7 de fevereiro de 2026
sábado, 7 de fevereiro de 2026

Cartilha orienta educadores a abordar saúde mental com adolescentes

O Instituto Vita Alere disponibilizou o guia “Saúde Mental de Adolescentes para Educadores”. O documento gratuito prepara professores e gestores escolares para reconhecer sinais de angústia psicológica nos jovens e oferece orientações sobre como agir, destacando o papel crucial do ambiente escolar na prevenção e no encaminhamento adequado.

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Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), no Brasil, cerca de um em cada seis indivíduos entre 10 e 19 anos apresenta algum transtorno mental, como ansiedade, depressão, bipolaridade ou autismo (TEA).

Nessa mesma fase da vida, também crescem os registros de suicídio e automutilação. De acordo com um estudo da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a cada dez minutos um adolescente recebe atendimento em serviços de saúde por lesões autoinfligidas.

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Para identificar quem está em situação de vulnerabilidade, é essencial que a família e a escola mantenham-se atentas e abertas ao diálogo.

Com esse objetivo, o Instituto Vita Alere, organização reconhecida na prevenção ao suicídio, disponibilizou um guia digital para capacitar profissionais da educação a discutirem saúde mental em sala de aula e a abordarem estudantes que precisem de apoio.

O material, intitulado Saúde Mental de Adolescentes para Educadores, pode ser acessado gratuitamente no site do Mapa da Saúde Mental.

“A escola é um dos principais locais de convivência na vida dos adolescentes e pode ser um espaço privilegiado para identificar sinais de sofrimento e promover a saúde mental”, afirma Karen Scavacini, fundadora do instituto e doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP).

Identificando quem está em sofrimento

Nem sempre as pessoas expressam verbalmente sua tristeza ou sua necessidade de ajuda. Na adolescência, pode ser especialmente difícil nomear angústias e sentimentos. No entanto, com atenção e empatia, é possível perceber quem precisa de apoio psicológico.

Profissionais que atuam em escolas devem observar os seguintes comportamentos:

  • Mudanças súbitas de humor, irritabilidade ou indiferença;
  • Queda abrupta no desempenho escolar;
  • Faltas constantes ou abandono de atividades;
  • Afastamento dos colegas e desinteresse por interações sociais;
  • Alterações nos padrões de sono, alimentação ou higiene pessoal;
  • Menções a desespero, morte ou vontade de desaparecer.

Vale lembrar que não cabe ao educador fazer um diagnóstico a partir desses indícios, mas ele pode iniciar uma conversa para entender o que está acontecendo com o jovem.

“A intenção não é categorizar ou diagnosticar, mas sinalizar que algo pode não estar bem e que pode ser o momento de ouvir com atenção e acionar os suportes necessários antes que o sofrimento se agrave”, complementa a especialista.

Como acolher o aluno de forma adequada

O apoio de um inspetor, professor ou coordenador não substitui a intervenção de um profissional de saúde, como psicólogo ou psiquiatra. Ainda assim, os funcionários da escola têm um papel essencial na construção de um ambiente seguro e saudável para o desenvolvimento dos alunos.

Esse espaço é formado por ações como o combate contínuo ao bullying e a qualquer tipo de discriminação (racial, social, sexual ou de gênero), a valorização das perspectivas e emoções dos estudantes e o incentivo ao diálogo em sala de aula.

Conforme o guia, para acolher um estudante individualmente, o profissional deve seguir estas recomendações:

  1. Escolher um momento e um local tranquilos para a conversa.
  2. Dialogar com respeito, sem julgamentos e em privado.
  3. Usar perguntas abertas para obter mais informações.
  4. Ouvir mais do que falar.
  5. Evitar soluções imediatas ou simplificações dos problemas.
  6. Se necessário, informar a coordenação e fazer um registro.

O documento também ressalta certas limitações da atuação docente. O professor não deve fazer diagnósticos, não pode manter segredos quando há uma situação de risco e precisa buscar os setores responsáveis dentro da escola para providenciar o encaminhamento adequado.

Entrevista com a especialista

Qual foi a motivação para criar essa cartilha? Por que os educadores precisam se atentar aos comportamentos e aflições de seus alunos na adolescência?

