25 de fevereiro de 2026
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Tarifas de Trump podem afetar acordo Mercosul-UE

A implementação de sobretaxas de 10% sobre importações, decretada pelo governo de Donald Trump com vigência inicial de 150 dias, reacendeu o debate sobre o alinhamento estratégico dos principais blocos econômicos mundiais. Diante dessas medidas protecionistas dos Estados Unidos, analistas têm visões diferentes sobre como essas ações podem influenciar a conclusão do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia.

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O tratado já foi assinado, mas ainda precisa passar por uma revisão jurídica pela Corte de Justiça da União Europeia. O principal ponto de discordância envolve os produtos do setor agrícola. Por isso, o processo de ratificação está parado: é necessário primeiro o aval da Justiça europeia para que, depois, o acordo seja votado pelos parlamentos de cada país. Nessa fase, ele ainda pode enfrentar resistência de setores mais protecionistas.

Incerteza pode ‘impulsionar’ as negociações

Para Alexandre Lucchesi, coordenador do Grupo de Trabalho sobre América Latina no Observatório de Política Externa Brasileira (Opeb) da UFABC, a instabilidade gerada pela política comercial norte-americana pode servir de catalisador para os europeus, ainda que de forma indireta. Na visão dele, a volatilidade nas tarifas funcionaria como um “impulsor” para as conversas.

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Lucchesi avalia que a postura agressiva de Trump ao estabelecer novas tarifas de 10%, depois que a Suprema Corte revogou as alíquotas anunciadas no ano passado, representa uma tentativa de “aumentar a aposta”.

Ele argumenta que esse cenário cria um ambiente em que setores não agrícolas da Europa – que tendem a ser mais favoráveis ao acordo – podem pressionar por garantias comerciais com maior estabilidade.

O coordenador ressalta que, mesmo com as tensões políticas concentradas na França e na Alemanha, a movimentação dos Estados Unidos pode fortalecer o argumento de quem busca diversificar parcerias. “Se houver algum efeito nessa questão tarifária, será para acelerar o processo”, afirma.

Obstáculo na Europa é ‘político’ e independe de Trump

Por outro lado, Verônica Cardoso, diretora da consultoria LCA e especialista em comércio exterior, tem uma visão mais cautelosa sobre um possível vínculo direto entre as tarifas de Trump e o desbloqueio do acordo com os europeus.

Segundo ela, os impasses seguem uma dinâmica interna, alheia às mudanças tarifárias recentes dos EUA. “Não vejo uma ligação direta deste movimento forçando a assinatura de qualquer maneira”, diz Cardoso.

Para a especialista, a barreira ao acordo Mercosul-UE é “essencialmente política”, baseada em questões jurídicas e agrícolas específicas de certos países do bloco. É improvável que isso mude por causa do cenário externo. Cardoso acrescenta que, de forma paradoxal, a nova tarifa uniforme de 10% traz “certa normalidade ou regularidade que não existia no último ano”, já que iguala as condições para todos os parceiros comerciais dos EUA – diferente da turbulência seletiva vista antes.

A diretora da LCA destaca que a política americana só interferiria se a União Europeia estivesse privilegiando commodities norte-americanas em detrimento das brasileiras, o que não é o caso. “O contexto não muda significativamente as razões pelas quais o acordo está sendo contestado na União Europeia”, finaliza.

Exportações podem ser antecipadas

Enquanto o acordo com a Europa segue parado, travado por “uma justificativa jurídica” e pela oposição do agronegócio, como define Cardoso, o efeito imediato das tarifas de Trump deve aparecer na balança comercial brasileira por outro caminho.

A expectativa é de uma antecipação de embarques para os Estados Unidos nos próximos meses, com exportadores tentando aproveitar a janela de 150 dias antes de possíveis novas mudanças nas regras.

Segundo Cardoso, o prazo de validade da sobretaxa gera uma corrida logística imediata. “Devemos ver algum adiantamento de embarques para os Estados Unidos nesses próximos meses, justamente para garantir essa janela de oportunidade”, afirma.

A lógica do mercado é aproveitar a relativa previsibilidade criada pelo anúncio, mesmo que o custo seja maior do que no passado recente.

Cardoso lembra que, embora a tarifa linear de 10% represente um aumento de custo – a média anterior em 2024 ficava em torno de 3% –, ela oferece, paradoxalmente, um cenário de concorrência mais equilibrado para os produtos brasileiros frente aos concorrentes asiáticos.

Isso acontece porque, agora, as tarifas são iguais para todos os países, incluindo a China. No quadro protecionista atual, isso pode ser visto como “uma vantagem”, ainda que “não seja o cenário ideal que existia antes”.

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