16 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Construção civil cresce com força do emprego, mas juros e custos pressionam

Embora o mercado de trabalho esteja em condições historicamente favoráveis e a renda em ascensão, o setor da construção civil enfrentou um 2025 sob forte pressão, por causa das altas taxas de juros e dos custos crescentes de mão de obra e materiais. Esse cenário é descrito pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), que observa a resiliência do segmento mesmo diante de um contexto econômico difícil. A entidade mantém, porém, uma perspectiva mais otimista para 2026, com uma estimativa de crescimento de 2%, baseada em crédito e investimentos em infraestrutura.

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Como um dos principais motores do Produto Interno Bruto nacional, a construção civil registrou um crescimento de 1,3% em 2025. Segundo a economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, a análise do panorama econômico indica que o PIB do país avançou 2,4% até o terceiro trimestre, tendendo a manter esse percentual até o fim do ano.

Esse desempenho está ligado à robustez do mercado de trabalho, que atingiu sua menor taxa de desocupação desde 2012, ficando em 5,1% – um valor bem inferior ao pico de quase 15% registrado no auge da pandemia.

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“O país terminou o ano com 103 milhões de pessoas empregadas e uma renda média mensal real de R$ 3,6 mil. Ainda nesse contexto favorável, a construção evoluiu em um ritmo mais comedido por causa dos juros e dos custos”, afirmou a economista.

Ao mesmo tempo, houve uma redução na confiança dos empresários do ramo, o que reflete prudência nas decisões de investimento, conforme mostrou a Sondagem da Construção, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com a CBIC.

Custos em alta

Os custos foram o principal fator de pressão sobre o setor. O custo da construção aumentou 5,9% em 2025, superando a inflação oficial de 4,26%. O maior impacto veio da mão de obra, que subiu 8,98%, puxando todo o indicador do segmento. Apesar disso, o número de trabalhadores com carteira assinada na construção cresceu 3,08%, chegando a 2,9 milhões de empregados formais – um patamar próximo ao observado em 2014, segundo dados da CBIC.

A pressão, no entanto, não veio apenas do trabalho. Os insumos também ficaram mais caros, contribuindo para apertar o orçamento das obras. Um levantamento do Índice de Preços de Materiais de Construção (IPMC), feito pelo Ecossistema Sienge, revela que o cimento e o fio de cobre foram os principais responsáveis pela elevação de custos em 2025, com impacto variável entre as regiões.

A região Sul liderou o aumento nacional, com o cimento subindo 8,4% e o fio de cobre avançando 19,5% – a maior variação registrada no país. No Nordeste, o cimento foi o principal foco de pressão, com alta de 11,9%. Já o Sudeste apresentou aumento moderado nesses insumos, parcialmente compensado pela queda nos preços do ferro, da tinta e da argamassa.

Por outro lado, Norte e Centro-Oeste viveram um cenário mais favorável. O Norte registrou queda de 4,46% no preço do cimento, enquanto o Centro-Oeste apresentou deflação de 8,77% no fio de cobre. O ferro acumulou recuo em todas as regiões, com destaque para o Norte, onde a retração chegou a 18,59%.

Segundo Gabriela Torres, gerente de inteligência estratégica do Sienge, 2025 foi marcado por uma acomodação inflacionária, mas com diferenças regionais significativas. Para a CBIC, o comportamento dos preços fugiu da lógica histórica, com um descolamento entre o câmbio e insumos dolarizados, como o cobre.

Emprego e renda

Apesar do encarecimento, o mercado de trabalho seguiu aquecido. Em alguns meses de 2025, o setor superou a marca de 3 milhões de trabalhadores formais, consolidando o sexto ano consecutivo de resultados positivos, de acordo com a CBIC. No entanto, a geração de vagas desacelerou, totalizando 87.878 novos empregos no ano – uma queda de 19,5% em relação a 2024. A construção foi o segundo segmento com maior salário médio de admissão no país, de R$ 2.294.

Regionalmente, São Paulo liderou a criação de vagas, seguido por estados do Nordeste como Pernambuco, Bahia e Ceará. Foi a primeira vez desde 2020 que a região voltou a se destacar na geração de empregos na construção, conforme a entidade.

Os indicadores de consumo mostraram sinais mistos. As vendas no varejo de material de construção recuaram 0,2% no acumulado dos 11 primeiros meses do ano, enquanto o consumo de cimento cresceu 3,68%, totalizando 66,9 milhões de toneladas, segundo o levantamento. Em infraestrutura, os investimentos públicos e privados somaram R$ 280 bilhões em 2025, com predominância do capital privado, responsável por 84% do total.

Crédito imobiliário

No crédito imobiliário, houve uma reacomodação. O financiamento com recursos da poupança (SBPE) somou R$ 156 bilhões, uma queda de 13% ante 2024. Já as operações com recursos do FGTS atingiram R$ 138 bilhões, com alta de 8,75%.

Segundo o presidente executivo da CBIC, Fernando Guedes Ferreira Filho, a combinação de juros elevados e carga tributária se tornou o principal obstáculo do setor. “O peso da tributação impactou diretamente a operação das empresas, somado ao custo da mão de obra”, afirmou.

Tendência para 2026

Marcelo Azevedo, gerente de análise econômica da CNI, afirma que o alto custo do trabalhador qualificado já é um problema estrutural da indústria como um todo, e não é diferente para a construção. Para 2026, as preocupações do segmento continuam concentradas em juros elevados, escassez de mão de obra especializada e no cenário fiscal do país.

A expectativa, contudo, é de melhora. A CBIC projeta um crescimento de 2% para a construção em 2026, impulsionado pelo início do ciclo de queda da Selic, ampliação do crédito habitacional, novos contratos do Minha Casa, Minha Vida e investimentos em infraestrutura.

A construção, segundo Ieda Vasconcelos, é fundamental para impulsionar o crescimento da economia como um todo. “Mesmo pressionado, o setor encerrou 2025 demonstrando resiliência. Se o crédito reagir e os juros recuarem de forma consistente, a construção pode voltar a exercer um papel ainda mais relevante como motor do crescimento econômico brasileiro”, disse.

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