscar ajuda é um ato de coragem. Conteúdo de qualidade pode ser o primeiro passo nessa jornada.”
Diretrizes para uma experiência online mais segura
Diante dessa realidade, o Instituto Cactus e o Juntô divulgam recomendações simples que podem mudar a forma como interagimos com o que vemos na tela:
- Confira a fonte: prefira materiais de instituições respeitadas, profissionais de saúde qualificados ou grupos especializados. Um “influenciador digital” não é um terapeuta;
- Desconfie de conclusões rápidas: conteúdos que “definem” transtornos com base em poucos traços costumam simplificar problemas complexos. A experiência humana não cabe em um vídeo de segundos;
- Fique atento a promessas irreais: questões emocionais não se resolvem com fórmulas prontas ou respostas imediatas. Desconfie de quem oferece resultados definitivos em pílulas ou em uma semana;
- Observe as referências: materiais sérios costumam citar pesquisas, especialistas ou canais oficiais de ajuda. A falta de fontes é um sinal de alerta;
- Evite avaliações automáticas: um diagnóstico real é feito por um profissional, em uma consulta presencial com conversa de verdade — não por um sistema automatizado;
- Busque apoio além do digital: o conteúdo online pode ser útil, mas não substitui o acompanhamento com um profissional ou uma rede de apoio pessoal. A tecnologia conecta, mas é no contato humano que nos sentimos acolhidos.
Aprendendo juntos sobre bem-estar
A iniciativa faz parte da campanha “Você já sentiu isso?”, uma série de vídeos educativos sobre saúde mental voltada para adolescentes e jovens, desenvolvida pelo Instituto Cactus em parceria com o Juntô. O trabalho aborda temas importantes do universo emocional da juventude sem usar rótulos precipitados, incentivando a busca por canais seguros e ajuda qualificada.
O objetivo é claro: transformar o ambiente digital em um lugar mais acolhedor, sério e solidário. Onde o conhecimento de qualidade não seja exceção, mas regra. Onde o sofrimento encontre um ouvido de verdade — e não apenas mais uma interação virtual.
No fim das contas, o conhecimento que realmente ajuda é aquele que chega sem pressa, mostra suas bases e, acima de tudo, nos lembra que não estamos sozinhos no caminho.






