A visão dos milhares de foliões que tomam a Beira‑Mar durante o Carnaval, com o cenário especial da Baía de Vitória, a brisa do oceano e toda a infraestrutura para o samba, faz esquecer que aquela região era apenas mar há pouco tempo. Moradores mais antigos ainda se lembram de quando as águas chegavam aos fundos do Theatro Glória, citando os cais atrás do Mercado da Capixaba e a praia que existia perto da antiga Capitania dos Portos, local hoje ocupado pela Casa Porto das Artes.
Recentemente, a Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, conhecida como Beira‑Mar, com seu traçado amplo e contínuo, transformou‑se no principal corredor da festa durante o Carnaval oficial. Já as avenidas Jerônimo Monteiro e Princesa Isabel, que também têm tradição em cortejos e desfiles, foram integradas ao esquema de tráfego da cidade.
Essas três importantes vias fazem parte da Esplanada Capixaba, o grande aterro que redefiniu a configuração do Centro de Vitória e concretizou o sonho de modernização acalentado desde o começo do século XX. Concluído em 1955, o trecho que vai da avenida Governador Bley até as proximidades do forte São João representou uma área de cerca de 96.000 metros quadrados, situada bem no coração da capital.
Plantas arquitetônicas, esboços, fotografias, jornais da época e outros registros oficiais, conservados no Arquivo Público Municipal, mostram o trabalho constante pela modernização de Vitória, realizado por meio de talentos, engenharia e planejamento urbano. E, uma vez por ano, quando os foliões ocupam toda a avenida ao ritmo dos blocos, a cidade dança sobre o espaço que ela mesma criou.
Projeto da Esplanada Capixaba com a linha do mar. 1934
Construção da atual Avenida Princesa Isabel. À direita, Mercado da Capixaba. Década de 1920
O plano de expansão e modernização de Vitória
Vitória se desenvolveu de maneira comprimida entre morros e marés. As áreas mais baixas alagavam com frequência, enquanto os morros limitavam a expansão do traçado urbano. Os aterros tornaram‑se o instrumento utilizado por sucessivos governos para saneamento, abertura de vias e ampliação do território. No fim do século XIX, pequenos aterros já eram realizados. A prática se intensificou no início do século XX, visando a expansão do porto e da economia, além de objetivos de saúde pública.
Nos anos 1920, Florentino Avidos avançou a linha de terra e construiu o Mercado da Capixaba, um marco físico que sinalizava o avanço da cidade sobre as águas. Fotografias antigas e plantas oficiais, preservadas no Arquivo Público Municipal, mostram quão irregular era a orla e como o projeto de Avidos almejava uma avenida costeira contínua, que mais tarde daria origem à atual Princesa Isabel.
O discurso modernizador ganhou ainda mais força na década de 1950, quando Jones dos Santos Neves anunciou, no Plano de Valorização Econômica, que Vitória precisava “conquistar novas áreas de crescimento”. O governo redesenhou o sistema de evolução do porto e criou uma grande área edificável contígua ao centro comercial. Nos relatórios de 1953 a 1955, Santos Neves descreve aproximadamente 96 mil m² tomados ao mar “em pleno coração da cidade”, com areia proveniente da drenagem do canal e do desmonte de morros vizinhos.
Assim nasceu a Esplanada Capixaba, com suas quadras amplas e planas. O projeto não se resumia à terraplanagem: era urbanismo. As quadras foram dimensionadas para serem maiores e mais regulares do que as do Centro antigo, bem alinhadas para garantir continuidade com a malha viária preexistente.
O desenho tem origem nas grandes referências internacionais do urbanismo do século XX, como Alfred Agache e Le Corbusier. O Código Municipal de 1954 (Lei 351/54) criou o Bairro Comercial Especial (BCE) da Enseada Capixaba, prevendo usos comerciais e administrativos e gabaritos de 8 a 12 pavimentos por quadra. O objetivo era complementar o porto e o Centro com uma vitrine de edifícios novos, calçadas largas e praças à beira da baía. Surgiram a rua Aristeu de Aguiar, a Praça Pio XII (originalmente um canteiro central alargado) e a Praça Getúlio Vargas.
Contudo, a ocupação não refletiu integralmente o desenho de 1954‑1955. Houve alterações na Praça Pio XII e em trechos viários, e a verticalização ultrapassou os primeiros gabaritos estabelecidos. Ainda assim, a Esplanada cumpre a ideia principal do projeto: um campo visual aberto, de uso misto, que conecta o Centro histórico à baía – exatamente a paisagem que, hoje, os foliões atravessam em bloco, trio e fantasia.

Antiga orla do Centro Histórico. Ao fundo, a antiga Capitania dos Portos. Década de 1940
No Centro da Capital, o Carnaval à beira‑mar
Por décadas, o Carnaval de rua em Vitória ocupou a Avenida Jerônimo Monteiro, com shows na Praça Oito, onde uma estrutura especial era montada para a festa. Após o período da pandemia de Covid‑19, o circuito de rua migrou para a Avenida Beira‑Mar e, desde 2023, vem ganhando mais espaço e estruturas aprimoradas.
Os idealizadores da Esplanada Capixaba não poderiam imaginar que aquele Bairro Comercial Especial (BCE) se tornaria a passarela do Carnaval de rua, concentrando milhares de foliões. Essa vocação para a Avenida Beira‑Mar foi descoberta por gestores do século XXI: uma via larga, linear, ventilada e com saídas de circulação bem evidentes. Ou seja, uma passarela “natural” que o urbanismo dos anos 1950 nos legou, quando decidiu tomar o mar para expandir o centro.

Obra de aterro para construção da Esplanada Capixaba. Década de 1940







