A respiração consciente ajuda a retomar o controle

Num mundo que acelera sem nos dar tempo de acompanhar, a respiração segue sendo a única porta de entrada para o sistema nervoso que podemos abrir a qualquer momento. O problema é que muitas vezes vivemos como se ela não existisse – até a ansiedade apertar, o sono sumir ou o corpo pedir socorro.

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Para Felipe Marx, docente de pós-graduação em neurociência da respiração, essa ferramenta negligenciada é justamente o que pode nos levar de volta ao comando da nossa própria existência.

“A importância de respirar está no fato de ser a única função interna do organismo que você comanda por decisão consciente”, explicou em entrevista à reportagem da Vida Simples durante a Virada Zen.

“Não se controla o coração, os rins, a digestão ou o fígado. Mas, por meio do nervo frênico, controla-se o diafragma. Somos os únicos seres no planeta com controle absoluto sobre isso.”

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Respirar, ele ensina, vai além de simplesmente se manter vivo. Trata-se de tomar as rédeas. Para entender por que a respiração é tão crucial, é preciso conhecer o sistema nervoso autônomo – aquele “comandante” interno que decide, sem perguntar, se você está em modo de segurança ou de sobrevivência.

“Para ter saúde mental, é essencial ter um sistema nervoso autônomo em equilíbrio”, afirma Marx. E a respiração é o instrumento que nos permite acessar esse centro de comando.

Se piscar os olhos ou estalar os dedos regulasse o sistema nervoso, ele brinca, estaria dando palestras sobre isso. Mas não. É a respiração – esse movimento contínuo, silencioso, aparentemente banal – que detém a chave.

“É um superpoder para realizar neuroplasticidade e alterar os circuitos cerebrais. Numa cidade acelerada, é preciso desacelerar de dentro para fora, emitindo um comando fisiológico para o cérebro relaxar, sinalizando que você não está em modo de sobrevivência.”

O segredo? Diminuir o ritmo. Reduzir de 20 ou 25 respirações por minuto para cerca de 12 ou 15. Respirar pelo nariz. Enxergar o perigo – e escolher não fugir.

“Você informa ao cérebro que está tudo bem, que não há ameaça, como se não estivesse fugindo de um pitbull. A escolha é a chave.”

A chave foi encontrada no fundo do poço

A trajetória de Felipe Marx com a respiração não começou num congresso de neurociência. Começou no pior período da sua vida, entre crises de ansiedade e depressão, quando a mente parecia “um rádio que não se calava”.

Foi na casa de um amigo que o irmão dele, Guilherme, notou seu estado e deu um conselho direto: “você precisa meditar”.

“Achei impossível”, lembra. Mas o amigo insistiu com um desafio – não uma prática espiritual complexa, mas um exercício concreto, quase técnico: inspirar por cinco segundos, expirar por cinco, durante cinco minutos. Felipe topou. E algo mudou.

“Isso transformou minha perspectiva, regulando meu sistema nervoso. Desde 2013, não deixo de fazer isso diariamente. É o meu ‘remedinho’ gratuito e sem efeitos colaterais.”

A simplicidade do ato – cinco segundos para dentro, cinco para fora – foi suficiente para reiniciar um sistema nervoso em colapso. E continua sendo, anos depois, a âncora que mantém Felipe Marx presente.

Meditar sem esforço: a armadilha da tentativa

Se a respiração é tão simples, por que tanta gente desiste? Por que sentar para meditar se torna, para muitos, mais uma fonte de frustração?

Felipe aponta um erro comum: o ato de tentar. “O principal equívoco é ‘tentar’ meditar. Meditação não é uma ação, é um estado no qual você entra automaticamente se conseguir acalmar seu sistema nervoso.”

Sua proposta é quase subversiva: “medite sem tentar”. Em vez de buscar o estado meditativo como meta, apenas faça ciclos respiratórios. Inspire por cinco, expire por cinco, repita por cinco minutos. O resto – o silêncio, a presença, o tal estado meditativo – surge como consequência, não como objetivo.

“Você entrará naturalmente nesse estado sem nome a que chamam de meditação.”

A música como caminho para o silêncio

Contudo, contar mentalmente os segundos, para muitos, ainda é um obstáculo. A mente vagueia, o foco some, a prática vira mais uma obrigação. Foi para resolver isso que Felipe descobriu um aliado inesperado: a música.

Durante uma viagem ao México, conheceu um DJ e teve um insight simples e brilhante: e se a respiração dançasse no ritmo da música?

“Eu mesmo aprendi a usar programas de DJ para ver as batidas e sincronizar a respiração. Fiz isso para ‘hackear’ a meditação para mim mesmo, para alcançar esse estado de maneira mais fácil e frequente.” E o resultado foi notável.

“Com a música, percebi que 90% das pessoas conseguiam entrar no estado meditativo, algo que antes era raro.”

O ritmo musical dita a frequência respiratória por minuto, e o processo, que antes exigia esforço, torna-se fluido, prazeroso, quase dançante. Hoje, Felipe já conduziu mais de 150 sets artesanais de respiração – sessões onde o som e o ar se encontram para reconduzir as pessoas a si mesmas.

A mensagem final: pelo nariz, sempre que possível

Felipe Marx deixa um ensinamento que cabe no bolso e na rotina. Um lembrete para os dias comuns, quando a ansiedade aperta ou a correria consome.

“Se você quer ter autocontrole, comece pela única coisa automática no seu corpo que você pode escolher controlar.”

E uma recomendação simples, mas capaz de transformar a saúde de quem sofre com apneia, ronco, ansiedade ou pânico: respire pelo nariz.

“Durante o dia e a noite, a respiração precisa ser nasal, exclusivamente pelo nariz. Respirar pela boca deve ser apenas algo estratégico e específico. A respiração bucal desregula todo o sistema.”

Para se lembrar disso ao longo do dia, um truque simples: use alarmes. Não como inimigos da pausa, mas como lembretes de que, a qualquer momento, você pode retomar o controle.

A respiração, aquilo que fazemos 20 mil vezes por dia sem pensar, pode ser, se quisermos, o instrumento mais poderoso de autocuidado. Não exige vela, posição de lótus ou silêncio total. Exige apenas escolha. E, como lembra Felipe, escolha é justamente a chave.

Entre um compromisso e outro, entre uma tela e a próxima, entre o barulho da cidade e o silêncio que esquecemos em casa, há sempre uma pausa possível. Ela cabe em cinco segundos. Cabe numa respiração. Cabe em você.

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