A alta dos preços aliada à busca por um consumo sustentável tem ampliado o número de adeptos dos brechós em várias regiões do país. Se no passado esses locais levavam o estigma de ser um espaço onde eram comercializadas roupas velhas e em mau estado, agora eles têm buscado atingir diferentes públicos, com uma gama diversa de produtos. Uma das apostas é oferecer itens para públicos específicos, o que atrai mais clientes e permite maior rotatividade das peças.
Segundo uma mestra e professora do curso de Design de Moda de uma universidade o varejo em brechó está associado ao conceito de moda circular e se contrapõe à moda linear convencional. Nesta última, a professora explica que são baixas as preocupações relacionadas a um processo sustentável de produção, sendo mais agressivo ao planeta. Já na moda circular há uma “retroalimentação”, cujo foco é a busca pelo menor impacto ambiental.
“Dentro desse sistema dos brechós, a gente tem a moda circular. Esses espaços fazem com que essa roupa, quando comercializada para um público-alvo diferente, tenha uma nova interpretação, seja percebida com um valor diferente. Então, essa peça que já passou por um ciclo de consumo será consumida novamente, mas com outra percepção de valor, diferente daquela que o usuário tinha no momento do descarte”, explica.
A pandemia forneceu um boom para o setor, conforme aponta um levantamento realizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com base em dados da Receita Federal. A abertura de estabelecimentos que comercializam produtos usados cresceu 48,58% na comparação entre os primeiros semestres de 2020 e 2021.
Essa mudança de comportamento, segundo a especialista, está atrelada a diversos fatores, dentro os quais predomina a preocupação com a sustentabilidade e a busca por peças únicas.
“Esse dado é muito atrelado ao interesse dos Millennials [nome dado à geração nascida entre os anos de 1980 a 1994] e da Geração Z [nascidos a partir de 1995], ainda mais especialmente dessa segunda, por peças de segunda mão e muito movido por essa percepção dos danos da indústria do vestuário. Além disso, os brechós oferecem uma possibilidade desse usuário alcançar um estilo pessoal mais vanguardista, que fuja da massificação das araras do fast fashion”, defende. O que auxilia nisso são a criação de brechós voltados a nichos específicos e que fornecem peças inacessíveis ou que já estão esgotadas no mercado formal.
Brechó plus size
Seguindo nesse caminho, uma empresária decidiu montar um brechó voltado apenas para mulheres plus size. A ideia surgiu no final do ano de 2015, após ela passar por um processo de separação, aliado ao desemprego. Ela conta que sempre foi plus size, mas nesse processo de separação acabou perdendo peso e muitas das roupas que tinha, inclusive novas, já não serviam. Numa página em uma rede social ela começou a revender essas peças. E foi a partir disso que ela montou o próprio brechó.
“Algumas mulheres me perguntaram se eu tinha um brechó e eu disse que não. Elas então me incentivaram a criar um, pois peças plus size são caras e difíceis de achar. E eu descobri no brechó minha vocação. É o que mais gosto de fazer”, revela.
Apostar nesse público foi uma estratégia utilizada que também a auxiliou a conquistar a independência financeira. Mesmo não possuindo um local físico para vender as roupas, a utilização das redes sociais ajuda a divulgar os produtos e manter as clientes.
“Meu público é bem específico, as mulheres plus estão deixando de esconder o corpo, estão à procura de roupas mais modernas e que valorizem seus atributos. Eu sempre garimpo peças com esse pensamento em mente. Busco por roupas bonitas e que valorizem todas elas, independente do tamanho”, destaca.







