Cras Alaides dos Anjos organiza debate sobre combate à violência contra a mulher
A expressão “em briga de marido e mulher não se mete a colher” precisa ser revista. A violência doméstica, que pode ser psicológica, emocional ou econômica, muitas vezes não deixa marcas visíveis. Essa característica dificulta que as vítimas identifiquem o abuso, encontrem motivos para romper o ciclo ou até mesmo apoiem outras mulheres a saírem de relacionamentos abusivos.
Essa complexa realidade ficou evidente durante um encontro sobre os Direitos da Mulher, realizado pelo Centro de Referência de Assistência Social (Cras) Alaides dos Anjos, no Território Santa Martha, em parceria com o grupo Margaridas.
Um exemplo foi o semblante de uma jovem de 27 anos, identificada como D. S. B., mãe de três filhos, ao final do evento. Convidada a compartilhar sua impressão sobre a atividade, sua expressão facial se transformou aos poucos, deixando a curiosidade no ar: o que uma pergunta aparentemente simples poderia causar tal reação?
“Eu detesto ser mulher. Repito isso todo dia, por causa das situações que somos obrigadas a viver e a ouvir. Meu companheiro me insulta muito. Ele diz coisas ofensivas na frente dos meus filhos, que sabem que aquelas palavras não devem ser ditas a ninguém e são proibidas em casa”, desabafou D.
Sensibilizada pelo ambiente acolhedor, ela contou que a experiência a fez refletir sobre sua própria vida e os desafios do dia a dia. “A gente sente pena e acaba aceitando o que não deveria. Tem hora que acho que estou ficando louca. Mas, depois de ouvir essa conversa, me sinto mais confiante e com mais força para agir”, acrescentou.
Perguntada sobre como ficou sabendo do evento, D. explicou que foi ao Cras para tirar dúvidas sobre o bloqueio de um benefício e recebeu o convite. “Quando saí de casa para vir pra cá, ouvi: ‘Vai lá perder tempo ouvindo um monte de bobagem’. As pessoas falam, mas pra mim foi extremamente valioso”, afirmou, agora com um semblante mais tranquilo.
Depoimentos reforçam a importância do diálogo
Do outro lado do círculo, Denise Andrade Quintão, de 46 anos, quis dar sua opinião sobre o encontro. “Agora me sinto valorizada por ser reconhecida pelo Cras. Percebi que tenho importância. A discussão me mostrou que tenho direitos como mulher. Não podemos permitir ser desrespeitadas por nenhum homem. Existem leis e amparo. Cada reunião no Cras é um aprendizado novo. Vim atrás de um auxílio e ganhei muito mais”, declarou.
Aos 83 anos, Geslene Bernardes da Silva também participou, acompanhada pelo Serviço de Atenção Domiciliar (SAD) que cuida de seu irmão. Ela contou que, após 25 anos de casamento, percebeu o marido ficando progressivamente agressivo. “Quando notei a mudança, me separei. A mulher tem que decidir ir embora no momento em que identifica a primeira agressão”, aconselhou Geslene. Comunicativa, a idosa disse que “todas precisam participar e ouvir essas orientações. É muito bom escutar discussões focadas em nós, mulheres”.
Coordenação enfatiza a urgência das ações
A coordenadora do Cras Santa Martha, Soraia Assis, ressaltou a necessidade urgente de iniciativas como essa para proteger as usuárias. “Não dá para ficar em silêncio diante de uma violência que não faz barulho. A agressão psicológica destrói a identidade da mulher antes mesmo de atingir seu corpo. Nossa equipe está sempre alerta. A roda de conversa não é só um encontro, mas uma ação coletiva e urgente para preservar vidas, encorajando-as a dizer ‘chega’ antes que seja tarde”, disse Soraia.
A gerente de Atenção à Família em exercício, Daniela Colatto, destacou que a orientação para todas as equipes dos 12 Cras de Vitória é ter um olhar atento para identificar as violências que silenciam as mulheres que buscam o serviço. “O feminicídio é um desfecho evitável de uma sequência de abusos psicológicos, patrimoniais e físicos. Por isso, trabalhamos constantemente na capacitação das nossas equipes para um atendimento humanizado e efetivo”, explicou Daniela.
A secretária de Assistência Social, Soraya Mannato, foi direta: “Prevenir o feminicídio é agir agora, oferecendo suporte técnico, garantias legais e, principalmente, dignidade para que essas mulheres retomem o controle das próprias histórias”, finalizou.







