Mulher trans é assassinada com facada no ES; Brasil é o país mais violento para trans e travestis

O Brasil é o país mais violento para pessoas trans e travestis no mundo. E um caso dessa violência chocou o Espírito Santo, uma mulher trans, de 41 anos, foi assassinada na noite dessa quinta-feira (3) em Pancas, região Noroeste do Estado. A vítima teve o peito perfurado por uma faca. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu ao ferimento.

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A reportagem do MovNews procurou a Polícia Militar. Por nota, o órgão disse que foi acionado no final da noite de ontem e prosseguiu até o hospital de Pancas, onde uma mulher trans havia dado entrada com um ferimento por arma branca. No local, um homem que acompanhava a vítima informou que o fato teria se passado em Lajinha de Pancas, durante uma discussão, entre duas outras pessoas.

A guarnição prosseguiu até o endereço, onde localizou o suspeito de 33 anos dentro da residência da ex-companheira. O homem apresentava sinais visíveis de embriaguez e não resistiu a prisão. Já a mulher relatou aos militares que estava em uma discussão com o ex-marido, quando a vítima interveio com intuito de defendê-la das agressões. O homem e a mulher trans acabaram entrando em luta corporal, momento em que o ele teria tirado uma faca da cintura e desferido um golpe no peito da vítima.

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Em nota, a Polícia Civil (PC) informou que o suspeito de ter cometido o crime foi autuado em flagrante pelo crime de homicídio e encaminhado para a Delegacia Regional de Colatina. Após prestar depoimento ele foi encaminhado ao sistema prisional.

O corpo da vítima foi encaminhado para o Serviço Médico Legal (DML) de Colatina, para ser necropsiado e, posteriormente, liberado para os familiares.

Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis

O Brasil é o país com mais mortes de pessoas trans e travestis no mundo pelo 14º ano consecutivo. Segundo o Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), México e Estados Unidos aparecem em segundo e terceiro lugares, respectivamente.Em 2022, 131 pessoas trans e travestis foram assassinadas no país. Outras 20 tiraram a própria vida em virtude de discriminação e do preconceito. Os dados fazem parte do documento divulgado na última quinta-feira (26), em cerimônia no Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Entre os assassinatos deste ano, 130 referem-se a mulheres trans e travestis e uma a homem trans. A pessoa mais jovem assassinada tinha apenas 15 anos. Quase 90% das vítimas tinham de 15 a 40 anos.

Para o ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, os dados são uma “tragédia”, mas representam a oportunidade de mudança da realidade em que vivem atualmente pessoas transexuais e travestis.

“O fato de termos um relatório como esse aponta para possibilidade de pensar superar essa tragédia. Ter o conhecimento, ter os dados, ter a possibilidade de olhar de frente para esse problema, nos traz perspectiva de mudança, de transformação”, disse. “Quando falamos sobre gênero e sexualidade, somos acusados de sermos identitários. Pergunto a essas pessoas se é possível construir um país com os números que vemos agora”, acrescentou.

De acordo com a pesquisadora responsável e secretária de Articulação Política da Antra, Bruna Benevides, contribuem para esse quadro fatores como a ausência de ações de enfrentamento da violência contra pessoas LGBTQIAP+. A falta de dados e subnotificações governamentais também podem contribuir para um cenário impreciso ao longo dos anos, além de dificultar a identificação de acusados.

“Qual é a visibilidade que pessoas trans têm tido? Se pegar o telefone e pesquisar no Google ou qualquer outro mecanismo a palavra ‘travesti’, oito em cada 10 notícias são sobre violência e esse cenário tem que mudar. Nós somos linhas de frente para sermos vistas, mas também somos linhas de frente para sermos mortas”, questionou Bruna.

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Segundo o levantamento, entre os 131 assassinatos do ano passado, foram identificados 32 suspeitos. O dossiê indica que a maior parte dos suspeitos não costuma ter relação direta, social ou afetiva com a vítima. Além disso, “práticas policiais e judiciais ainda se caracterizam pela falta de rigor na investigação, identificação e prisão dos suspeitos”.

“É constante a ausência, precariedade e a fragilidade dos dados, muitas vezes intencionalmente, usados para ocultar ou manipular a ideia de uma diminuição dos casos em determinada região”, diz o levantamento.

O documento apontou ainda que 61% dos assassinatos ocorreram durante o primeiro semestre de 2022. Em números absolutos, Pernambuco foi o estado que mais registrou assassinatos, com 13 casos, seguido por São Paulo (11), Ceará (11), Minas Gerais (9), Rio de Janeiro (8) e Amazonas (8).

O perfil das vítimas no Brasil é o mesmo dos outros anos: mulheres trans e travestis negras e empobrecidas. A prostituição é a fonte de renda mais frequente. Entre as vítimas, 76% eram negras e 24% brancas. O levantamento mostra que mulheres trans e travestis têm até 38 vezes mais chance de serem assassinadas em relação aos homens trans e às pessoas não-binárias.

“Não diferente dos anos anteriores, o fato de que em 2022 a maioria daquelas onde foi possível identificar a atividade, pelo menos 54% dos assassinatos foram direcionados contra travestis e mulheres trans que atuam como profissionais do sexo, as mais expostas à violência direta e vivenciam o estigma que os processos de marginalização impões a essas profissionais”, indica o dossiê.

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