O Espírito Santo possui um rico universo lendário, que integra a memória cultural e afetiva dos capixabas. Essas narrativas, carregadas de mistério, emoção, conflitos e lições, passam de pais para filhos e ajudam a explicar as origens de locais, monumentos naturais e costumes do estado. Muitas dessas histórias estão associadas a pontos turísticos famosos, como montanhas, lagoas e cidades históricas, encantando tanto os moradores quanto os turistas que visitam esses cenários simbólicos.
As lendas são relatos fictícios que mesclam elementos históricos e fatos reais com eventos sobrenaturais e criações da imaginação coletiva. Essa fusão entre realidade e fantasia torna cada narrativa mais cativante, pois estabelece uma ponte entre o passado e o imaginário popular. Por isso, é comum encontrar lendas com personagens indígenas, religiosos, criaturas enigmáticas, fenômenos naturais e figuras do cotidiano transformadas em símbolos culturais.
No estado, o folclore recebe forte influência das heranças indígena, africana e europeia, o que confere às suas lendas uma grande diversidade e profundidade de significados. Elas não só divertem, mas também transmitem valores, explicam comportamentos e preservam tradições. Mesmo as mais conhecidas continuam a despertar interesse e são repassadas em escolas, festividades populares e eventos culturais.
Algumas dessas narrativas marcantes do folclore capixaba são:
O POÇO DE ANCHIETA
Segundo a narrativa, durante uma seca intensa e duradoura em Anchieta, a população sofria com a escassez de água, já que fontes e rios secavam. Em desespero, os habitantes buscaram o padre José de Anchieta, seu guia espiritual. Comovido com a aflição do povo, Anchieta orou e, com seu cajado, golpeou o solo, fazendo brotar milagrosamente uma nascente de água cristalina que encheu um poço. Esse poço, chamado Poço de Anchieta, é lembrado até hoje como um símbolo do milagre e da fé dos capixabas.
O PENEDO
Logo na entrada do Porto de Vitória, destaca-se o imponente Penedo, situado em frente ao antigo Forte de São João. Coberto por gravatás e outras plantas típicas de rochas, ele é um dos grandes símbolos da paisagem capixaba.
Envolto em lendas desde os tempos coloniais, o Penedo é considerado mágico. A tradição diz que os viajantes devem atirar moedas ao passar por ele, pois, se a oferenda atingir o rochedo, ele retribui com felicidade. Conhecido como a sentinela de Vitória, a lenda ainda conta que em seu interior há um palácio encantado, habitado por fadas e príncipes.
A ÁRVORE NEGRA DO QUEIMADO
A Insurreição do Queimado, ocorrida em 1849, é considerada um dos episódios mais dolorosos do século XIX em Serra, no Espírito Santo. Liderada por Elisiário, a revolta expressava o anseio por liberdade dos escravizados. Após fugir da prisão em Vitória, Elisiário refugiou-se nas matas da Serra, onde passou a ser perseguido em uma intensa caçada humana. Enfrentando fome, cansaço e solidão, desapareceu na floresta, sem que seu corpo jamais fosse encontrado.
Com o tempo, surgiram narrativas sobre sua morte. Conta-se que, nas matas do Queimado, aparecia o vulto de uma grande árvore negra, semelhante a uma cabiúna, que marcaria sua sepultura. A figura sumia quando alguém tentava se aproximar. Assim, entre história e mito, a memória de Elisiário permaneceu viva no imaginário popular como um símbolo de luta e liberdade.
O FRADE E A FREIRA
Frade e Freira é um conjunto de dois rochedos de granito, localizados entre Rio Novo do Sul e Cachoeiro de Itapemirim. As formações lembram as figuras de um monge e uma freira, o que inspirou uma das mais belas lendas capixabas.
De acordo com a tradição, a história fala do amor impossível entre um jovem missionário e uma índia goitacá. Enquanto ele pregava o amor divino e mantinha-se fiel ao seu dever religioso, ela se apaixonava e desejava viver ao seu lado, longe de todos. Ao subirem um monte para contemplar o mar, um forte estrondo ecoou; ela clamou por Tupã e ele por Deus. Ambos teriam sido soterrados e, com o tempo, a natureza revelou no alto do monte as duas esculturas de pedra que simbolizam o frade e a freira, eternizando em granito esse amor impossível.
