A complexidade em reconhecer situações de violência que afetam crianças e adolescentes — sobretudo aquelas que se originam no seio familiar — é o foco principal de uma nova ação da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales). Intitulado Guardiões da Infância, o programa, cujo lançamento está marcado para 16 de abril, às 9 horas, apresenta-se como uma reação a uma questão frequentemente invisível e com registros abaixo da realidade.
Concebido pelo psicólogo forense Rafael Monteiro, a iniciativa se baseia em uma percepção alarmante: a maior parte das agressões contra o público infantil ocorre dentro de casa e, com frequência, permanece desconhecida pelas instituições responsáveis.
“Geralmente, a própria criança não faz a denúncia. Ela manifesta indícios através de sua conduta. A dificuldade reside no fato de que esses sinais continuam sendo ignorados, muitas vezes pela ausência de treinamento adequado dos profissionais que estão na primeira linha de contato”, esclarece Monteiro.
De acordo com o especialista, a negligência emocional, um fenômeno cada vez mais comum, é outro elemento que intensifica a vulnerabilidade. “Enfrentamos uma situação na qual muitas crianças têm companhia física, mas carecem de amparo emocional. Esse contexto eleva consideravelmente o perigo de elas serem submetidas a diversas modalidades de violência”, destaca.
Deficiências no reconhecimento e na ação
Estatísticas de abrangência nacional apontam para uma elevação nas comunicações de violência contra menores, porém analistas advertem que a cifra efetiva pode ser substancialmente mais alta em razão da subnotificação.
É nesse panorama que o programa busca atuar, precisamente junto aos atores fundamentais do sistema: educadores, trabalhadores da saúde, da assistência social e conselheiros tutelares — frequentemente os primeiros a notar alterações no comportamento das vítimas.
Para o presidente da Assembleia, deputado Marcelo Santos (União), robustecer essa rede é crucial para impedir a escalada dos casos.
“A rede de proteção opera de maneira eficaz somente quando aqueles que estão na base possuem qualificação, suporte e segurança para intervir. Professores, profissionais de saúde, de assistência social e conselheiros são os primeiros a identificar quando algo está errado. Pretendemos nos articular com esses agentes, oferecer auxílio e assegurar que ninguém aja isoladamente. A meta é clara: aprimorar a intervenção antes que a situação se agrave”, ressalta.
Formação e trabalho em conjunto
O programa Guardiões da Infância visa oferecer capacitação prática à rede municipal, habilitando-a para detectar indicadores iniciais de abuso, executar os procedimentos adequados de encaminhamento e consolidar uma atuação coordenada entre as diversas esferas envolvidas.
A ação será implementada com o respaldo da Casa dos Municípios da Assembleia e deve congregar administradores públicos, integrantes da rede de proteção e representantes da sociedade civil.
A previsão é de que o projeto se estenda a cidades de todo o estado do Espírito Santo, aumentando a capacidade de reação do setor público e fomentando uma cultura de vigilância e cuidado ativo com a infância.







