“Através do sonho seguimos, emocionados e silenciosos. Alcançamos? Não alcançamos? Haja ou não resultados, pelo sonho é que seguimos”, registrou o poeta português Sebastião da Gama. Em sua poesia, ele celebra uma característica irrefutável do ato de sonhar: seu poder de impulso. Os sonhos despertam o ânimo, a disposição para sair da cama, enfrentar o dia e construir a existência que um dia projetamos.
Essa conexão é tão significativa que o designer de interiores, terapeuta e escritor Fábio Galeazzo, participante do Clube de Leitura de Vida Simples em dezembro, relacionou a habilidade de sonhar com um estado de plena saúde.
“Saúde representa um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social, e não simplesmente a falta de enfermidade. Desse modo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) introduz o tema da espiritualidade no dia a dia. Considero que sonhar constitui a ligação com nossa faceta que foi, de alguma maneira, deixada de lado desde a Revolução Industrial”, explicou.
A reconciliação entre razão e alma
Na perspectiva de Galeazzo, a disseminação do capitalismo industrial a partir do século XIX trouxe como um de seus efeitos a predominância da lógica e da produtividade. “Nos transformamos em uma fábrica onde entra farinha e sai pão. É como se todos tivessem sido condicionados a percorrer a vida como se fosse uma esteira de produção industrial”.
De acordo com o especialista, o sonho funciona como um elo indispensável entre o ‘ter’, exigido pela razão, e o ‘ser’, associado à alma ou às forças psíquicas. Se essas duas extremidades ficam desconectadas, sem se unirem, torna-se difícil descobrir significado no agora e, a partir daí, avançar rumo ao futuro desejado.
Personalidade em contraste com essência
Um dos momentos centrais do diálogo foi a diferenciação apresentada pela psicossíntese (linha da psicologia que incorpora a dimensão espiritual e conecta o ser humano com os demais e com o universo) entre duas categorias de sonhos: os originados pela personalidade e os vinculados à essência. Como distingui-los? Como identificar se um sonho é autêntico ou produto de influências externas? Essa é a pergunta que muitos buscam esclarecer para readquirir a capacidade de sonhar com intenção.
“O sonho da nossa personalidade vem junto com aquela voz interna que comenta: ‘Ah, mas tal pessoa realizou isso; e se eu fizer aquilo? Se eu fizer, vou conseguir isso; ou, se fizer, vou perder aquilo’”. Essas interferências criam névoas que turvam a percepção do que genuinamente almejamos.
Por outro lado, ao nos sintonizarmos com os sonhos da nossa essência, experimentamos uma convicção íntima. “São questões que dialogam nitidamente com nossos princípios. Contudo, fomos ensinados a adiar tais sonhos”.
O terreno das possibilidades
Galeazzo, que estuda a relação das pessoas com seus ambientes, estabeleceu uma analogia entre o crescimento da criança e o lar, mencionando o psicanalista Donald Winnicott. Para ele, a casa é o cenário onde aprendemos a inventar o mundo. Em outras palavras, uma incubadora de sonhos.
“A conexão entre mãe e filho se transforma em um terreno de possibilidades. O campo da invenção, o campo dos sonhos. Passamos a exteriorizar tudo isso nas paredes do nosso lar. Assim, quando desejamos moldar os sonhos concebidos, podemos utilizá-la como uma metáfora de quem somos, um reflexo, e observar se estamos projetando a idealização desse sonho no nosso espaço e ao seu redor”, propõe o profissional.
Ele acrescentou que a transformação global – almejada por tantas pessoas ao redor do planeta – tem início no ambiente doméstico. “Quando afirmo que a mudança do mundo começa em casa, é porque a sustentabilidade real se inicia a partir de nossas decisões diárias”.
Retomando a capacidade de sonhar
Ao responder a uma pergunta de uma participante sobre como recuperar o hábito de sonhar depois dos 40 anos, Galeazzo recomendou atividades manuais e sensoriais para “desativar” a razão e estimular a criatividade, como restaurar móveis ou o contato com a natureza.
Ele relatou que perde a noção do tempo ao renovar móveis. Para alcançar o resultado esperado é necessário percorrer processos: limpar, lixar, pintar. Sem pular etapas. Subitamente, algo se modifica interiormente. “Há um instante em que a mente se desliga da razão e passa a produzir insights. É quando você se surpreende sonhando acordado”.
Galeazzo descreve o fenômeno: “Quando estou manipulando um objeto e refletindo sobre ele, o fluxo de energia atravessa o coração e isso ativa o tempo do sonhar”.
É por essa razão que ele valoriza práticas cotidianas que nos conduzem a um tempo alternativo, dissociado do relógio. “Rituais são as ações que realizamos no tempo presente, mas que nos ligam ao tempo da criatividade”. É nesse clima que as ideias encontram a liberdade necessária para que possamos sonhar novamente.
O sonho visto como ciclo
Se a linha de montagem industrial nos habituou a enxergar a vida como uma esteira automatizada – admitamos, pouco propícia para quem almeja voltar a sonhar –, Galeazzo oferece uma visão poética. Para ele, os sonhos não se alinham com as trajetórias retilíneas da produção, pois são, em sua natureza, ciclos de renovação, que se sucedem de forma circular.
“O sonho é um convite para que fertilizemos uma primavera em nossa vida. A todo momento ele é uma oportunidade que a vida nos oferece para que plantemos uma semente”.
Para quem deseja preparar o solo e deixá-lo apto para novos cultivos e colheitas ao longo de 2026, o profissional deixa uma recomendação de exercício reflexivo:
“O que eu possuo e realmente levarei comigo, tanto material quanto interiormente? O que eu tenho e talvez possa reformar e reelaborar? O que posso ressignificar para então me abrir ao novo? Assim, o novo chegará com significado”.