A BACIA DE OURO DA COBIÇA
Cobiça é um local no município de Cachoeiro de Itapemirim, cercado por montanhas e antigas matas, onde existia um profundo desfiladeiro escondido na floresta. Conhecido como “Bacia de Ouro”, o lugar inspirou uma lenda popular: à noite, fadas e anões se reuniriam ali para festas em um palácio subterrâneo iluminado por pedras preciosas, luar e vagalumes.
A PEDRA DA EMA

A lenda relata que, em Burarama, há um sino de ouro enterrado por um escravo após a morte de seu senhor, um fazendeiro que foi morto durante uma expedição em busca de ouro. O sino estaria escondido junto à Pedra da Ema e protegido por espíritos que se reúnem à meia-noite sob uma sapucaieira. Muitos já tentaram encontrar o tesouro, mas sem sucesso. A narrativa ainda diz que o fazendeiro retornou na forma de uma ave, pois sua alma, presa ao ouro, ainda busca a liberdade.
O PÁSSARO DE FOGO
A lenda narra o amor proibido entre Jaciara, princesa da tribo dos Botocudos, e Guaraci, guerreiro dos Temiminós, povos rivais que habitavam a região onde hoje ficam Cariacica e Serra. Impedidos de viver esse sentimento, os dois passaram a se encontrar com a ajuda de uma ave misteriosa. Ao descobrirem o romance, os líderes da tribo recorreram a forças sobrenaturais, e os jovens foram transformados em pedra.
Assim surgiram os montes Moxuara, em Cariacica (Jaciara), e Mestre Álvaro, na Serra (Guaraci), que permanecem frente a frente até hoje, simbolizando esse amor eterno. Segundo a tradição, na noite de São João (24 de junho), um pássaro de fogo cruza o céu entre os dois montes, levando juras e presentes, sinal de que o casal revive, por instantes, sua história de amor.
A SERPENTE DO CEMITÉRIO

A lenda de Águia Branca conta que uma filha cruel maltratava a mãe e, ao vê-la sofrer, foi amaldiçoada com a profecia de que se transformaria em uma serpente após a morte. Quando a jovem morreu e foi enterrada, moradores passaram a ouvir ruídos, gemidos e sons de correntes no cemitério. Diz-se que ela virou uma serpente monstruosa, semelhante a um dragão, que circulava o túmulo, cujas rachaduras sempre reapareciam mesmo após reparos. A história espalhou medo na cidade e reforça, entre as crianças, a crença de que quem desrespeita os pais, pode virar serpente.
A ILHA ESCALVADA
A famosa Ilha Escalvada, de Guarapari, também é conhecida como Ilha do Farol, uma área de proteção ambiental a cerca de 6 milhas da costa. O local abriga um farol e, após sua modernização, os antigos cilindros de gás foram descartados no mar, formando um ponto de mergulho bastante procurado.
A lenda local diz que a ilha é encantada: em certos dias, ela muda de forma e pode parecer um barco, uma baleia, um castelo, uma tartaruga, entre outras figuras, fenômeno observado por muitos turistas. Segundo a tradição, uma bruxa muito bela vivia ali e, com a construção do farol, se transformou em golfinho e passou a viver em uma gruta submersa. Quando sopra o vento nordeste, ela lidera os golfinhos para proteger os mergulhadores, e é nessa época que a ilha se metamorfoseia.
A MÃE-BÁ
A Lenda da Mãe-Bá conta que, em Guarapari, uma tribo indígena vivia às margens de uma grande lagoa e era liderada por BÁ, uma velha índia curandeira e protetora, considerada mãe de todos. Quando um menino adoeceu e ela não conseguiu curá-lo com seus conhecimentos, decidiu fazer uma oferenda aos deuses da natureza na lagoa. Durante o ritual, algo misterioso aconteceu: sua canoa virou e ela morreu. Após encontrarem seu corpo, os índios o cremaram e lançaram as cinzas na lagoa. Depois disso, houve grande abundância de peixes, e o local passou a se chamar Lagoa de Mãe-Bá, em sua homenagem.
