A EE Parque dos Sonhos, instituição de ensino estadual localizada em Cubatão, no litoral paulista, recebeu o título de “melhor escola do mundo” da organização internacional T4 Education, na categoria de superação de desafios. Antes marcada por episódios de vandalismo e agressões, a unidade não registra mais incidentes há vários anos, graças à adoção de novas práticas e atividades que redirecionaram a trajetória dos estudantes.

Com salas de aula, corredores, quadra esportiva, carteiras, lousa, portões, professores e alunos, ela parece uma escola comum. Ainda assim, foi eleita a melhor do planeta. A pergunta que fica é: o que a torna diferente?
Para o diretor Régis Marques Ribeiro, de 43 anos, a resposta não está na infraestrutura física. Ele conta que visitantes costumam observar e comentar: “É só uma escola”. Na sua avaliação, a transformação veio da intencionalidade das ações e da determinação em mudar uma realidade antes dominada pela violência.
Inaugurada em 2014, após ser construída no ano anterior, a EE Parque dos Sonhos enfrentava um cenário crítico quando Régis assumiu a direção, em 2016. A instituição era popularmente chamada de “Parque dos Pesadelos”. O diretor lembra de ocorrências frequentes de roubos, conflitos e depredação do patrimônio. Era um lugar onde furtos aconteciam, alunos se agrediam e professores pediam transferência.
Um choque veio no seu segundo dia no cargo, quando ele encontrou cinco pedradas dentro da sua sala. Em outra ocasião, viu uma mãe entrar na escola com uma barra de ferro para agredir um estudante, que teve uma convulsão durante o episódio. A situação o deixou indeciso entre conter a mulher ou acionar o serviço de emergência.
A mudança decisiva partiu de uma nova perspectiva sobre como alterar aquele contexto. O diretor chegou com ideias baseadas na não violência, na transformação social e na motivação. Seu objetivo era tornar o espaço um ponto de paz, um esforço que mobilizou professores, estudantes e a comunidade do entorno.
Pequenas ações fizeram a diferença
A estratégia não se apoiou em um único projeto grandioso, mas na soma de diversas iniciativas menores que, juntas, geraram um efeito significativo. A escola implementou oficinas, ampliou a oferta de atividades culturais e esportivas e criou a Semana da Não-Violência, com momentos de diálogo e debate.
Entre os projetos mais simbólicos está o “Escola Vai à Sua Casa”, no qual educadores visitam a residência de alunos com histórico de faltas ou problemas de comportamento. O foco era mostrar a importância da escola na vida daquela criança e seu potencial transformador. A prática também muda a percepção dos professores sobre estudantes considerados problemáticos, pois eles passam a conhecer o ambiente e as perspectivas que moldam a vida do aluno.
Os resultados apareceram em dados concretos. O número de matrículas, que era de 116 em 2016, saltou para aproximadamente 1.200 no início de 2026, um aumento superior a 1000%. Ao mesmo tempo, os registros de ocorrências praticamente cessaram, sem a necessidade de abrir boletins há cerca de três ou quatro anos.
Um senso de pertencimento foi incorporado ao dia a dia dos estudantes, que passaram a cuidar do ambiente escolar. O diretor costuma repetir que a escola pertence a eles. Quando há danos ao patrimônio, a resposta é educativa: além de pedir desculpas, o responsável deve reparar o prejuízo. Assim, alunos que quebram carteiras ou picham paredes assumem a tarefa de consertar ou restaurar o que foi danificado.
Prêmio internacional e criação da rede
O reconhecimento em escala global se concretizou com o World’s Best School Prize, da T4 Education, uma plataforma que conecta líderes educacionais ao redor do mundo. Em setembro de 2025, a escola venceu na categoria Superação de Adversidades, pelo combate à violência e pela construção de uma cultura de paz em uma região socialmente vulnerável de Cubatão.
A premiação impulsionou a formação da Rede Escolas dos Sonhos, que terá início em 2026 com um projeto-piloto envolvendo 105 unidades estaduais. A proposta é atuar de forma colaborativa em rede. As escolas participantes desenvolverão planos para melhorar a convivência, com estabelecimento de metas e monitoramento contínuo.

O diretor também enfatiza a importância de oferecer suporte a outros gestores, destacando que a função de dirigir uma escola pode ser solitária. A rede surge como um ambiente para compartilhar e fortalecer mutuamente, com o compromisso de ninguém abandonar o outro na jornada de transformar a educação.
Mais do que buscar resultados em avaliações padronizadas, o educador defende que o foco deve estar no futuro dos alunos. Ele usa uma metáfora: educar é como plantar uma tamareira, pois quem a planta não será quem colherá seus frutos.
Hoje, o antigo “Parque dos Pesadelos” se consolidou como uma referência internacional. Uma escola que, mesmo sem se diferenciar das outras na estrutura física, escolheu se destacar na maneira de acolher, ouvir e transformar vidas por meio da educação.







