10 de fevereiro de 2026
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Dicas para uma folia mais segura para crianças autistas

O Carnaval é um elemento fundamental da identidade cultural brasileira, espalhando alegria, danças, cores vibrantes e festas por todas as regiões. No entanto, a forma como cada pessoa vivencia a folia varia muito. Uma pesquisa chamada “Ainda somos o país do Carnaval?”, realizada pela MindMiners, mostra que 43% dos entrevistados costumam acompanhar os festejos de alguma maneira, enquanto 57% preferem não participar diretamente das atividades.

Continua após a publicidade

Entre os que participam, as formas são diversas: 35% assistem pela televisão ou por plataformas online, e 18% optam por viver a festa presencialmente, em blocos de rua, festas e desfiles. Para muitas famílias, especialmente aquelas com crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Carnaval também se torna uma oportunidade de encontrar experiências mais adequadas, inclusivas e prazerosas, que respeitem diferentes sensibilidades e estilos de participação.

Por outro lado, a celebração pode representar grandes desafios devido ao excesso de estímulos sensoriais, como barulhos altos, aglomerações e mudanças na rotina. “Isso acontece porque algumas crianças no espectro autista apresentam hipersensibilidade sensorial, uma característica do Transtorno do Processamento Sensorial (TPS), que afeta a maneira como o sistema nervoso recebe e interpreta estímulos sonoros, táteis, visuais e vestibulares. Dependendo do caso, a pessoa pode perceber os estímulos de forma ampliada ou precisar de uma quantidade maior deles para conseguir processá-los”, explica a terapeuta ocupacional e orientadora da Genial Care, Mariana Asseituno.

Continua após a publicidade

Apesar das dificuldades, é possível transformar o Carnaval numa experiência inclusiva e agradável para crianças autistas, seja em casa ou na rua. Com planejamento e estratégias adequadas, as famílias podem garantir que os pequenos curtam a folia com conforto e segurança.

Por que o Carnaval pode ser difícil para crianças autistas

Segundo Mariana Asseituno, a principal causa do desconforto nesse período é o volume de estímulos sensoriais. “Quando a criança tem essa condição, ela pode viver uma percepção intensificada dos estímulos ou necessitar de estímulos extras para sentir qualquer coisa. Por isso, multidões, barulho, luzes fortes, fantasias e muitos estímulos ao mesmo tempo podem gerar sobrecarga sensorial e uma experiência exaustiva”, complementa.

Outra dificuldade está na mudança de rotina, que pode afetar diretamente a dinâmica familiar durante o feriado e causar ansiedade. Assim, a previsibilidade é essencial para comunicar o que vai acontecer e ajudar a criança a entender esse momento do ano.

Envolvimento ativo e construção da autonomia

Para pensar num Carnaval mais acessível para crianças autistas, é importante considerar diferentes tipos de suporte: desde a organização do espaço até o preparo da criança para lidar com as variações do mundo externo. “Autonomia significa ensinar a criança a reconhecer seus próprios limites, comunicar incômodos e fazer escolhas sobre como e quando participar”, diz Mariana Asseituno.

Nesse sentido, o objetivo principal é ampliar o repertório da criança, permitindo que ela desenvolva, aos poucos, estratégias para regular suas reações sensoriais e emocionais. Essa visão é relevante porque muitos modelos tradicionais de cuidado no TEA focam em ambientes rigidamente controlados. Com o tempo, isso pode limitar experiências e reduzir oportunidades de aprendizado.

O progresso clínico está diretamente ligado à capacidade da criança de participar de situações cotidianas com mais independência, inclusive quando decide se afastar, pedir uma pausa ou mudar sua forma de envolvimento. Ao planejar a vivência carnavalesca, vale a pena refletir: as escolhas feitas estão aumentando os recursos da criança para se cuidar em diferentes contextos?

Como aproveitar o Carnaval em casa

Para muitas famílias, curtir o feriado em casa é a opção mais adequada, e isso não significa abrir mão da diversão. Criar um clima carnavalesco no lar pode ser mais tranquilo e igualmente especial para a criança.

