Projeto da Prefeitura para construção ao lado do parque mobiliza moradores, ambientalistas e Ministério Público
Tem coisa que em Vitória é sagrada: pôr do sol na Curva da Jurema, moqueca sem ketchup e caminhada no Parque Pedra da Cebola. Pois é justamente esse último que entrou no centro de uma polêmica urbana que mistura meio ambiente, política e participação popular.
Um terreno contíguo ao parque, incorporado à área verde em gestão anterior, pode dar lugar a uma construção de dois andares para abrigar o Centro de Vivência do Idoso e três associações comunitárias. A proposta é da gestão do prefeito Lorenzo Pazolini e reacende um debate que já havia esquentado em dezembro de 2024, quando a Prefeitura tentou alienar o lote por meio da Lei 10.135. À época, o Ministério Público apontou possíveis irregularidades no processo.

O parque, com mais de 100 mil metros quadrados de vegetação de restinga, é um dos principais refúgios verdes da capital capixaba. O terreno em questão, na rua Vicente de Oliveira, abriga árvores antigas, frutíferas e serve de habitat para espécies como teiús e saruês.
O saruê, por exemplo, é um marsupial inofensivo que ajuda no controle de pragas urbanas, como escorpiões e baratas. Já o teiú, maior lagarto do Brasil, atua como dispersor de sementes e predador natural de espécies invasoras. Especialistas do ICMBio e do Instituto SOS Mata Atlântica alertam que áreas verdes urbanas são fundamentais para equilíbrio térmico, drenagem da água da chuva e manutenção da biodiversidade. Menos verde costuma significar mais calor e mais enchente. A conta chega, e não é parcelada.
Comunidade reage
Fernando Furtado de Melo lidera um abaixo assinado contra a obra. Até o momento, são mais de 900 assinaturas verificadas. Segundo ele, o espaço é cuidado há anos, abriga saruês, téius, sagüis e também gatos comunitários assistidos por voluntários da região. Moradores relatam falta de diálogo na tramitação do projeto, aprovado em regime de urgência na Câmara Municipal um dia após ser protocolado.
Williane, moradora da Grande Vitória, afirma que o parque simboliza paz e convivência. Já Solange, frequentadora há 13 anos, chama a possível substituição por concreto de crime ambiental.
A Prefeitura argumenta que a alienação e a reorganização imobiliária visam eficiência administrativa e novos investimentos. A prefeitura, tambem argumenta que o terreno “não faz parte do Parque Pedra da Cebola e foi desapropriado no início dos anos 2000. Ou seja, há quase duas décadas, não há qualquer projeto de uso para o local, gerando transtorno para os moradores da região e visitantes do parque”, declarou, em nota.
O debate, porém, vai além da papelada. Envolve modelo de cidade. Queremos uma Vitória que respire ou uma que transpire? A discussão não é apenas sobre um lote. É sobre memória coletiva, biodiversidade e qualidade de vida. A pergunta que ecoa entre as árvores é simples: qual legado queremos deixar?
Serviço
Abaixo assinado contra a construção no terreno ao lado do Parque Pedra da Cebola
Local do terreno: Rua Vicente de Oliveira, Mata da Praia, Vitória
Mobilização organizada por moradores e ambientalistas
Assinatura AQUI







