8 de fevereiro de 2026
domingo, 8 de fevereiro de 2026

Aprender a perder é necessário

Dominar a perda não é nenhum mistério;

Muitas coisas já trazem em si o acaso

de se perderem, então perder não é grave.

Perda um pouco todo dia. Aceite, sereno,

a chave esquecida, a hora desperdiçada.

Dominar a perda não é nenhum mistério.

Então pratique perder mais rápido, com mais critério:

lugares, nomes, o próximo destino

da viagem que não fiz. Nada disso importa.

Perdi o relógio de minha mãe. E nem quero

me lembrar de perder três casas adoráveis.

Dominar a perda não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império

que era meu, dois rios, e ainda um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada grave.

Elizabeth Bishop, reconhecida como uma das maiores poetisas do século XX em língua inglesa, produziu 101 poemas em sua trajetória, incluindo o comovente “A arte de perder”, apresentado acima. Em seus versos, ela explora um desapego raro: não teme a perda.

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Um termo que assusta muitos, mas inevitável para todos, “perder” continua sendo fonte de angústia em uma sociedade que frequentemente vincula o mérito apenas ao triunfo. Isso porque perder vai além da simples ideia de ficar em segundo lugar ou não ser premiado. A perda permeia a existência humana em suas dimensões material, profissional, afetiva e simbólica.

Fim de relacionamentos, projetos interrompidos, demissões, reprovações e problemas financeiros, por exemplo, integram o conjunto de perdas que as pessoas enfrentam. É uma experiência dolorosa, incômoda e, por vezes, embaraçosa, mas também inerente à vida – como Bishop ressalta nos versos “Muitas coisas já trazem em si o acaso/ de se perderem, então perder não é grave”.

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“Desde a infância, muitos aprendem que cometer erros indica incapacidade, e não uma oportunidade de crescimento. Isso gera a crença de que, se algo falhou, a falha está em ‘nós mesmos’, e não nas condições, no método ou nas situações envolvidas”, observa Felipe Sitta, psicólogo da Mental Clean.

Cada perda, contudo, possui um impacto emocional distinto, que varia de acordo com o significado atribuído à experiência, a fase da vida em que ocorre, o suporte recebido e a bagagem emocional de quem a vivencia. “Não se trata apenas do que foi perdido, mas do que aquela perda simboliza”, ele complementa.

“Perder causa sofrimento, mas não precisa determinar, endurecer ou finalizar a trajetória de uma pessoa.”

A arte de perder não é nenhum mistério

Felipe esclarece que toda perda provoca dor e, para superá-la, é essencial atravessar um processo de luto – que, em sua essência, é um trabalho de elaboração da ausência. “O luto não se refere apenas à morte de alguém, mas também a escolhas pessoais, aspirações e expectativas”, enfatiza.

Em vez de reprimir o mal-estar, é válido investigar os sentimentos despertados pela perda e abandonar noções ligadas à escolha impecável e ao desejo de alterar o passado. É útil refletir: por que não funcionou? Quais recursos eu tinha naquele momento? O que posso mudar a partir de agora?

“Não foi uma falha de caráter: foi um ato de sobrevivência, foram as circunstâncias, foram os recursos disponíveis naquela ocasião.”

Independentemente da natureza da perda, aprender a lidar com ela começa pela ressignificação: não se trata de uma falha catastrófica, mas de uma etapa do caminho. Esse reposicionamento, por si só, ajuda a transformar o efeito emocional gerado pela situação.

“Quando observo a perda e me questiono sobre o aprendizado obtido e a direção que desejo seguir, compreendo que o contratempo é parte da jornada e não o destino final”, explica o psicólogo.

Todo esse processo demanda tempo e uma mudança de atitude perante as vivências, por isso “é fundamental ter paciência e ser gentil consigo mesmo”. Não se force a enxergar a perda como algo benéfico ou tente cessar o sofrimento precipitadamente; pelo contrário, valide a dor. “Para que o luto se desenrole de maneira saudável, é necessário se permitir sentir as emoções e angústias inerentes a esse processo”, orienta Felipe.

Tenho saudade deles. Mas não é nada grave

Ele também ressalta que o ambiente e o círculo social influenciam diretamente no processo de dar novo significado às perdas. “Se estou inserido em um contexto que me pune, desmerece e enxerga a perda como algo totalmente negativo, provavelmente terei maior dificuldade em aprender com ela.”

Por outro lado, ao estar próximo de pessoas que oferecem suporte, promovem reflexão e demonstram compaixão, o sistema emocional compreende que perder não equivale a rejeição ou desvalorização, sendo apenas uma fase passageira.

“Cerque-se de indivíduos que o apoiem nesses momentos, mas, sobretudo, cultive a habilidade de acolher a si mesmo. Muitas vezes, é necessário o auxílio de um profissional para facilitar esse caminho”, destaca o especialista.

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