A orientação é conversar antes sobre as mudanças na rotina e usar recursos visuais para explicar as atividades planejadas. “Um baile de Carnaval pode ser feito na sala ou no quintal, com iluminação suave, músicas escolhidas com cuidado e brincadeiras que considerem o interesse da criança”, sugere Mariana Asseituno.

Vale convidar pessoas próximas, estimular o uso de fantasias confortáveis e ajustar o espaço, reduzindo estímulos como sons altos, confetes ou acessórios que possam causar desconforto sensorial. Danças livres, fitas coloridas e instrumentos musicais simples também ajudam a tornar o momento divertido e prazeroso, sempre respeitando o ritmo da criança.

Carnaval na rua: cuidados para mais conforto e segurança

Se a decisão for participar da folia nas ruas, é fundamental se preparar para tornar a experiência mais tranquila. O Carnaval muda a rotina, e a animação dos blocos pode ser intensa, especialmente para quem tem maior sensibilidade a estímulos. A terapeuta ocupacional Mariana Asseituno compartilha alguns cuidados que podem garantir diversão com conforto e segurança:

  • Escolha blocos adequados ao perfil da criança
    Se há preferência por um ambiente mais calmo, procure blocos infantis ou matinês, que costumam ser menos cheios ou permitem se afastar da agitação quando necessário. Algumas cidades do país já oferecem eventos adaptados para crianças autistas.
  • Reduza o impacto do barulho
    Mesmo que a criança não demonstre irritação com sons altos, levar protetores auriculares pode ser uma boa ideia para evitar incômodos inesperados. É importante testar o acessório antes e garantir que a criança esteja acostumada com ele.
  • Priorize fantasias confortáveis
    Algumas crianças podem se sentir incomodadas com tecidos ásperos ou texturas diferentes. Experimente as fantasias com antecedência e, se preciso, opte por roupas macias e coloridas que ofereçam conforto. O essencial é respeitar as preferências da criança.
  • Evite acessórios que causem desconforto
    Máscaras, chapéus, óculos e tiaras podem gerar estranheza, tanto pelo estímulo visual quanto pelo contato físico. O ideal é apresentar o item antes e, caso a criança não se sinta confortável, simplesmente não usá-lo.
  • Explique com antecedência o que vai acontecer
    Criar um roteiro do evento, detalhando cada etapa da experiência com histórias sociais, pode ajudar a criança a se sentir mais segura e preparada.
  • Garanta acesso fácil a banheiros
    Necessidades fisiológicas podem causar estresse e crises comportamentais. Certifique-se de que há um banheiro por perto e fique atento aos sinais da criança.
  • Observe os sinais de sobrecarga
    Além da sensibilidade sensorial, fatores como cansaço, fome e sono também podem influenciar a vivência da criança. Se notar sinais de desconforto, priorize o bem-estar e evite prolongar a permanência no evento.
  • Simplifique a comunicação
    Se a criança usa Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), leve os instrumentos necessários para que ela possa expressar suas necessidades e emoções.

Com organização, atenção às necessidades sensoriais e adaptações pertinentes, é possível tornar a experiência mais confortável e agradável, seja em casa ou nos blocos de rua. Priorizar o bem-estar da criança, oferecer proteção e criar um ambiente previsível são passos cruciais para garantir uma folia inclusiva e especial. No final, a verdadeira celebração acontece quando cada criança pode participar do seu jeito, no seu ritmo e com total conforto.

Continua após a publicidade

Vitória, ES
Temp. Agora
25ºC
Máxima
27ºC
Mínima
23ºC
HOJE
10/02 - Ter
Amanhecer
05:30 am
Anoitecer
06:20 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
1.03 km/h

Média
26ºC
Máxima
29ºC
Mínima
23ºC
AMANHÃ
11/02 - Qua
Amanhecer
05:30 am
Anoitecer
06:20 pm
Chuva
0.5mm
Velocidade do Vento
7.35 km/h

Bairros que funcionam: por que misturar moradia, comércio e serviços é...

Marcos Paulo Bastos

Leia também