A MÃE DO OURO
A lenda da Mãe do Ouro narra a história de uma menina muito bonita, loira de olhos azuis, que se transforma em ouro em pó se alguém cortar o dedo e deixar cair três gotas de sangue sobre sua cabeça. Certa vez, Manoel e três companheiros de Muquiçaba, Guarapari, foram buscar lenha na mata. Manoel encontrou a misteriosa garota, que parecia perdida, mas ela desapareceu e o fez se perder na floresta. Ao relatar o ocorrido, seus amigos ficaram indignados, pois ele teria perdido a única chance da vida de transformar a Mãe do Ouro em ouro e ficar rico.
A PRAIA DOS PADRES
A Lenda da Praia dos Padres diz que a região de Meaípe, Guarapari, era considerada assombrada pelos moradores antigos, porque à noite eles ouviam vozes e conversas de pescadores como se os barcos estivessem se aproximando, mas ao chegar à praia não encontravam nada além de água e ondas. Também escutavam gritos e risadas, como se a praia estivesse cheia de veranistas, e o mar subia tanto que deixava as raízes das castanheiras parecidas com dedos de bruxa.
Assustados, os moradores passaram a levar todo padre que chegava ali para benzer e rezar a praia, o que deu origem ao nome Praia dos Padres.
O LAGARTO DA PEDRA AZUL

A lenda da Pedra Azul conta que um grande lagarto azul vivia na região de Domingos Martins com medo de perder seu lugar para o povo da montanha. Após conflitos, dois garotos aventureiros conseguiram petrificá-lo para proteger a comunidade. Transformado em pedra, ele passou a ser visto como um irmão ancestral que protege a região. Segundo a tradição, o lagarto pode voltar à vida a qualquer momento, e o povo da montanha aguarda esse possível retorno com expectativa.
O JAGUARÁ
A lenda do Jaguará surgiu quando jesuítas catequizavam indígenas e usavam a história de um cavalo que saía do lodo para assustar e impedir fugas. Com o tempo, a narrativa virou folclore. O Jaguará é descrito como uma criatura assustadora, mistura de gente e animal, semelhante a uma mula preta com chifres. Em Apiacá, a figura é representada como um crânio de cavalo em uma ponta de bambu e faz parte de uma festa popular, junto com mulinhas e bois pintadinhos. No teatro interativo, os jaguarás assustam enquanto as mulinhas “protegem” os bois das brincadeiras das crianças.
O MILAGRE DO SINO
Entre as lendas do Convento da Penha, localizado em Vila Velha, destaca-se a do “Milagre do Sino”. Conta a tradição que, na noite em que Frei Pedro Palácios – fundador do santuário e responsável por trazer da Europa a imagem de Nossa Senhora da Penha – morreu ajoelhado em oração, os sinos tocaram sozinhos, anunciando o acontecimento.
Na manhã seguinte, o povo subiu a montanha e encontrou o frei ainda de joelhos, com as mãos postas no altar. Desde então, acredita-se que os sinos do convento dobram misteriosamente em momentos marcantes ou de perigo, mantendo viva a memória do religioso e reforçando o caráter sagrado do santuário.
O PAINEL DA PENHA

A lenda do painel de Nossa Senhora da Penha conta que Frei Pedro Palácios trouxe da Europa uma valiosa pintura da Virgem com o Menino Jesus e a colocou numa pequena capela ao pé do Monte das Palmeiras. Porém, o quadro desaparecia misteriosamente e era sempre encontrado no alto do monte, entre duas palmeiras. A cada vez que o painel retornava ao topo, a comunidade entendia que a Virgem queria morar ali.
Após repetidos episódios, os moradores, guiados por Frei Pedro Palácios, construíram uma pequena ermida no cume em 1566, onde o painel foi finalmente instalado. Assim nasceu a Ermida das Palmeiras, que mais tarde deu origem ao Convento da Penha, tornando-se um dos principais santuários do Espírito Santo, em Vila Velha.
Entre montanhas cobertas de névoa, praias de mar agitado e vilas antigas que guardam segredos no silêncio das noites, as lendas capixabas seguem vivas na memória do povo do Espírito Santo. Histórias e mistérios que envolvem e reforçam a riqueza cultural de um estado onde tradição e imaginação caminham lado a lado. Essas lendas são parte da identidade capixaba, ecos do passado que atravessam gerações, alimentam o imaginário popular e mantêm acesa a chama da cultura local.







