18 de fevereiro de 2026
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pai como farol: a ausência da figura paterna

“Nossa, o Gabriel e a Thaís se tornaram pessoas tão instáveis emocionalmente, não é? Às vezes inseguros e pessimistas, outras vezes agressivos e ansiosos… E pensar que a mãe deles sempre se desdobrou para dar o melhor desde que o pai desapareceu.”

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A explicação para o que aflige Gabriel e Thaís pode estar justamente na frase que descreve o problema.

Esses irmãos, hoje adultos, fazem parte de uma estatística alarmante que certamente trará repercussões negativas por toda a sua trajetória. Eles estão entre as quase 12 milhões de pessoas no Brasil (conforme dados do IBGE) que integram a epidemia silenciosa do abandono paterno.

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São filhos e filhas que nunca vão conhecer a experiência de ter o pai ao lado nas fases iniciais e mais cruciais da vida, períodos em que a criança ou o adolescente está com seu “HD em formação” e mais precisa absorver lições – além de serem as épocas mais favoráveis para criar as recordações que, no futuro, trarão sorrisos espontâneos e força para enfrentar um dia difícil.

Na memória

As emoções geradas pela presença e constância de um pai são insubstituíveis. Como esquecer…

  • Daquela apresentação na escola tão aguardada, com o pai ao fundo e os olhos marejados;
  • Do carinho recebido no colo dele depois da primeira decepção amorosa;
  • Da primeira ida ao estádio, quando gritaram e se abraçaram no gol do time do coração;
  • De olhar para a primeira fila do balé e ver seu herói pessoal incentivando com um largo sorriso;
  • Das vezes em que o pai tomou a frente para oferecer conforto durante uma madrugada no pronto-socorro;
  • De quando ele se sentou para ouvir, sem julgamentos, como ninguém de fora fazia;
  • Das pessoas admirando ele e você durante a valsa dançada na sua festa de debutante;
  • Dos gritos que ele soltou quando anunciaram seu nome na formatura.

A equação é clara: quem não convive com o pai e, por isso, é naturalmente impedido de viver momentos como esses (e outros que veremos adiante), crescerá incompleto em diversos aspectos.

Quando se fala em presença paterna, não se trata de luxo, mas de uma necessidade absoluta – uma vez que se enfatiza o que é fundamental para o desenvolvimento saudável de qualquer indivíduo.

Os conhecidos de Gabriel e Thaís comentam que “eles já têm tudo”, garantido pelo empenho da mãe desde a infância, e portanto não haveria razão para o comportamento peculiar que ambos demonstram agora, na vida adulta.

Mas o que não sabem…

O vazio responsável pela conduta dos irmãos é interno e não tem relação com a comida no prato, com o brinquedo desejado, com o tênis da moda ou com qualquer outro bem material.

O que Gabriel carrega consigo é uma lacuna invisível que, aliada à estrutura do machismo, o força a lamber suas próprias feridas por não ter coragem de expor seus sentimentos e buscar ajuda para encontrar caminhos sobre como seguir em frente.

Já Thaís, até tentou desabafar com a mãe depois de ler um artigo sobre abandono parental – que não apenas descrevia sua sensação perante a vida, como também trazia respostas para muitas perguntas que ela fazia a si mesma há tempos. No entanto, foi desencorajada pela matriarca a não pensar mais no assunto, com o argumento de estar sendo “ingrata” por tudo o que ela sempre buscou fazer pela filha sem a ajuda da figura masculina.

Mas não se tratava da mãe, compreende?

Não era ingratidão, nem falta do colo materno quando necessário, e muito menos sobre ter tido privilégios desde criança. Sempre foi sobre a impossibilidade de estabelecer com o pai aquele vínculo sustentado pelo olhar de admiração e pelo abraço que transmitia “enquanto eu viver, você nunca estará sozinho”.

Para Thaís e outras mulheres abandonadas pelo pai, existe um agravante: há dificuldade em manter vínculos afetivos e relacionamentos duradouros e de confiança. Isto porque, uma mulher que cresce com a figura paterna presente e carinhosa, além de ter maior independência emocional, jamais aceitará de um parceiro menos do que recebeu de seu herói. E isso a tornará menos suscetível a relacionamentos tóxicos ou abusivos.

A paternidade tem uma função muito (ou nada) simples: servir como uma espécie de “farol” para os filhos, sendo a referência de que precisam para seguir, com passos mais seguros, o caminho dessa complexidade chamada ‘vida’.

“Sente-se aqui, meu amor… Neste primeiro momento, minha missão é ser esse holofote orientador para 50% das necessidades que clamam aí dentro de você (e fique tranquila que a mamãe cuidará da outra metade).

Meu papel, como seu pai, é orientar e estabelecer limites, ajudar na sua formação emocional, transmitir valores e conceitos éticos, lutar pela construção da sua autoestima, ser uma figura de referência em segurança e proteção, promover autonomia e estímulo à responsabilidade, além de ser o único homem a amá-la e apoiá-la incondicionalmente com o máximo de afeto ao meu alcance… Assim, depois, você terá os recursos para seguir corajosamente sem mim, combinado?”

Desafios e mais desafios

É possível atribuir todos os problemas emocionais enfrentados por Gabriel e Thaís à ausência do pai? De forma alguma. Sendo ou não parte de uma “família margarina”, a vida é desafiadora para todos.

Porém, a maneira como lidamos com os desafios cotidianos revela muito sobre o que vivenciamos durante nosso período de formação identitária, incluindo a sensação de desprezo por quem mais deveria nos amar.

Ainda que alguns sejam mais e outros menos afetados pela nocividade da rejeição paterna, todos, em certa medida, precisarão conviver com as sequelas de ter sido deixado à própria sorte, como insegurança, ansiedade, isolamento social e introversão exagerada, agressividade e pessimismo, além de baixo senso de pertencimento, autoestima abalada, desconhecimento da palavra “limite” (incluindo desrespeito aos pais e outras figuras de autoridade) e crenças limitantes do tipo “não posso, não mereço, não é para mim”.

Danos psicológicos, muitas vezes irreversíveis, que, em cadeia, podem levar a insônia, distúrbios alimentares, baixo rendimento escolar e dificuldades de aprendizagem, insegurança para estabelecer vínculos afetivos, síndromes do pânico e do impostor, depressão e/ou situações ainda mais graves.

‘Eu escolhi ficar!’

Não há grande mistério para alterar esse quadro. É necessário romper o ciclo do abandono.

Onde está a mudança?

Integralmente nas mãos das novas gerações de pais e de todos os homens que já têm ou planejam ter filhos.

Aliás, não apenas neles. Filhos abandonados, como Gabriel, precisam encontrar forças para ressignificar e agir de modo diferente do que fizeram com eles. São homens que compreendem como ninguém os prejuízos que o abandono paterno causa em seus dias.

Se não quiser que seu filho viva dores semelhantes, quebre o ciclo do machismo, do estrutural, do cultural…

E para tornar-se o pai que não se teve, será necessária uma dedicação em dobro e uma superação acima da média, pois como ser assertivo em algo sem qualquer referência do que é ser bom naquilo?

Para isso, o desejo de usufruir o impacto transformador que só a paternidade presente proporciona a um pai e de entregar ao mundo uma pessoa melhor do que se tem sido precisa estar acima de tudo.

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