Karen Scavacini: A escola é um dos principais espaços de convivência na vida dos adolescentes e pode ser um local privilegiado para perceber sinais de sofrimento e promover a saúde mental. Escutamos muitos professores que querem ajudar, mas não sabem como agir ou até onde podem ir. Há insegurança sobre limites, linguagem e encaminhamentos. A cartilha surge para responder a essa demanda concreta, valorizando o papel do educador, oferecendo critérios claros e caminhos possíveis, e fortalecendo uma atuação ética, segura e propositiva no cuidado cotidiano com adolescentes.

Os educadores, em geral, não têm treinamento em sua formação para tratar de saúde mental em sala de aula. Como isso pode mudar?

Isso pode mudar ao reconhecer que saúde mental não é um tema periférico, mas parte integrante do processo educativo. Evitar o assunto não faz o sofrimento desaparecer. Pelo contrário, o silêncio tende a aumentar a confusão dos educadores e faz com que oportunidades importantes de apoio sejam perdidas. Em vez de esperar que o professor atue como especialista, é fundamental investir em formação continuada que ofereça linguagem adequada, critérios para observar sinais, clareza sobre limites de atuação e protocolos de encaminhamento. Quando a escola assume a saúde mental como responsabilidade institucional, integrada ao projeto pedagógico e à gestão, o educador ganha segurança para agir, reduz o risco de omissão ou improviso e fortalece uma cultura de cuidado compartilhado.

A quais sinais os profissionais da educação devem ficar atentos em relação à saúde mental dos jovens?

Os sinais costumam aparecer no cotidiano e nem sempre se manifestam como pedidos diretos de ajuda. Mudanças persistentes de humor, irritabilidade ou apatia, isolamento progressivo, queda repentina no rendimento, faltas frequentes, alterações no sono, na alimentação ou no cuidado consigo, além de falas de desesperança ou desvalorização da própria vida, merecem atenção. A ideia não é rotular ou diagnosticar, mas alertar que algo pode não estar bem e que pode ser a hora de escutar com cuidado e acionar os apoios necessários antes que o sofrimento se intensifique. Não podemos agir somente quando casos graves ou tragédias acontecem.

Quando o professor identifica uma situação de risco, quais redes ele pode acionar para ajudar o aluno?

O primeiro passo é acionar a própria escola, envolvendo coordenação pedagógica, orientação educacional e gestão, para que a situação não fique concentrada em uma única pessoa. Em seguida, é importante dialogar com a família e articular com a rede pública de saúde, como UBS e CAPSi, além da assistência social. Ferramentas como o Mapa da Saúde Mental ajudam a localizar serviços públicos, gratuitos ou de baixo custo em todo o país, facilitando encaminhamentos mais ágeis e adequados. Em situações de violação de direitos ou risco grave, o Conselho Tutelar deve ser acionado. O cuidado é mais efetivo quando essas redes atuam de forma integrada e contínua.

Como vocês destacam no documento, o ambiente digital também pode ser prejudicial aos alunos. É necessário implementar aulas de educação midiática nas escolas?

Sim. O ambiente digital é parte estruturante da vida dos adolescentes, e ignorá-lo não diminui seus riscos. A educação midiática funciona como estratégia de proteção, não de controle. Ela ajuda os estudantes a entender como as plataformas operam, a reconhecer violências online, a cuidar da privacidade e a refletir sobre os impactos das telas no humor, no sono e na autoestima. Por isso, no Vita Alere, temos cartilhas e materiais específicos sobre uso de telas e saúde mental, bem como um centro de inovação e pesquisa dedicado à interface entre saúde mental, tecnologia e suicidologia, que produz evidências, orientações práticas e conteúdos acessíveis para apoiar escolas nessa implementação.

Você considera que, hoje, as redes sociais têm ferramentas suficientes para combater o cyberbullying e outros problemas?

Houve avanços, mas ainda há espaço para melhorias diante da complexidade dessas violências. Mecanismos de denúncia e moderação são necessários, porém não substituem políticas públicas consistentes e acesso a locais de atendimento especializados. É fundamental fortalecer serviços como UBS [Unidades Básicas de Saúde], CAPSi [Centros de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil], assistência social, além de iniciativas como o CVV [Centro de Valorização da Vida] e organizações especializadas em violência digital. A proteção efetiva exige articulação entre plataformas, políticas públicas adequadas, educação digital nas escolas e uma rede de cuidado, não limitada à família, capaz de acolher e acompanhar os adolescentes para além do ambiente online.

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